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Oncologia29 agosto 2026

A importância do HER2 no prognóstico do câncer gástrico

Metanálise busca entender a implicação do receptor em tempo de sobrevida para pacientes com câncer gástrico
Por Thiago Branco

O câncer gástrico permanece entre as principais causas de mortalidade por câncer no mundo. Embora fatores clinicopatológicos sejam fundamentais para a avaliação prognóstica, eles não explicam completamente a heterogeneidade dos desfechos entre os pacientes.

Há cerca de três décadas, a descoberta da importância terapêutica no tratamento direcionado para a hiperexpressão de HER2 no câncer de mama demarcou a mesma possibilidade em outras patologias. Atualmente, o HER2 já possui papel estabelecido no câncer gástrico como biomarcador preditivo para terapias anti-HER2, mas seu caráter prognóstico ainda apresenta resultados conflitantes na literatura.

Recentemente, foi publicada por Pourfaraji et al uma metanálise na Cancer Reports que busca avaliar a associação entre a hiperexpressão de HER2 e os desfechos de sobrevida em pacientes com câncer gástrico, incluindo tanto doença ressecável quanto avançada.

Como a meta-análise avaliou o impacto do HER2 no câncer gástrico

Meta-análise conduzida de acordo com pesquisas nas bases PubMed, Scopus e Web of Science, incluindo estudos publicados até janeiro de 2025. Apenas estudos realizados após a data de divulgação do estudo TOGA, publicado em 2010 e que comprovou o benefício da terapia anti-HER2 no câncer gástrico, foram incluídos.

Foram elegíveis estudos que avaliaram pacientes com câncer gástrico e compararam indivíduos HER2 hiperexpresso e HER2 negativo, cuja análise fora feita por imuno-histoquímica associada à hibridização in situ. Os principais desfechos analisados foram sobrevida global (SG), sobrevida livre de progressão (SLP) e prevalência de HER2 positivo.

Além de análises de sensibilidade e subgrupos de acordo com o estágio da doença. A qualidade dos estudos foi avaliada pela Newcastle-Ottawa Scale. Ao todo, foram identificados 5.870 registros. 39 estudos, envolvendo 19.903 pacientes, foram incluídos na análise final. 

Leia também: Câncer de mama HER2 positivo; Anvisa aprova nova indicação terapêutica no Brasil

HER2 hiperexpresso está associado a pior prognóstico no câncer gástrico?

A prevalência agrupada de HER2 hiperexpresso entre todos os pacientes foi de 16% (IC95% 14–18%). Entre os pacientes com doença avançada, a prevalência foi de 17%, enquanto nos pacientes com doença ressecável foi de 15%. Na análise de sobrevida global, a positividade para HER2 esteve associada a pior prognóstico: HR 1,30 (IC95% 1,12–1,51; p<0,01). A associação permaneceu significativa tanto nos pacientes com doença ressecável quanto nos pacientes com doença avançada.

Na análise de sobrevida livre de progressão, envolvendo 10 estudos, HER2 hiperexpresso também esteve associado a pior desfecho: HR 1,57 (IC95% 1,09–2,26; p<0,01). Entretanto, essa associação variou de acordo com o estágio da doença. Nos pacientes com doença avançada, não houve associação estatisticamente significativa: HR 1,18 (IC95% 0,93–1,51; p=0,16). Um ponto importante foi a elevada heterogeneidade entre os estudos, com I² de 74,2% para OS e 65,7% para PFS.

Apesar disso, as análises de sensibilidade demonstraram que a retirada individual dos estudos não modificou substancialmente os resultados.

Como interpretar o papel prognóstico do HER2 no câncer gástrico

  1. A evidência é robusta?

O resultado agrupado demonstra associação entre HER2 e pior SG, mas a elevada heterogeneidade e o caráter predominantemente retrospectivo dos estudos dificultam afirmar que HER2 seja um fator prognóstico independente. A possibilidade de vieses é inúmera, como agressividade tumoral, randomização independente de PDL1, mediana de idade de cada estudo, qualidade do tratamento cirúrgico, etc. É possível que a positividade esteja refletindo, ao menos parcialmente, essas características.

  1. Por que o efeito sobre SLP desaparece na doença avançada?

Isso pode refletir diferenças na biologia, tratamentos subsequentes, uso de terapias anti-HER2 e definição dos desfechos. Mas, também pode ser simplesmente consequência do pequeno número de estudos disponíveis para análise de SLP.

  1. Existe uma tensão entre o papel prognóstico e de biomarcador do HER2

Se pacientes HER2 hiperexpresso recebem terapias anti-HER2, a sobrevida observada depende não apenas da biologia do tumor, mas também da eficácia dessas terapias. Portanto, no cenário atual, separar completamente “prognóstico” de “biomarcador terapêutico” torna-se cada vez mais difícil e, talvez, improdutivo.

Saiba mais: Expressão da proteína HER2 e amplificação do gene ERBB2 no carcinoma urotelial

O que levar para a prática clínica?

Há uma associação limitada, mas razoavelmente consistente, entre o câncer gástrico HER-2 hiperexpresso e uma menor sobrevida global. Essa associação ressalta a importância da padronização diagnóstica com a integração do HER2 e, principalmente, a necessidade de seu uso como modificador de tratamento de forma mais ampliada.

Autoria

Foto de Thiago Branco

Thiago Branco

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.

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