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Oncologia27 agosto 2026

Câncer de pâncreas metastático: o que muda com o daraxonrasibe

Veja as mudanças geradas nas diretrizes da ESMO pela introdução do daraxonrasibe no tratamento do câncer de pâncreas metastático
Por Lethícia Prado

A mudança central no panorama do adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC) é a entrada do daraxonrasibe, inibidor pan-RAS(ON) oral, como opção de segunda linha no contexto metastático. No RASolute 302, estudo de fase III, pacientes com tumor RASG12-mutado tratados com o fármaco alcançaram sobrevida global mediana de 13,2 meses, contra 6,6 meses com quimioterapia (HR 0,40) — o maior ganho de sobrevida já descrito nesse cenário, segundo os próprios autores.

A diretriz passa também a recomendar perfil molecular ao diagnóstico em todo paciente com PDAC irressecável, e formaliza o uso de daraxonrasibe após falha de quimioterapia em pacientes RASG12-mutados com ECOG PS 0-1 [I, A], ainda sem aprovação da EMA ou do FDA. Fica em aberto, no entanto, o benefício em tumores RAS selvagem ou mutados em G13/G61 — ponto sobre o qual os próprios autores da diretriz divergem.

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Câncer de pâncreas metastático: o que muda com o daraxonrasibe

Contexto biológico

KRAS é o driver molecular predominante do adenocarcinoma ductal pancreático, mutado em mais de 90% das lesões precursoras precoces. Em torno de 85% a 95% dos tumores carregam mutações ativadoras de KRAS, a maioria no códon 12: G12D (34%-47%), G12V (27%-36%), G12R (10%-17%) e G12C (menos de 2%), que somadas respondem por cerca de 90% dos casos KRAS-mutados. Entre 8% e 13% dos tumores são KRAS selvagem.

A diretriz descreve as duas frentes de inibidores de RAS em desenvolvimento. Os inibidores RAS(OFF) seletivos por mutação se ligam à forma inativa da proteína (ligada a GDP), caso dos inibidores de KRAS G12C, que em PDAC previamente tratado renderam respostas modestas e sobrevida livre de progressão curta, com resistência surgindo rápido. Os inibidores pan-RAS(ON) multisseletivos, grupo do daraxonrasibe, atuam sobre a forma ativa (ligada a GTP) de RAS selvagem e mutado, e foram desenhados justamente para driblar os mecanismos de resistência que limitam os RAS(OFF).

Diante disso, a diretriz passa a recomendar perfil molecular tumoral ao diagnóstico em todo paciente com PDAC irressecável, para identificar alterações acionáveis como as mutações RASG12 [nível de evidência II, grau de recomendação A; ESCAT I-A].

Dados de eficácia

Na fase I-II, o daraxonrasibe foi testado como monoterapia em PDAC metastático já tratado, em doses orais diárias de 10 a 400 mg. Dos 254 pacientes incluídos, 168 receberam ≤ 300 mg e entraram na análise de segurança; essa foi a dose escolhida para a fase III. Eventos adversos grau ≥3 apareceram em 34% dos pacientes, sobretudo rash, diarreia e mucosite. No subgrupo de 38 pacientes com alguma mutação RAS tratados com 300 mg em segunda linha, a taxa de resposta objetiva foi 29% (IC 95% 15-46), com SLP mediana de 8,1 meses e SG mediana de 15,6 meses.

O RASolute 302, fase III, comparou daraxonrasibe 300 mg por via oral uma vez ao dia com quimioterapia à escolha do investigador (gencitabina-nab-paclitaxel, FOLFIRINOX modificado, FOLFOX ou irinotecano lipossomal com 5-FU e leucovorina), em pacientes com PDAC metastático já tratado – RAS-mutado (KRAS, NRAS ou HRAS nos códons 12, 13 ou 61) ou RAS selvagem – e ECOG PS 0-1. Os desfechos primários foram SLP por revisão central cega independente e SG na população RASG12-mutada.

Foram incluídos 500 pacientes no total, 248 no braço daraxonrasibe e 252 no braço quimioterapia; 91,8% tinham tumor RASG12-mutado. O tratamento teve duração mediana de 6,2 meses com daraxonrasibe contra 1,5 a 3,2 meses com quimioterapia.

Na população RASG12-mutada, a SG mediana foi 13,2 meses com daraxonrasibe versus 6,6 meses com quimioterapia (HR 0,40; IC 95% 0,30-0,54; p<0,001), com resultado parecido na população geral do estudo (13,2 vs 6,7 meses; HR 0,40). A SLP mediana nesse mesmo subgrupo foi 7,3 vs 3,5 meses (HR 0,45; IC 95% 0,34-0,59; p<0,001), e a taxa de resposta objetiva por avaliação do investigador chegou a 33,2% com daraxonrasibe contra 11,8% com quimioterapia (p<0,001).

Outro achado relevante: o daraxonrasibe atrasou de forma significativa a piora da dor e da qualidade de vida global frente à quimioterapia, com tempo mediano até a piora da dor de 9,0 vs 3,7 meses (HR 0,51) e até a deterioração da qualidade de vida global de 5,6 vs 2,4 meses (HR 0,60) na população RASG12-mutada, com números semelhantes na população geral.

Saiba mais: FDA aprova dispositivo inédito para tratamento do câncer de pâncreas

Segurança

Os eventos adversos relacionados ao tratamento mais comuns com daraxonrasibe foram rash (85,5%), diarreia (58,1%), estomatite (53,1%), náusea (46,5%) e vômitos (36,9%). Rash grau ≥3 (13,7%) e estomatite grau ≥3 (12,0%) predominaram no braço daraxonrasibe, enquanto neutropenia grau ≥3 (27,6%), anemia (16,4%) e fadiga (5,6%) foram mais frequentes com quimioterapia. Eventos adversos sérios relacionados ao tratamento atingiram 10,8% dos pacientes com daraxonrasibe contra 18,7% com quimioterapia. A toxicidade cutânea é a característica marcante do fármaco — o padrão de rash difere do que se vê com inibidores de EGFR, com maior acometimento do couro cabeludo.

Ressalvas

Vale destacar que os próprios autores da diretriz não chegaram a um consenso sobre o uso do daraxonrasibe em tumores RAS selvagem, RASG13-mutados ou RASG61-mutados. O RASolute 302 não foi desenhado nem estratificado para responder a essa pergunta, e nesse subgrupo pequeno surgiu uma discrepância ainda sem explicação clara: benefício evidente de SG, mas um efeito potencialmente desfavorável em SLP (HR 1,38; IC 95% 0,60-3,17). Os resultados dos 16 pacientes com tumor RAS selvagem sequer foram reportados separadamente. A diretriz ainda aponta que faltam dados sobre tolerabilidade em ECOG PS 2. Por enquanto, a evidência mais sólida para indicar daraxonrasibe se concentra em tumores RASG12-mutados, em pacientes ECOG PS 0-1.

Recomendação

Em pacientes com tumor RASG12-mutado e ECOG PS 0-1, daraxonrasibe em monoterapia passa a ser recomendado após falha de quimioterapia em quem já foi tratado [nível de evidência I, grau de recomendação A]. Até a publicação deste Express Update, o fármaco seguia sem aprovação regulatória pela EMA ou pelo FDA. A diretriz traz ainda um algoritmo atualizado (Figura 1 do artigo original) para o tratamento sistêmico do câncer de pâncreas metastático, posicionando o daraxonrasibe como segunda linha após FOLFIRINOX/NALIRIFOX ou esquemas com gencitabina, e também como opção para quem recidivou em até 6 meses de quimioterapia neo/adjuvante, desde que ECOG PS 0-1 e tumor RASG12-mutado.

Autoria

Foto de Lethícia Prado

Lethícia Prado

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com residência médica em Oncologia no Instituto Nacional de Câncer (INCA), além de especialização em Oncologia Torácica e pós-graduação em Cuidados Paliativos pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Atualmente, atua como médica oncologista na Rede Américas.

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