A fratura do quadril no idoso é tradicionalmente associada a um risco elevado de mortalidade no primeiro ano após o trauma, com taxa em torno de 20% a 30%, dependendo da série. Mas o que acontece com as fraturas de outros ossos longos, como tíbia, fêmur distal ou úmero? Será que o impacto na sobrevida é semelhante, ou estamos diante de um risco que merece ser mais bem compreendido?
Pesquisadores de diversas instituições americanas, conduziram um estudo retrospectivo do tipo coorte utilizando a plataforma TriNetX US Collaborative Network, que reúne dados eletrônicos de saúde de 68 a 69 organizações nos Estados Unidos.
O objetivo foi avaliar a mortalidade em um ano após fraturas de ossos longos em pacientes com 65 anos ou mais, comparando diferentes sítios anatômicos a uma coorte pareada por idade sem história de fratura.
Quais foram os métodos escolhidos?
Foram analisados dados de 2004 a 2024, totalizando 165.017 pacientes no grupo fratura e 4,55 milhões no grupo controle. Após pareamento por escore de propensão (1:1), restaram 162.469 pacientes em cada coorte. O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Injury.
Qual a mortalidade global da coorte sem fratura?
A mortalidade em um ano na coorte controle pareada foi de 2,77%. Todas as fraturas de ossos longos avaliadas independentemente do sítio foram associadas a um aumento significativo desse risco.
Quais fraturas apresentaram maior mortalidade?
As fraturas do quadril (região do colo femoral) lideraram com a maior taxa de mortalidade em um ano: 27,9%, representando um risco relativo (RR) de 4,86 em comparação aos controles. As fraturas pertrocantéricas (região trocantérica do fêmur proximal) vieram logo em seguida, com 23,9% de mortalidade (RR 4,14). As subtrocantéricas apresentaram mortalidade de 15,2% (RR 2,98), e as fraturas do fêmur distal, 9,4% (RR 2,71).
O gradiente de risco entre essas regiões é importante: quanto mais proximal a fratura no fêmur, maior o impacto na sobrevida em um ano.
E as fraturas de tíbia e úmero?
As fraturas proximais da tíbia apresentaram mortalidade de 5,8% (RR 1,70), enquanto as de tíbia distal foram de 6,5% (RR 1,80). Os valores são inferiores aos das fraturas femorais proximais, mas ainda assim expressivos: um idoso que fratura a tíbia tem risco de morte no primeiro ano quase 70% maior do que um idoso sem fratura.
No membro superior, as fraturas distais do úmero distal tiveram mortalidade de 7,1% (RR 1,97), enquanto as da região proximal do úmero, o grupo de menor risco entre todos avaliados, ainda apresentaram mortalidade de 5,6% (RR 1,63), aproximadamente o dobro da coorte controle.
Por que esse risco elevado mesmo em fraturas “menos graves”?
A interpretação dos autores é esclarecedora: qualquer fratura por fragilidade em um idoso não deve ser tratada como um evento ortopédico isolado. Ela é, na verdade, um marcador de vulnerabilidade sistêmica refletindo sarcopenia, descondicionamento físico, comorbidades mal controladas, osteoporose e risco de quedas.
No caso das fraturas dos membros inferiores (incluindo tíbia e região distal do fêmur), a imobilização prolongada, a restrição de carga e a perda da deambulação independente contribuem diretamente para complicações tromboembólicas, infecções (urinárias e respiratórias), perda de massa muscular e declínio funcional acelerado. Nas fraturas dos membros superiores, a dependência de dispositivos de auxílio à marcha pode ser comprometida, limitando a mobilidade e aumentando o risco de novas quedas e descondicionamento.
Qual a mensagem prática para o geriatra e o ortopedista?
O estudo multicêntrico americano reforça que a primeira fratura por fragilidade no idoso, seja ela no quadril, no fêmur distal, na tíbia ou no úmero é um evento sentinela que exige uma reavaliação global do paciente. A mortalidade elevada no primeiro ano não se restringe às fraturas proximais do fêmur, embora estas sejam as de maior risco.
Estratégias de prevenção de quedas, otimização do estado nutricional, controle de comorbidades (diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal crônica) e tratamento da osteoporose devem ser iniciados ou intensificados a partir desse primeiro evento, independentemente do sítio anatômico. Além disso, o acompanhamento multidisciplinar nos primeiros 12 meses pós-fratura, incluindo fisioterapia, terapia ocupacional e suporte social é crucial para reduzir a mortalidade nestes pacientes.
Autoria

Rafael Erthal
Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.