Logotipo Afya
Anúncio
Neurologia4 março 2026

Síndrome das pernas inquietas: existem novidades no para a prática clínica? 

A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um distúrbio do movimento relacionado ao sono e pode causar distúrbios substanciais do sono

A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um distúrbio sensório-motor com forte relação com o ciclo sono–vigília, mas com potencial de grande impacto funcional por piora da qualidade do sono, fadiga diurna e redução de desempenho.

É condição frequentemente subdiagnosticada, sobretudo na atenção primária, e aparece com maior prevalência em contextos específicos (ex.: deficiência de ferro/anemia ferropriva, gestação, doença renal terminal, esclerose múltipla, neuropatia periférica, Parkinson, apneia obstrutiva do sono).

A revisão recente publicada em Janeiro/2026 no JAMA (WINKELMAN, John W.; WIPPER, Benjamin) estima que ≈3% dos adultos tenham SPI clinicamente significativa, enquanto ≈8% referem sintomas em alguma frequência ao longo do ano (com apenas parte apresentando sintomas moderados/graves e frequentes).

No texto de hoje, passaremos pelos pontos principais do assunto, tendo foco no diagnóstico e tratamento.

Conceitos fisiopatológicos

A síndrome das pernas inquietas (SPI) provavelmente resulta da interação de alterações no metabolismo do ferro (principalmente na dinâmica do SNC) e de predisposição genética (até 50% com história familiar em casos idiopáticos).

Outros mecanismos são discutidos em alterações dopaminérgicas e possível contribuição de disfunção opioide endógena e vias glutamatérgicas.

O perfil epidemiológico se apresenta com predomínio no sexo feminino (≈2:1), idade avançada (≈10% em ≥65 anos), ancestralidade norte-europeia e história familiar.

Caminho diagnóstico

A SPI é, essencialmente, um diagnóstico clínico reconhecido pela anamnese. A revisão reforça que a polissonografia não é recomendada para diagnosticar SPI (apesar de poder evidenciar movimentos periódicos dos membros durante o sono, isso não define a síndrome).

A revisão organiza os critérios essenciais pelo mnemônico URGED, que é extremamente útil no consultório:

  1. U (Urge): urgência/necessidade de mover as pernas, geralmente com desconforto sensorial associado;
  2. R (Rest): piora em repouso (sentado ou deitado);
  3. G (Gets better): melhora com movimento (andar, alongar, mexer as pernas);
  4. E (Evening): predomínio vespertino/noturno;
  5. D (Differential): não ser melhor explicado por condições “mímicas”.

Não esquecer dos principais diagnósticos diferenciais

Essencial afastar diagnósticos que simulam SPI, como neuropatias, alterações mecânicas e efeitos medicamentosos.

Em geral, dor neuropática e neuropatia periférica tendem a ser mais contínuas, menos dependentes do repouso e não apresentam alívio tão consistente ao caminhar; cãibras noturnas costumam ser paroxísticas e dolorosas, com contração muscular evidente; acatisia (por antipsicóticos/antieméticos) se apresenta com inquietação motora mais global, menos circadiana e sem o componente sensorial típico; desconforto posicional, artralgias e edema também podem confundir.

AAP 2025: Insônia pediátrica – Como reconhecer e tratar de forma prática

Síndrome das pernas inquietas: Existem novidades no para a prática clínica? 

Avaliação inicial e manejo terapêutico na síndrome das pernas inquietas

Papel essencial do metabolismo do Ferro

A revisão recomenda avaliar ferritina e saturação de transferrina (TSAT) como parte do cuidado inicial.

Na presença de Ferritina ≤ 100 ng/mL ou TSAT <20%, existe indicação formal de reposição de Ferro. As principais opções envolvem: Sulfato ferroso 325-650 mg VO (diário ou em dias alternados) ou Ferro IV 1000 mg (preferível caso ferritina na faixa 75-100 ng/mL, por entendimento de limitações de absorção do ferro oral)

A resposta não é imediata, com janela de 1-3 meses para resposta mais plena após reposição, nesse período podem ser utilizadas medicações sintomáticas até melhor observação de resposta terapêutica.

Revisão de medicamentos em uso

Essencial atenção para fármacos associados a desencadeamento/piora da SPI, com destaque para antidepressivos serotoninérgicos, antagonistas dopaminérgicos e anti-histamínicos H1 de ação central. Sempre que possível, vale ajustar ou substituir.

Medidas terapêuticas não farmacológicas

A revisão sustenta uma estratégia de base: higiene do sono, evitar/limitar álcool, reduzir imobilidade prolongada, alongamento e medidas de conforto, além de correção de fatores agravantes (destaque para a apneia obstrutiva do sono)

A gravidade pode flutuar e tende a piorar com idade e fatores como depressão/ansiedade, imobilidade, dor, medicações gatilho e deficiência de ferro; remissões podem ocorrer, sobretudo em casos leves.

Medidas terapêuticas farmacológicas

O tratamento farmacológico é direcionado principalmente para aqueles pacientes sintomáticos sem alterações na cinética de Ferro ou que não tiveram controle de queixas com reposição e demais ajustes de comorbidades.

Os gabapentinoides (gabapentina e pregabalina) são a primeira linha para tratamento sintomático, sustentando melhora clínica relevante nos pacientes com sintomas persistentes e frequentes. Em termos práticos, além de reduzir sintomas, esse grupo pode ajudar quando há insônia, queixas sensoriais mais incômodas e comorbidades como dor.

O cuidado mais importante é monitorar possíveis efeitos colaterais, como sonolência, tontura, instabilidade postural e possível ganho de peso.

OBS.: Agonistas dopaminérgicos não são mais recomendados como primeira linha diária por causa do risco de augmentation (piora sintomática iatrogênica progressiva, com início cada vez mais cedo no dia, maior intensidade e expansão dos sintomas). Isso não significa “proibição”, mas sim uso mais criterioso em cenários de falha de gabapentinoides e sintomas intermitentes, sempre com vigilância para sinais precoces de augmentation.

Casos refratários

No caso de SPI refratária ou com augmentation, a revisão descreve benefício com opioides em baixa dose, ressaltando que as doses para SPI são bem inferiores às usadas em dor crônica ou transtorno por uso de opioide.

Os principais fármacos citados são a metadona (2,5-20 mg/dia), buprenorfina (0,5-6 mg/dia) e oxicodona (5-40 mg/dia)

Mensagem prática

A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um diagnóstico clínico e, quando bem investigada, costuma se revelar pela tríade: piora no repouso, melhora com movimento e predomínio noturno. Polissonografia não deve ser usada como exame confirmatório de rotina.

A avaliação inicial deve incluir ferritina e saturação de transferrina, assim como revisão de medicações/comorbidades que pioram o quadro.

Se ferritina ≤ 100 ng/mL ou TSAT < 20%, reposição de Ferro é tratamento, não apenas “investigação”. Quando for necessário medicar sintomas, os gabapentinoides são a primeira linha.

Autoria

Foto de Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao

Revisor médico do Portal PEBMED. Graduado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Contato: [email protected] Instagram: @johnatanfelipef

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Neurologia