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Oftalmologia2 setembro 2026

Metformina e degeneração macular: há um efeito protetor?

Estudos observacionais e meta-análises anteriores sugeriram uma associação entre o uso de metformina e menor risco de desenvolvimento de DMRI.

A metformina tem despertado interesse como uma possível estratégia para prevenção ou redução da progressão da degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Além de seu uso consolidado no tratamento do diabetes, o medicamento apresenta propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antiangiogênicas, além de efeitos relacionados à modulação do envelhecimento celular.  

Estudos observacionais e meta-análises anteriores sugeriram uma associação entre o uso de metformina e menor risco de desenvolvimento de DMRI. Entretanto, grande parte dessas pesquisas baseou-se em registros administrativos ou dados clínicos de rotina, frequentemente sem classificação da gravidade da doença, o que pode comprometer a precisão diagnóstica e introduzir vieses. 

Um estudo de caso-controle de base populacional, com acompanhamento de cinco anos, publicado em fevereiro de 2026 na revista British Journal of Ophthalmology por Romdhoniyyah e colaboradores, teve como objetivo investigar a associação entre o uso de metformina e a incidência ou progressão da DMRI em diferentes estágios.  

degeneração macular

Como o estudo avaliou o efeito da metformina na progressão da DMRI 

O estudo retrospectivo utilizou dados prospectivamente coletados do estudo Individualised Screening for Diabetic Retinopathy (ISDR), realizado em Liverpool, Inglaterra. Foram selecionados aleatoriamente 2.600 indivíduos com diabetes, com idade igual ou superior a 50 anos, participantes do programa de rastreamento de doenças oculares diabéticas. Após a exclusão de pacientes com diabetes tipo 1 ou imagens de fundo de olho não avaliáveis, a amostra final foi composta por 2.545 participantes. 

Os participantes foram avaliados na linha de base, em 2011, e após aproximadamente cinco anos de acompanhamento, em 2016. Fotografias coloridas de fundo de olho foram classificadas de acordo com o sistema Age-Related Eye Disease Study (AREDS), categorizando os pacientes em ausência de DMRI, DMRI inicial, intermediária ou avançada. A classificação da gravidade foi definida com base no olho mais acometido. 

O uso de metformina foi definido pela presença de prescrição do medicamento na avaliação inicial e em pelo menos outro momento durante o período de acompanhamento. Os principais desfechos avaliados foram a incidência e a progressão da DMRI nos diferentes estágios da doença. As associações entre o uso de metformina e os desfechos foram avaliadas por regressão logística. Os modelos multivariados foram ajustados para potenciais fatores de confusão.  

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Metformina reduz o risco de progressão da DMRI? 

Dos 2.545 participantes inicialmente selecionados, 2.089 apresentaram imagens de fundo de olho adequadas para avaliação após cinco anos. Desses, 40% utilizaram metformina durante o período do estudo e 60% não utilizaram. Os usuários de metformina eram, em média, mais jovens, apresentavam maior HbA1c e maior duração do diabetes, além de menor prevalência de DMRI na linha de base. 

O principal achado foi uma associação significativa entre o uso de metformina e menor incidência de DMRI intermediária. Após ajuste para idade, sexo, retinopatia diabética, HbA1c e duração do diabetes, os usuários de metformina apresentaram aproximadamente 36% menos chances de desenvolver DMRI intermediária em comparação aos não usuários (OR 0,64; IC 95% 0,45 a 0,90; p=0,01). O resultado permaneceu consistente após imputação de dados ausentes e ajustes adicionais. 

Como interpretar a possível proteção da metformina contra a DMRI? 

O uso de metformina esteve associado a uma redução de aproximadamente 37% na incidência de DMRI intermediária ao longo de cinco anos, resultado que permaneceu consistente após diferentes modelos de ajuste estatístico. Não foi demonstrada associação significativa com a redução da progressão para DMRI avançada, possivelmente em razão do número reduzido de casos. 

Um dos principais pontos fortes do estudo foi a utilização de fotografias de fundo de olho e de um sistema validado de classificação da DMRI baseado no AREDS, permitindo avaliar separadamente os diferentes estágios da doença. Os possíveis efeitos protetores da metformina são biologicamente plausíveis, considerando suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e sua capacidade de estimular a autofagia e melhorar a função mitocondrial. Esses mecanismos podem ter maior relevância na prevenção ou nas fases iniciais da DMRI do que em estágios avançados, nos quais o dano tecidual já está estabelecido. 

Quais fatores limitam a interpretação do efeito da metformina na DMRI? 

Por se tratar de um estudo observacional, os resultados demonstram associação, mas não permitem estabelecer causalidade. Os grupos de usuários e não usuários de metformina apresentavam diferenças basais importantes, incluindo maior prevalência de DMRI entre os não usuários, apesar dos ajustes estatísticos realizados. 

O estudo também não dispunha de informações sobre dose, duração prévia do tratamento ou adesão à metformina. Além disso, o grupo sem uso de metformina apresentava uma população mais idosa, o que poderia dificultar a comparação entre os grupos e reduzir a capacidade de identificar associações com a DMRI. 

Outras limitações incluem o número reduzido de casos de DMRI avançada, a ausência de dados sobre dieta e uso de suplementos AREDS e limitações relacionadas ao tabagismo. A classificação da DMRI também foi baseada em fotografias coloridas de fundo de olho, sem o uso de OCT, que poderia oferecer maior sensibilidade para a detecção e caracterização da doença. 

Por fim, os resultados são aplicáveis especificamente a pessoas com diabetes, população na qual o uso de metformina e o rastreamento regular do fundo de olho são frequentes. Portanto, não é possível afirmar que os achados possam ser generalizados para indivíduos sem diabetes. 

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O que podemos levar para a prática? 

O estudo sugere que o uso de metformina pode estar associado a uma menor incidência de DMRI intermediária em pessoas com diabetes tipo 2, com redução estimada de aproximadamente 37% no risco de novos casos ao longo de cinco anos. No entanto, os dados ainda não justificam o uso da metformina especificamente para prevenção ou tratamento da DMRI.  

O principal impacto prático do estudo é fornecer uma justificativa biológica e epidemiológica para a realização de ensaios clínicos prospectivos, especialmente em pacientes com DMRI inicial ou intermediária, com o objetivo de avaliar se a metformina pode efetivamente retardar a progressão da doença antes do desenvolvimento das formas avançadas e potencialmente ameaçadoras à visão. 

Autoria

Foto de Alléxya Affonso

Alléxya Affonso

Editor médico na Afya. Médica Oftalmologista, com doutorado em oftalmologia e ciências visuais pela UNIFESP. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular.

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