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Ortopedia3 novembro 2026

Ácido tranexâmico reduz sangramento na artroplastia de joelho

Revisão sistemática sobre Ácido tranexâmico na artroplastia de joelho avalia necessidade de transfusão, eventos trombóticos e limitações das evidências.
Por Rafael Erthal

A perda sanguínea perioperatória continua sendo uma preocupação na artroplastia total do joelho, devido à possibilidade de anemia pós-operatória, necessidade de transfusão e maior utilização de recursos hospitalares. Nesse cenário, o Ácido tranexâmico na artroplastia de joelho representa uma estratégia para reduzir o sangramento, embora diferenças entre protocolos e dúvidas sobre segurança exijam análise criteriosa.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 na BMC Surgery reuniu ensaios clínicos randomizados para avaliar três desfechos centrais: perda sanguínea, necessidade de transfusão e trombose venosa profunda.

O trabalho buscou esclarecer a consistência dos benefícios observados com o medicamento e examinar se sua utilização estaria associada à maior ocorrência de eventos trombóticos.

A metanálise reúne ensaios clínicos randomizados

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos randomizados, seguindo as recomendações PRISMA. As buscas abrangeram PubMed, Embase, Web of Science e Cochrane Library, considerando publicações entre janeiro de 2014 e abril de 2026.

Foram elegíveis estudos com pacientes submetidos à artroplastia total primária e unilateral do joelho. O grupo de intervenção deveria receber Ácido tranexâmico, enquanto o grupo controle poderia receber placebo, solução salina ou nenhum tratamento com o medicamento.

Foram excluídos procedimentos de revisão, artroplastias bilaterais e estudos sem dados suficientes para análise. Ao final, 17 ensaios clínicos randomizados integraram a revisão.

As intervenções incluíram administração intravenosa, intra-articular, tópica, local ou combinada, com diferenças de dose, momento e frequência de aplicação.

Os desfechos principais foram perda sanguínea, transfusão e trombose venosa profunda. Os autores utilizaram modelos de efeitos aleatórios, avaliaram a heterogeneidade entre os estudos e aplicaram a ferramenta Cochrane RoB 2 para análise do risco de viés.

Quanto diminuiu a perda sanguínea perioperatória?

A análise principal da perda sanguínea incluiu dez comparações entre intervenções e controles.

O Ácido tranexâmico esteve associado a uma redução média de 423,28 mL em comparação com os grupos controle (diferença média −423,28 mL; IC95% −536,90 a −309,66; p < 0,001).

Apesar da significância estatística, a heterogeneidade foi elevada (I² = 93,44%), indicando variação importante entre os resultados dos ensaios.

Essa inconsistência pode estar relacionada às diferentes definições de perda sanguínea, aos esquemas de administração e às estratégias perioperatórias utilizadas.

Na análise de sensibilidade, a retirada individual dos estudos não eliminou a significância do benefício. Após a exclusão do estudo que mais contribuía para a heterogeneidade, a redução média permaneceu significativa, em 373,97 mL (IC95% −451,60 a −296,35), com I² de 81,88%.

Uma análise estatística adicional com ajuste de Knapp–Hartung também manteve o resultado significativo. Assim, a direção do benefício mostrou consistência, embora a magnitude exata da redução do sangramento deva ser interpretada com cautela.

 

Saiba mais: Redução de sangramento nas artroplastias totais bilaterais de joelho ou quadril

Transfusão sanguínea apresenta menor frequência

A necessidade de transfusão foi avaliada em 13 comparações.

Os pacientes que receberam Ácido tranexâmico apresentaram menor risco de transfusão sanguínea, com risco relativo de 0,55 (IC95% 0,45–0,68; p < 0,001).

O resultado corresponde a uma redução relativa estimada de 45% no risco de transfusão em comparação com os controles.

Diferentemente da análise de perda sanguínea, não foi identificada heterogeneidade relevante nesse desfecho (I² = 0%), indicando maior consistência entre os resultados combinados.

Entretanto, a avaliação de possível viés de publicação identificou efeitos significativos relacionados ao tamanho dos estudos pelo teste de Egger (p = 0,002). Esse achado exige cautela na interpretação da estimativa combinada, apesar da consistência estatística observada.

 

Saiba mais: Transfusão nas próteses de revisão de joelho: um risco que não pode ser ignorado

A trombose venosa profunda aumentou com o tratamento?

A análise de segurança reuniu sete comparações informativas sobre trombose venosa profunda.

Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos que receberam Ácido tranexâmico e os controles (OR 0,75; IC95% 0,47–1,22; p = 0,25). A heterogeneidade foi baixa (I² = 0%).

Entretanto, o número de eventos foi limitado. Além disso, comparações sem eventos em ambos os grupos foram excluídas do cálculo do efeito relativo.

Portanto, a ausência de aumento estatisticamente significativo de trombose venosa profunda não comprova equivalência de segurança entre os tratamentos, especialmente em diferentes perfis de pacientes.

Interprete o risco de viés antes de definir a conduta

A revisão identificou algumas preocupações metodológicas na maioria dos ensaios, principalmente relacionadas à randomização, aos desvios das intervenções planejadas e à seleção dos resultados apresentados. Nenhum estudo recebeu classificação global de alto risco de viés.

Outra limitação foi a diversidade de esquemas terapêuticos. Como as doses, vias de administração e momentos de aplicação variaram, a metanálise não estabelece qual protocolo de Ácido tranexâmico oferece o melhor equilíbrio entre eficácia e segurança.

Na prática clínica, os resultados reforçam o papel do Ácido tranexâmico como estratégia de conservação sanguínea na artroplastia total primária do joelho, sobretudo pela redução consistente da necessidade de transfusão.

A decisão sobre sua utilização deve considerar as características do paciente e o protocolo perioperatório adotado. A evidência disponível sustenta o benefício hemostático, mas não permite descartar definitivamente riscos trombóticos em todas as populações.

Para a prática ortopédica brasileira, o estudo contribui para a avaliação de protocolos de manejo sanguíneo, sem substituir a individualização das decisões clínicas.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Rafael Erthal

Rafael Erthal

Conteúdista médico na Afya. Médico formado na Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), especialista em Ortopedia e Cirugia do Joelho pelo Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO-RJ), membro do grupo de cirurgia do joelho do INTO, membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ). Mestrado em ciências do Sistema Musculoesquelético pelo INTO. Delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) no Rio de Janeiro 2023-2024. Referência no atendimento à atletas profissionais de futebol do Rio de Janeiro, com atuação em clube da Série A desde 2021 como cirurgião de joelho. Responsável pelo retorno seguro ao esporte de atletas após lesões complexas de joelho.

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