A fratura de quadril no idoso é um evento de alto risco, com mortalidade bem documentada e impacto funcional significativo. Mas há outro desfecho que merece igual atenção: a necessidade de uma nova cirurgia no membro operado.
Embora a literatura aponte taxas de reoperação em torno de 2,7% dentro de 120 dias em grandes centros, esses números podem subestimar a realidade quando se considera um ano de seguimento e hospitais diversos não necessariamente de referência.
Pesquisadores do Reino Unido, liderados conduziram uma coorte nacional retrospectiva utilizando dados do National Hip Fracture Database (NHFD) ingleses, vinculados aos registros hospitalares (Hospital Episodes Statistics) e ao registro civil de mortalidade.
O objetivo foi caracterizar o risco de reoperação no ano seguinte à cirurgia de fratura de quadril em pacientes com 60 anos ou mais. Foram incluídos 164.691 pacientes tratados em 159 hospitais ingleses entre abril de 2016 e março de 2019, com seguimento de 365 dias. O trabalho foi publicado em maio de 2026 na renomada revista científica Bone & Joint Journal.

Qual a taxa de reoperação em um ano e como ela varia entre hospitais?
No total, 4,6% dos pacientes foram submetidos a pelo menos uma nova cirurgia relacionada à fratura no primeiro ano. Aos 120 dias, a taxa foi de 3,4%, superior à estimativa prévia do próprio NHFD (2% a 3%) e mais alinhada aos achados de estudos prospectivos menores.
A variação entre hospitais foi expressiva: de 2,3% a 9,4%. Essa diferença pode refletir múltiplos fatores: perfil populacional, seleção de pacientes, técnica cirúrgica, cuidados pós-operatórios, suporte comunitário e até vieses de notificação.
Quais fraturas e procedimentos apresentam maior risco de reoperação?
A combinação de maior risco foi a fratura subtrocantérica fixada com haste cefalomedular, contabilizando uma taxa de 7,2% de reoperação em um ano. As fraturas trocantéricas tratadas com placa deslizante (DHS) tiveram risco de 4,0%, menor do que as tratadas com haste cefalomedular (5,8%), o que está em linha com as diretrizes do NICE, que recomendam DHS para a maioria das fraturas trocantéricas estáveis.
Nas fraturas intracapsulares desviadas tratadas com hemiartroplastia, o risco de reoperação foi de 4,1% e com artroplastia total de quadril (ATQ), foi de 5,5%. Já nas fraturas intracapsulares não desviadas tratadas com fixação interna (parafusos ou DHS), o risco foi de 4,1%.
Qual o momento e as indicações mais frequentes de reoperação?
Metade das reoperações ocorreu nos primeiros 30 dias (mediana de 32 dias). A indicação variou conforme o tempo: infecção foi a causa mais comum nas reoperações precoces (≤30 dias), enquanto fratura periprotética predominou nas tardias (>30 dias). Luxação foi a terceira causa mais frequente, e cerca de 9% das reoperações tiveram múltiplas indicações (combinações de infecção, fratura, falha de fixação, pseudoartrose ou necrose avascular).
Quem tem maior risco de reoperação? E qual a relação com mortalidade?
Pacientes mais jovens (60-69 anos) tiveram maior risco de reoperação (6,2%) do que os mais idosos (≥90 anos: 3,7%). Aqueles residentes em asilos e com alto escore ASA também tiveram menor chance de serem reoperados, provavelmente refletindo uma seleção clínica: pacientes mais frágeis e com pior prognóstico vital são menos frequentemente submetidos a uma segunda cirurgia.
A mortalidade em 30 dias foi menor no grupo reoperado (2,5% vs 6,5%), mas essa diferença se anulou em 365 dias (28,0% vs 27,3%). Ou seja, a decisão de reoperar parece acertadamente reservada aos pacientes com melhores condições basais. Entre os reoperados, a mortalidade em um ano foi maior naqueles operados precocemente (≤30 dias: 33,3%) do que tardiamente (>30 dias: 23,1%), sugerindo que as indicações precoces (infecção, fratura perioperatória) carregam maior gravidade intrínseca.
Qual a mensagem prática deste estudo?
O estudo inglês publicado traz dados robustos e de alta validade externa para orientar o consentimento informado e a escolha do procedimento. A reoperação em um ano afeta cerca de 1 em cada 20 pacientes, mas o risco varia mais de quatro vezes entre hospitais, indicando espaço para melhoria de qualidade. Infecção e fratura periprotética são as principais causas, e a seleção do implante (DHS vs haste cefalomedular, hemiartroplastia vs ATQ) influencia o desfecho.
Para o paciente idoso e frágil, o menor risco de reoperação não deve ser interpretado isoladamente, e a sobrevida em um ano é semelhante com ou sem nova cirurgia, assim a decisão deve pesar risco-benefício, qualidade de vida e desejo do paciente.
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