Logotipo Afya
Anúncio
Neurologia31 dezembro 2025

O que um estudo clássico ainda nos ensina sobre anticolinérgicos na demência? 

Estudo buscou determinar a prevalência e os fatores preditivos do uso de medicamentos anticolinérgicos em pacientes idosos com demência

Quando falamos de demência, quase sempre vem à mente a importância de preservar o máximo possível da cognição. E isso inclui evitar medicamentos que possam piorá-la. Mas um estudo antigo — de 2013 — porém extremamente útil até hoje, publicado no Drugs & Aging, revisitou essa questão e trouxe números que continuam surpreendendo. Este trabalho analisou dados nacionais dos EUA para responder uma pergunta simples e essencial: Quantos idosos com demência estão usando medicamentos com forte efeito anticolinérgico — e por quê?  

O que o estudo avaliou sobre anticolinérgicos na demência?

Usando o enorme banco de dados MEPS (Medical Expenditure Panel Survey), os autores acompanharam mais de 1,5 milhão de idosos com demência em análise ponderada, examinando: 

  • prevalência de uso de anticolinérgicos, 
  • quais medicamentos eram mais comuns, 
  • quem estava em maior risco de recebê-los.

Esses fármacos foram classificados pela Anticholinergic Drug Scale (ADS), que mede potência anticolinérgica real, indo de 0 a 3.  

A principal descoberta: o problema é muito maior do que imaginamos 

O estudo revelou que: 

  • 60% dos idosos com demência usavam algum anticolinérgico; 
  • 23% usavam anticolinérgicos de nível 2 ou 3, considerados clinicamente significativos — capazes de piorar cognição, atenção, memória e risco de delirium.  

Mesmo sendo um artigo de 2013, esses números ecoam até hoje: um em cada cinco idosos com demência recebe um medicamento que potencialmente piora sua demência.  

Quais medicamentos mais apareciam? 

Entre os anticolinérgicos de maior potência (ADS 3), destacaram-se: 

  • Meclizina (vertigem) – 8,6% 
  • Tolterodina (bexiga hiperativa) – 5,3% 
  • Oxitbutinina – 4,0%

E entre os de potência moderada (ADS 2): 

  • Ranitidina – 5,5% 
  • Ciclobenzaprina – 1,7%

Ou seja: fármacos usados para tontura, refluxo, bexiga hiperativa e espasmos musculares eram os maiores vilões no grupo de maior risco.  

Quem tinha maior chance de receber esses medicamentos? 

A análise multivariada mostrou fatores de risco claros: 

  • Transtornos do humor → 2,19 vezes mais chance 
  • Incontinência urinária → 6,58 vezes mais chance 
  • Região de residência também importava: pacientes do Oeste dos EUA recebiam muito menos anticolinérgicos que os do Nordeste. 

Esses fatores indicam que prescrições são influenciadas tanto pelo perfil clínico quanto pela cultura local de prescrição.    

O que um estudo clássico ainda nos ensina sobre anticolinérgicos na demência? 

Por que esse estudo ainda importa (e muito)? 

Mesmo sendo de 2013, o trabalho ilumina um problema persistente: 

  • Anticolinérgicos continuam amplamente usados mesmo em populações altamente vulneráveis. 
  • Muitos desses medicamentos têm alternativas mais seguras — mas seguem sendo prescritos por hábito, desconhecimento ou cascata de prescrições. 
  • O artigo reforça uma mensagem crucial: evitar anticolinérgicos é uma intervenção neuroprotetora para pacientes com demência.

Além disso, o estudo lembra que a decisão de prescrever não depende só do diagnóstico, mas também de elementos como comorbidades psiquiátricas, sintomas urinários, barreiras culturais e padrões regionais de prática médica.  

O que isso significa para a prática clínica hoje? 

  1. Revise a lista de medicamentos de todo paciente com demência — ativamente. 
  2. Considere alternativas sem efeito anticolinérgico para incontinência, tontura, espasmos e refluxo. 
  3. Evite cascatas iatrogênicas: 
    • IECA → tosse → antitussígeno anticolinérgico 
    • IChE → náusea → meclizina 
  4. Lembre-se: um anticolinérgico pode neutralizar totalmente o benefício do inibidor da acetilcolinesterase. 

Esse estudo antigo nos lembra uma verdade moderna: tratamento não é só o que você prescreve — é também o que você precisa evitar.

Autoria

Foto de Thiago Nascimento

Thiago Nascimento

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Neurologia