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Neurologia7 maio 2026

Neuropatia diabética: atualizações em fisiopatologia, risco e tratamento

Revisão sobre neuropatia periférica diabética traz novos mecanismos fisiopatológicos, fatores de risco e atualizações no tratamento

A neuropatia periférica diabética (NPD) é uma das complicações mais prevalentes e incapacitantes do diabetes mellitus, afetando até 50% das pessoas que vivem com a doença. Suas consequências vão muito além do desconforto: perda sensitiva progressiva, disfunção da marcha, úlceras plantares e amputações de membros inferiores integram um espectro clínico grave, frequentemente agravado por dor neuropática crônica de difícil controle. Ansiedade e depressão são companheiras comuns desses pacientes, com impacto direto na qualidade de vida e na adesão ao tratamento.

Os números epidemiológicos são alarmantes. A análise do Global Burden of Disease Study de 2021 identificou a NPD como uma das cinco principais causas neurológicas de carga cumulativa de doença — fatal e não fatal —, com aumento de 92% nos anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) entre 1990 e 2021. Estudos populacionais demonstraram que a presença de NPD está associada ao aumento significativo da mortalidade cardiovascular e por todas as causas (hazard ratio de 1,96 a 2,04 e 1,72, respectivamente).

Apesar dos avanços no entendimento da doença, nenhum tratamento modificador de curso está disponível além do controle dos fatores de risco metabólicos — e mesmo esse controle tem eficácia limitada, especialmente no diabetes tipo 2. É nesse contexto que esta revisão de estado da arte, publicada no BMJ em 2026, se torna uma referência obrigatória para neurologistas e demais especialistas que acompanham pacientes com diabetes.

Neuropatia diabética: atualizações em fisiopatologia, risco e tratamento

Revisão de estado da arte do BMJ: o que foi analisado e como

Trata-se de uma revisão narrativa de estado da arte (State of the Art Review), comissionada e publicada pelo BMJ em 2026, elaborada por pesquisadores das Universidades do Colorado e de Michigan (EUA). A busca bibliográfica foi realizada no PubMed, cobrindo o período de janeiro de 2001 a março de 2025, com termos relacionados a epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento, biomarcadores e determinantes sociais da NPD.

Foram priorizados estudos com maior nível de evidência — revisões sistemáticas, metanálises, grandes estudos observacionais longitudinais e declarações de consenso —, além de publicações históricas relevantes fora do intervalo de busca. Estudos sem resumo em inglês ou espanhol, relatos de caso e séries de casos foram excluídos.

A revisão abrange cinco grandes domínios: epidemiologia e fatores de risco (incluindo determinantes sociais de saúde), fisiopatologia celular e molecular, genética, diagnóstico e tratamento — com ênfase em avanços recentes e lacunas de pesquisa a serem preenchidas.

Obesidade, triglicerídeos e isolamento social: os novos protagonistas do risco de neuropatia periférica diabética (NPD)

Fatores de risco: a hiperglicemia não está sozinha

A duração e a gravidade da hiperglicemia continuam sendo os principais fatores de risco para neuropatia periférica diabética (NPD), mas a revisão consolida evidências robustas de que outros componentes da síndrome metabólica têm papel independente e relevante.

A obesidade emerge como o segundo maior fator de risco metabólico. Um estudo do UK Biobank com 29.762 pessoas com diabetes tipo 2 demonstrou que maior IMC (HR 1,27; IC95% 1,20–1,34) e maior circunferência abdominal (HR 1,38; IC95% 1,30–1,45) foram associados de forma independente ao desenvolvimento de NPD. Resultados semelhantes foram observados em estudos com adolescentes e jovens adultos.

A dislipidemia, especialmente a hipertrigliceridemia, também se destacou. Uma metanálise de 39 estudos com 32.668 pacientes sugeriu associação entre perfil lipídico aterogênico e NPD, com maior risco associado a triglicerídeos elevados (OR 1,36; IC95% 1,20– 1,54) e menor risco relativo em indivíduos com HDL mais alto (OR 0,85; IC95% 0,75–0,96).

Dados de um estudo dinamarquês com 61.853 pacientes com DM2 confirmaram que triglicerídeos elevados aumentam o risco de NPD (HR 1,28; IC95% 1,13–1,45), independentemente do controle glicêmico.

Os determinantes sociais de saúde também aparecem como moduladores importantes. Estudos em Escócia, Inglaterra e Romênia associaram baixa renda, menor escolaridade e maior privação socioeconômica à maior prevalência e gravidade da NPD. Um estudo do UK Biobank com 24.297 participantes identificou que o isolamento social entre pacientes com DM2 aumentou a incidência de NPD, possivelmente mediado por elevação de marcadores inflamatórios sistêmicos como a proteína C-reativa.

Fisiopatologia: o protagonismo das células de Schwann

Um dos avanços mais significativos da última década foi a compreensão de que a NPD não é apenas uma doença do axônio, mas uma doença das interões axoglia — especialmente entre os axônios e as células de Schwann.

Em condições normais, as células de Schwann convertem glicose em lactato, que é transportado via carreadores de monocarboxilato (MCT1) para dentro dos axônios, onde é convertido em piruvato para gerar ATP. Sob estresse metabólico — como hiperglicemia e dislipidemia —, essa função é comprometida: as células de Schwann desenvolvem resistência à insulina e estado pró-inflamatório, reduzem a produção de lactato e passam a liberar vesículas extracelulares patológicas contendo microRNAs (como miR-28 e miR-130a) que suprimem o crescimento axonal e aceleram a degeneração nervosa.

A hiperglicemia perpetua esse dano por meio de vias já bem estabelecidas — ativação da via do poliol, acúmulo de produtos de glicação avançada (AGEs), estresse oxidativo mitocondrial e ativação da via hexosamínica. A dislipidemia contribui de forma adicional: o acúmulo de triglicerídeos nos nervos periféricos, a presença de oxiesteróis e LDL oxidado induzem disfunção mitocondrial, ativação de cascatas pró-inflamatórias e comprometimento da condução nervosa. 

Tratamento modificador de curso

O controle glicêmico intensivo reduz significativamente o risco de NPD no diabetes tipo 1 (diferença de risco anualizada de −1,84; IC95% −2,56 a −1,11), mas seu efeito no diabetes tipo 2 é modesto e não alcança significância estatística na maioria dos estudos (diferença de risco anualizada de −0,58; IC95% −1,17 a 0,01).

Intervenções sobre o peso corporal mostraram resultados promissores: um grande ensaio clínico randomizado (n=5.145, seguimento de 9 a 11 anos) demonstrou que a perda de peso associada a exercício físico reduziu de forma significativa os escores de neuropatia (escore médio MNSI: 2,21 no grupo intervenção vs. 2,35 no grupo controle; p<0,001). Estudos observacionais de cirurgia bariátrica também mostraram melhora na densidade de fibras nervosas intraepidérmicas, embora ensaios randomizados ainda sejam necessários.

Tratamento da dor neuropática

Para a dor neuropática, o algoritmo atualizado da American Academy of Neurology (2022) recomenda quatro classes de medicamentos de primeira linha com eficácia semelhante entre si (diferenças médias padronizadas: 0,44–0,95): antidepressivos tricíclicos (ADTs), inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina (SNRIs), gabapentinoides e bloqueadores de canais de sódio (esses possuem evidência mais incerta que os demais, muitos guidelines não consideram no mesmo patamar que os outros). O estudo OPTION-DM demonstrou que amitriptilina, duloxetina e pregabalina têm eficácia equivalente em monoterapia, e que a combinação de fármacos de classes diferentes oferece benefício adicional sobre a monoterapia (redução média de 1,0 ponto vs. 0,2 no escore numérico de dor; escala 0-10).

Opções tópicas — creme de capsaicina 0,075% e patch de lidocaína 4% — são alternativas válidas, com perfil de segurança favorável. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem não farmacológica com maior evidência, sendo a única com efeito estatisticamente significativo em metanálise.

Opioides devem ser evitados no manejo crônico da NPD, dado o risco de dependência, overdose, fraturas e aumento de mortalidade. Isso inclui tramadol e tapentadol, que, apesar de possuírem mecanismo misto, compartilham os mesmos riscos da classe.

Novos agentes para diabetes e neuropatia periférica diabética (NPD)

Os novos fármacos para diabetes — agonistas do GLP-1, inibidores de SGLT2 e inibidores de DPP-4 — ainda não têm evidência robusta de benefício específico sobre a NPD. Os ensaios clínicos disponíveis são pequenos, com resultados mistos, e estudos de maior porte com desfechos específicos para neuropatia são urgentemente necessários.

Diagnóstico e biomarcadores: ainda há distância entre pesquisa e prática

Na prática clínica, o diagnóstico da neuropatia periférica diabética (NPD) continua baseado na combinação entre história, exame neurológico e avaliação sensitiva distal, com atenção à perda de fibras finas e grossas. Estudos de condução nervosa seguem úteis para documentar neuropatia de fibras grossas e excluir diagnósticos diferenciais, mas podem ser pouco sensíveis para envolvimento precoce de fibras finas.

Biomarcadores como densidade de fibras nervosas intraepidérmicas em biópsia de pele e microscopia confocal de córnea são promissores em pesquisa, mas ainda precisam de validação mais robusta como marcadores responsivos de tratamento. Escalas como MNSI, TCNS/mTCNS e UENS ajudam a padronizar avaliação clínica e desfechos em estudos.

O que muda na sua prática clínica com esses dados

Esta revisão reforça uma mudança de paradigma fundamental: tratar apenas a glicemia o é suficiente para prevenir ou tratar a neuropatia periférica diabética, especialmente no diabetes tipo 2. O manejo eficaz exige uma abordagem verdadeiramente multifatorial — com atenção ao peso corporal, perfil lipídico (em especial triglicerídeos), pressão arterial e estilo de vida.

Para o neurologista e o clínico brasileiro, alguns pontos merecem destaque direto na prática:

  1. Rastreie ativamente e precocemente a neuropatia diabética. A ADA recomenda rastreio ao diagnóstico no DM2 e cinco anos após o diagnóstico no DM1, com repetição anual. Isso inclui teste de fibras finas (picada ou temperatura) e grossas (vibração com diapasão de 128 Hz). O monofilamento de 10g avalia risco de úlcera, mas não detecta NPD precoce.
  2. Amplie o olhar para além da glicemia. Obesidade e dislipidemia são alvos terapêuticos independentes na NPD. Intervenções de perda de peso — sejam comportamentais, farmacológicas ou cirúrgicas — têm potencial neuroprotetor real.
  3. Seja criterioso na escolha do analgésico. Na dor neuropática, ADTs (como amitriptilina e nortriptilina), duloxetina e gabapentinoides são equivalentes. A escolha deve considerar comorbidades, custo e tolerabilidade — e todas têm genéricos disponíveis no Brasil. Combine classes quando a monoterapia for insuficiente.
  4. Evite opioides. O risco supera o benefício no cenário crônico. Tramadol e tapentadol não são exceções.
  5. Considere os determinantes sociais. Pacientes com menor renda, menor escolaridade e isolamento social têm maior risco de NPD mais grave e pior evolução. Isso deve influenciar a intensidade do acompanhamento e as estratégias de educação em saúde.

Por fim, a revisão aponta para um horizonte terapêutico promissor, com alvos emergentes nas células de Schwann, na resistência à insulina neural e nos novos agentes antidiabéticos — mas que ainda aguardam validação clínica em ensaios robustos.

Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.

Autoria

Foto de Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao

Editor médico de Neurologia do Portal Afya. Mestrando em Neurologia pela UFF (Neuroimunologia/Neuromuscular). Fellow em Neuroimunologia na Universidade Federal de Goiás (HC-UFG).

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Referências bibliográficas

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