O tratamento cirúrgico para as fraturas desviadas do colo do fêmur em idosos inclui classicamente a artroplastia total do quadril (ATQ) e a hemiartroplastia bipolar. A ATQ de dupla mobilidade foi desenvolvida sendo composta por uma cúpula acetabular metálica e um revestimento de polietileno móvel, que permitem o uso de uma cabeça femoral protética maior, aumentando a amplitude de movimento para reduzir a taxa de luxação.
Em comparação com a bipolar, a ATQ apresenta resultados superiores no que diz respeito à dor no quadril, à taxa de reoperação e à função pós-operatória, mas está associada a um maior tempo cirúrgico, maior perda sanguínea perioperatória e maior taxa de luxação, fatores que limitam, em certa medida, a sua utilização.
Entretanto, são poucos os estudos que comparam os resultados funcionais e de taxas de luxação entre a ATQ de dupla mobilidade e a artroplastia bipolar.
Diante disso, foi publicado recentemente na revista “Peer J” um estudo com o objetivo de investigar os principais desfechos clínicos e de segurança da ATQ dupla mobilidade em comparação com a bipolar no tratamento de fraturas do colo do fêmur desviadas. O estudo foi uma revisão sistemática das bases de dados Medline, Embase, Cochrane e Web of Science até dezembro de 2025.

Quais estudos foram selecionados?
Foram incluídos estudos em inglês comparando os desfechos clínicos da ATQ dupla mobilidade versus bipolar para fraturas desviadas do colo do fêmur que forneciam dados passíveis de extração.
Foram excluídos resumos de conferências, revisões, relatos de caso, estudos em modelos sintéticos (sawbone) ou cadáveres, estudos baseados exclusivamente em bancos de dados administrativos ou registros sem validação clínica, estudos com dados insuficientes para a extração de desfechos principais e publicações duplicadas.
Os desfechos selecionados para avaliação foram: taxa de luxação, taxa de reoperação, mortalidade, duração da cirurgia, perda sanguínea intraoperatória (mililitros, mL), taxa de transfusão, taxa de infecção, fratura pós-operatória, soltura de componentes, tromboembolismo, ossificação heterotópica, “Harris Hip Score”(HHS) e período de hospitalização.
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A ATQ de dupla mobilidade apresentou menores taxas de luxação
Dezesseis estudos foram elegíveis para a metanálise, que incluiu 1296 pacientes submetidos à artroplastia de dupla mobilidade e 1208 pacientes submetidos à bipolar. Em comparação com os pacientes submetidos à bipolar, aqueles submetidos à ATQ de dupla mobilidade apresentaram taxas significativamente menores de luxação (P < 0,00001), reoperação (P = 0,0004), mortalidade em um ano (P < 0,0001) e mortalidade no último acompanhamento (P = 0,01), bem como pontuações mais altas na escala Harris Hip Score (HHS) (P = 0,001).
No entanto, o grupo dupla mobilidade apresentou maior tempo cirúrgico (P < 0,00001). Não foram encontradas diferenças estatísticas quanto à mortalidade em 1 mês (P = 0,29), mortalidade em 3 meses (P = 0,09), taxa de transfusão (P = 0,68), taxa de infecção (P = 0,71), fratura (P = 0,81), soltura de componentes (P = 0,46), tromboembolismo (P = 0,10), ossificação heterotópica (P = 0,06) e período de hospitalização (P = 0,22) entre as duas técnicas.
O que podemos levar para a prática?
Apesar da artroplastia total do quadril com cabeça de dupla mobilidade poder estar associada a taxas mais baixas de luxação, reoperação e mortalidade em comparação com a hemiartroplastia bipolar (BHA) no tratamento de fraturas do colo do fêmur deslocadas segundo a revisão sistemática, a maioria dos estudos incluídos foram observacionais não podendo estabelecer relação de causalidade.
Na prática, a artroplastia de dupla mobilidade vem sendo utilizada com mais frequência e agradando os cirurgiões de quadril com seus resultados, mas mais estudos comparativos são necessários para afirmar uma superioridade da técnica.
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Autoria

Giovanni Vilardo Cerqueira Guedes
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2016. Ortopedista, Cirurgião de Mão e Microcirurgião formado pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Mestre em Ciências Aplicadas ao Sistema Musculoesquelético. Atua como Staff do serviço de Cirurgia de Mão do INTO e Professor Substituto de Cirurgia de Mão na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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