O último artigo divulgado na plenária da ASCO é provavelmente o mais esperado do congresso. Ovacionado de pé pelos presentes, RASolute 302 demonstrou dados impressionantes de medicação oral no câncer de pâncreas, doença historicamente de prognóstico adverso.
Vamos aos dados!

Daraxonrasibe no adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado: resultados do estudo fase III RASolute 302
O estudo RASolute 302 foi um ensaio clínico internacional, aberto, randomizado de fase III, que avaliou a eficácia e a segurança do daraxonrasibe, um inibidor oral multisseletivo de RAS(ON), em comparação com quimioterapia à escolha do investigador em pacientes com adenocarcinoma ductal de pâncreas metastático (mPDAC) previamente tratado.
Foram incluídos 500 pacientes, dos quais 91,8% apresentavam mutações RAS G12. Os participantes foram randomizados para receber daraxonrasibe 300 mg por via oral uma vez ao dia ou um dos esquemas quimioterápicos considerados padrão de tratamento em segunda linha.
Os desfechos primários foram sobrevida global (SG) e sobrevida livre de progressão (SLP) na população com mutações RAS G12. Entre os 459 pacientes pertencentes a essa população, a mediana de SG foi de 13,2 meses no grupo daraxonrasibe versus 6,6 meses no grupo quimioterapia, correspondendo a uma redução de 60% no risco de morte (HR 0,40; IC95% 0,30–0,54; p<0,001). Na população global do estudo, os resultados foram semelhantes, com SG mediana de 13,2 meses versus 6,7 meses, respectivamente (HR 0,40; IC95% 0,30–0,53; p<0,001).
Também foi observado benefício significativo em SLP. Na população RAS G12, a mediana de SLP foi de 7,3 meses com daraxonrasibe e 3,5 meses com quimioterapia (HR 0,45; IC95% 0,34–0,59; p<0,001). Na população global, a SLP mediana foi de 7,2 meses e 3,6 meses, respectivamente (HR 0,49; IC95% 0,38–0,64; p<0,001). Na população RAS G12, a resposta objetiva foi observada em 33,2% dos pacientes tratados com daraxonrasibe, em comparação com 11,8% daqueles tratados com quimioterapia. Na população global, as taxas foram de 31,6% e 11,2%, respectivamente.
Além dos benefícios em eficácia, o estudo demonstrou melhora em desfechos relatados pelos pacientes. O tempo até deterioração da dor foi prolongado com daraxonrasibe, alcançando mediana de 9,0 meses versus 3,7 meses na população RAS G12 (HR 0,51; IC95% 0,37–0,71; p<0,001). Resultados semelhantes foram observados para qualidade de vida global, com mediana de 5,6 meses versus 2,4 meses, respectivamente (HR 0,60; IC95% 0,45–0,80; p<0,001).
Quanto à segurança, eventos adversos ocorreram em praticamente todos os pacientes de ambos os grupos. Entretanto, eventos adversos relacionados ao tratamento de grau 3 ou superior foram menos frequentes com daraxonrasibe do que com quimioterapia (43,6% versus 57,5%). Os eventos adversos mais comuns associados ao daraxonrasibe foram rash cutâneo, diarreia, estomatite, náuseas e vômitos. A taxa de descontinuação do tratamento por toxicidade foi de 1,2% com daraxonrasibe, em comparação com 11,2% no grupo quimioterapia. Houve um óbito relacionado ao tratamento por pneumonite no grupo experimental.
Em conclusão, o estudo RASolute 302 demonstrou que o daraxonrasibe proporcionou melhora significativa da sobrevida global, sobrevida livre de progressão, taxa de resposta objetiva e qualidade de vida em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado.
O benefício foi observado em uma população predominantemente composta por tumores com mutações RAS G12, acompanhando-se de um perfil de segurança considerado manejável e de menor taxa de descontinuação por toxicidade quando comparado à quimioterapia convencional.
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Comentários
O adenocarcinoma ductal pancreático metastático é historicamente associado a prognóstico adverso, com sobrevida global mediana habitualmente entre 6 e 7 meses. RASolute oferece um ganho importante para uma doença em que não havia evolução significativa em tempo de vida há cerca de 20 anos.
Com menos eventos adversos, facilitação da administração oral, ganho independente de mutação na via, embora menor, e incremento em qualidade de vida, daraxonrasibe mostra-se uma animadora alternativa para estes pacientes. Mais do que os resultados, RASolute também reacende o benefício de inibição da via RAS com um medicamento multisseletivo.
Um excelente resultado e que traz expectativas positivas para o futuro do tratamento do câncer de pâncreas. Aguardamos estudos específicos para estratégias que usem a medicação em primeira linha.
Autoria

Thiago Branco
Thiago Branco é médico formado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) ⦁ Contato profissional: profissional [email protected] ⦁ Instagram: @Branco_T
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