A carga precoce após fratura de fêmur pode favorecer a recuperação de idosos submetidos ao tratamento cirúrgico. Entretanto, persistem dúvidas sobre a segurança do apoio irrestrito e sua associação com mortalidade, complicações e desempenho funcional. Para investigar esses desfechos, uma revisão sistemática publicada na Acta Orthopaedica Belgica, em 2026, reuniu estudos que compararam diferentes estratégias de apoio de peso pós-operatório.
A revisão identificou associações favoráveis à mobilização precoce, mas destacou limitações metodológicas que impedem estabelecer causalidade.
Mortalidade após fratura de quadril varia conforme a carga
A mortalidade após fratura de quadril foi menor nos grupos com carga total em algumas coortes. No estudo de Ottesen e colaboradores, a mortalidade em 30 dias foi de 3,2% com carga total e 5,5% com carga parcial (OR 1,58; IC95% 1,15–2,17; p=0,005).
Warren e colaboradores observaram mortalidade de 2,9% versus 6,9% após fixação com haste cefalomedular, respectivamente com carga total e parcial (OR 0,53; IC95% 0,38–0,74; p<0,001). Essa associação não foi significativa nos grupos tratados com parafuso dinâmico de quadril ou hemiartroplastia.
Em outra coorte, a mortalidade em 3,5 anos alcançou 38,9% com carga total, 52,0% com carga parcial e 64,7% com carga zero (p<0,001).
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Como o apoio de peso pós-operatório foi investigado?
Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática conforme o PRISMA 2020, com buscas em MEDLINE, Embase, Scopus e literatura cinzenta. Foram considerados estudos publicados entre janeiro de 2003 e junho de 2024.
A seleção contemplou estudos intervencionais e coortes observacionais com pacientes de 65 anos ou mais, operados por fratura proximal do fêmur. Excluíram-se fraturas patológicas, periprotéticas, múltiplas e tratamentos conservadores.
Dos 695 registros avaliados por título e resumo, sete estudos foram incluídos, totalizando 15.626 pacientes. As comparações envolveram carga total conforme tolerância, carga parcial e ausência de apoio. Os desfechos compreenderam mortalidade, complicações, internação e função.
A avaliação de viés utilizou ROBINS-I e RoB. Devido à heterogeneidade clínica e metodológica, os autores realizaram síntese narrativa, sem metanálise.
Complicações clínicas pós-operatórias diferem entre grupos
Na coorte de Ottesen, complicações graves ocorreram em 9,8% dos pacientes com carga total e 13,4% daqueles com carga parcial (OR 1,34; IC95% 1,10–1,64; p=0,004).
Warren identificou menor frequência de complicações graves com apoio irrestrito após haste cefalomedular, com 13,8% versus 19,9% (OR 0,75; IC95% 0,62–0,90; p=0,002). Após fixação com parafuso dinâmico, as proporções foram 10,9% e 20,6%, respectivamente (OR 0,59; IC95% 0,41–0,87; p=0,007).
Nas hemiartroplastias, não houve diferença significativa. Outros estudos também apresentaram resultados divergentes, conforme os eventos analisados e o período de acompanhamento.
Saiba mais: Fatores de risco para complicações após fratura do quadril em idosos (https://portal.afya.com.br/ortopedia/fatores-de-risco-para-complicacoes-apos-fratura-do-quadril-em-idosos)
A carga parcial protege contra complicações ortopédicas?
A restrição de carga não demonstrou proteção consistente contra falhas mecânicas. Ottesen encontrou taxas de revisão cirúrgica de 2,1% com carga total e 2,2% com carga parcial (OR 0,95; IC95% 0,60–1,50; p=0,814).
Takemoto, entretanto, identificou falha de implante em 2,4% dos pacientes com apoio total e 12,2% daqueles com restrição (p=0,041).
A revisão ressalta que poucos estudos avaliaram sistematicamente essas complicações. Portanto, a ausência de diferenças significativas não comprova equivalência de segurança.
Saiba mais: Reoperação no 1º ano após fratura de quadril — o que o cirurgião deve saber
Tempo de internação hospitalar diminui em algumas coortes
Ottesen observou internações de pelo menos sete dias em 21,6% dos pacientes com carga total e 31,8% daqueles com carga parcial (OR 1,59; IC95% 1,37–1,85; p<0,001).
Warren também identificou menor permanência hospitalar associada ao apoio irrestrito após osteossíntese, mas não após hemiartroplastia.
Em contrapartida, outras investigações não encontraram diferenças significativas. Os resultados indicam que a duração da hospitalização não depende exclusivamente da estratégia de apoio.
Avaliar a recuperação funcional durante a reabilitação
Dois ensaios randomizados investigaram desfechos funcionais. Sherrington encontrou melhora significativa em testes de equilíbrio e na capacidade de levantar-se repetidamente da posição sentada com exercícios realizados em carga total.
Moseley também identificou benefícios em determinadas medidas funcionais, particularmente entre pacientes com comprometimento cognitivo.
Entretanto, os estudos utilizaram instrumentos diferentes, e os benefícios não foram uniformes para força muscular e velocidade de marcha. A recuperação funcional permanece, portanto, um resultado promissor, mas insuficientemente demonstrado.
Mobilização precoce exige avaliação individualizada
A revisão sugere que a carga precoce após fratura de fêmur pode estar associada à menor mortalidade, redução de complicações e internações mais curtas, sem aumento evidente de eventos ortopédicos.
Contudo, predominam estudos observacionais sujeitos a confundimento e viés de seleção. Estabilidade da fratura, qualidade da redução, fixação e características clínicas podem influenciar tanto a liberação de carga quanto os resultados.
Na prática clínica, os achados favorecem considerar a mobilização precoce durante a reabilitação, desde que a prescrição respeite as condições individuais. A evidência não permite recomendar apoio irrestrito universalmente nem atribuir causalidade aos benefícios observados.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Giovanni Vilardo Cerqueira Guedes
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2016. Ortopedista, Cirurgião de Mão e Microcirurgião formado pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Musculoesquelético. Atua como Staff do serviço de Cirurgia de Mão do INTO e Professor Substituto de Cirurgia de Mão na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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