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Oncologia9 julho 2026

Melanoma cutâneo: o que há de novo na atualização do NCCN para 2026

As Diretrizes do NCCN fornecem estratégias para o diagnóstico, tratamento e acompanhamento de pacientes com melanoma cutâneo
Por Lethícia Prado

O melanoma cutâneo permanece como um dos tumores cutâneos de maior impacto em mortalidade, embora o prognóstico tenha melhorado substancialmente nas últimas décadas graças ao diagnóstico precoce e aos avanços da terapia sistêmica. A atualização 2026 das diretrizes da NCCN reforça que a identificação dos fatores de risco deve fazer parte da avaliação inicial de pacientes com lesões pigmentadas suspeitas, permitindo maior vigilância e estratégias de prevenção direcionadas.

Melanoma cutâneo: o que há de novo na atualização do NCCN para 2026

Imagem de freepik

A importância da estratificação de risco

O desfecho do melanoma depende fortemente do estágio ao diagnóstico. Tumores localizados e com espessura ≤1 mm apresentam taxas de sobrevida específica superiores a 95% em 5 e 10 anos, enquanto o envolvimento linfonodal e a doença metastática pioram significativamente o prognóstico. A diretriz destaca que, desde a introdução das terapias-alvo e da imunoterapia por volta de 2010, tornou-se possível alcançar remissão de longo prazo em aproximadamente 50% dos pacientes com melanoma irressecável estádio III e IV, além da crescente utilização desses tratamentos no cenário adjuvante.

Segundo a NCCN, a identificação dos fatores predisponentes permite reconhecer indivíduos que podem se beneficiar de vigilância mais cuidadosa, aconselhamento sobre fotoproteção e, em situações específicas, avaliação genética.

Importância dos fatores fenotípicos para melanoma cutâneo

Os fatores fenotípicos permanecem entre os principais marcadores clínicos de risco para melanoma.

Pacientes com grande número de nevos melanocíticos, especialmente nevos atípicos (displásicos), apresentam maior probabilidade de desenvolver melanoma. Entretanto, a maioria dos melanomas surge de novo, sem associação com uma lesão melanocítica preexistente.

Outras características associadas ao aumento do risco incluem:

  • Pele clara com tendência a queimaduras solares;
  • Cabelos ruivos;
  • Olhos claros;
  • Fototipo baixo de Fitzpatrick;
  • Fenótipo com predominância de feomelanina.

Essas características refletem maior susceptibilidade aos efeitos carcinogênicos da radiação ultravioleta e devem ser consideradas durante a avaliação inicial do paciente.

Aplicação na prática

Na avaliação inicial, é recomendável documentar o número de nevos, a presença de nevos atípicos, o fototipo cutâneo e o histórico de queimaduras solares. Pacientes que apresentam múltiplos fatores de risco podem se beneficiar de acompanhamento dermatológico periódico para detecção precoce de novas lesões.

A história de múltiplas queimaduras solares com formação de bolhas, especialmente durante a infância e adolescência, permanece um dos fatores ambientais mais consistentes. Evidências sugerem associação entre a exposição intensa em idade precoce e determinados subtipos de melanoma, enquanto outros subtipos, como o lentigo maligno, apresentam relação mais estreita com exposição solar crônica.

Pacientes com antecedente de carcinoma basocelular ou carcinoma espinocelular apresentam risco aumentado para desenvolvimento de melanoma. Da mesma forma, sobreviventes de câncer na infância e indivíduos imunossuprimidos constituem populações de maior risco.

Entre as principais situações de imunossupressão destacam-se:

  • Receptores de transplante de órgãos sólidos;
  • Receptores de transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas;
  • Pessoas vivendo com HIV;
  • Pacientes com neoplasias hematológicas.

Pacientes pertencentes a esses grupos devem receber orientações sobre fotoproteção e ser encaminhados para avaliação dermatológica periódica, especialmente aqueles com histórico de câncer cutâneo ou imunossupressão prolongada.

Leia também: Câncer de pele melanoma: Como manejar? 

Qual o papel da predisposição genética para casos de melanoma cutâneo?

Embora a maioria dos casos seja esporádica, cerca de 10% dos melanomas apresenta componente hereditário.

Os principais genes associados à predisposição familiar incluem CDKN2A, CDK4, MC1R, BAP1, TERT, POT1 e MITF. Além disso, variantes patogênicas em genes como TP53, PTEN, CHEK2, BRCA1, BRCA2, ATM e BLM também podem estar relacionadas ao aumento do risco de melanoma.

A NCCN recomenda encaminhamento para aconselhamento genético quando houver:

  • História pessoal ou familiar de dois ou mais melanomas cutâneos invasivos;
  • História pessoal ou familiar de dois ou mais cânceres não cutâneos em pacientes com melanoma, especialmente câncer de pâncreas, mama, rim ou trato gastrointestinal;
  • Presença conhecida, na família, de variantes patogênicas de alto risco, particularmente em CDKN2A, CDK4 ou BAP1;
  • História pessoal ou familiar de câncer de pâncreas em parentes de primeiro grau.

A obtenção de uma história familiar detalhada deve integrar a avaliação inicial do paciente com melanoma. A identificação de padrões sugestivos de predisposição hereditária permite encaminhamento oportuno para aconselhamento genético e definição de estratégias de acompanhamento para pacientes e familiares.

Exposição ambiental

A radiação ultravioleta permanece como o principal fator de risco modificável para o desenvolvimento do melanoma cutâneo.

A exposição solar intermitente e intensa, particularmente quando acompanhada de queimaduras solares, apresenta associação consistente com o aumento do risco. O bronzeamento artificial também permanece fortemente relacionado à maior incidência de melanoma, havendo evidências de relação dose-resposta entre o tempo de exposição e o risco da doença. Estudos recentes demonstram ainda aumento da carga mutacional dos melanócitos em usuários de câmaras de bronzeamento.

A diretriz também destaca grupos ocupacionais potencialmente mais expostos, como bombeiros e militares, embora ressalte que ainda são necessários estudos adicionais para definir recomendações específicas de rastreamento nessas populações.

De forma geral, a orientação sobre fotoproteção deve fazer parte da rotina assistencial. Os pacientes devem ser orientados a evitar exposição solar excessiva, adotar medidas adequadas de proteção contra a radiação ultravioleta e não utilizar câmaras de bronzeamento artificial.

Saiba mais: Casos de melanoma devem crescer em 2026, apontam projeções internacionais

Pontos-chave:

  • A avaliação dos fatores de risco deve integrar a primeira consulta do paciente com suspeita ou diagnóstico de melanoma.
  • A maioria dos melanomas surge de novo, embora pacientes com múltiplos nevos ou nevos displásicos apresentem maior risco.
  • Imunossupressão, antecedentes de câncer cutâneo não melanoma e história familiar positiva identificam indivíduos que podem necessitar de vigilância mais cuidadosa.
  • Casos sugestivos de predisposição hereditária devem ser encaminhados para aconselhamento genético.
  • A radiação ultravioleta e o bronzeamento artificial continuam sendo os principais fatores de risco modificáveis.
  • O diagnóstico precoce permanece associado aos melhores desfechos clínicos.

O que podemos levar para a prática?

A atualização 2026 da NCCN reforça que a avaliação sistemática dos fatores de risco deve fazer parte da abordagem inicial do paciente com suspeita ou diagnóstico de melanoma cutâneo.

A identificação de características fenotípicas, antecedentes pessoais, história familiar e fatores ambientais permite reconhecer indivíduos que podem se beneficiar de vigilância clínica mais cuidadosa e de aconselhamento genético quando indicado.

Embora os avanços terapêuticos tenham modificado significativamente o prognóstico da doença avançada, o diagnóstico precoce continua sendo o principal determinante de melhores desfechos clínicos, reforçando a importância das estratégias de prevenção e detecção precoce na prática assistencial.

Autoria

Foto de Lethícia Prado

Lethícia Prado

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com residência médica em Oncologia no Instituto Nacional de Câncer (INCA), além de especialização em Oncologia Torácica e pós-graduação em Cuidados Paliativos pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Atualmente, atua como médica oncologista na Rede Américas.

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