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Neurologia1 janeiro 2026

Mapeando a aura da enxaqueca com o estudo REFORM: mitos e verdades 

Estudo buscou fornecer uma análise fenotípica aprofundada dos sintomas e características da enxaqueca com aura

Cerca de um terço das pessoas com enxaqueca experimenta sintomas neurológicos transitórios conhecidos como aura. Apesar de ser uma condição prevalente, descrições clínicas detalhadas e modernas ainda são escassas, e muitas vezes nos baseamos em definições clássicas que nem sempre refletem a realidade do consultório. 

Um novo estudo transversal, parte do registro REFORM (Registry for Migraine), realizou uma análise fenotípica profunda através de entrevistas semiestruturadas com 227 adultos diagnosticados com enxaqueca com aura. 

Os resultados trazem nuances importantes sobre a duração, localização e sequência dos sintomas, desafiando alguns conceitos tradicionais. 

O que o estudo analisou? 

Pesquisadores do Danish Headache Center avaliaram pacientes com enxaqueca ativa (média de 41 anos, predominância feminina) para mapear detalhadamente a natureza e a progressão dos sintomas da aura. 

O objetivo foi preencher as lacunas deixadas por estudos retrospectivos ou baseados apenas em diários, fornecendo um “retrato falado” mais preciso da doença. 

Aura Visual: Onde tudo começa? 

A aura visual continua sendo a manifestação soberana, presente em 94,7% dos participantes6. No entanto, o estudo trouxe um dado que contradiz a descrição clássica dos livros: 

  • Origem Periférica: Classicamente, descreve-se o espectro de fortificação iniciando no centro da visão e expandindo para a periferia. O estudo mostrou o oposto: em 70,3% dos casos, a aura visual começou no campo visual periférico. 
  • Lateralidade: Ao contrário da crença de que a aura é sempre unilateral, cerca de metade dos participantes (50,7%) relatou sintomas unilaterais, enquanto o restante teve manifestações bilaterais. 
  • Duração: A “regra dos 60 minutos” se mantém forte. Em 89,8% dos casos, a aura visual durou menos de uma hora.

Sintomas Sensitivos e de Linguagem 

  • Aura Somatossensitiva (35,7%): Geralmente afeta mão, braço e face10. Um dado de alerta é que, diferentemente da visual, a aura sensitiva durou mais de 60 minutos em cerca de um terço dos pacientes, o que pode gerar confusão diagnóstica. 
  • Aura de Fala/Linguagem (13,7%): Raramente ocorre isolada. Em apenas 6,5% dos casos de distúrbio de fala, este foi o único sintoma. A presença de afasia isolada deve, portanto, acender um alerta para etiologias secundárias.

A relação Aura-Cefaleia: Nem sempre “antes” 

A cronologia clássica foi confirmada na maioria, mas não em todos: 

  • 80,8% tiveram o início da aura antes da dor. 
  • 11,9% tiveram início simultâneo. 
  • 5% tiveram a aura iniciando após a dor de cabeça já ter começado 

Isso desafia a visão de que a Depressão Alastrante Cortical é sempre o evento gatilho inicial da dor. 

Implicações Práticas e Red Flags 

O estudo oferece “pérolas” clínicas fundamentais para diferenciar a Enxaqueca com Aura de mimetizadores graves como AIT (Ataque Isquêmico Transitório): 

  1. Sintomas Positivos vs. Negativos: 96,9% dos pacientes com enxaqueca relataram sintomas “positivos” (luzes, formigamento) ou de espalhamento gradual. Sintomas puramente “negativos” (perda de visão, perda de força) ou de início súbito (sem espalhamento) sugerem isquemia. 
  2. O mito do “Side-Locked”: Frequentemente, a aura sempre do mesmo lado é vista como sinal de lesão estrutural. No estudo, 23% das auras visuais e 43% das sensitivas foram estritamente do mesmo lado (side-locked)19. Isso sugere que a lateralidade fixa é comum na enxaqueca e, isoladamente, pode não exigir neuroimagem se o fenótipo for típico. 
  3. Coexistência: 93% dos pacientes com aura também têm crises de enxaqueca sem aura.

Saiba mais: AAP 2025 – Atualizações em cefaleia na infância

Conclusão: mapeando a aura da enxaqueca  

O estudo REFORM atualiza nossa compreensão fenotípica: a aura visual frequentemente começa na periferia, a aura sensitiva pode ser prolongada e a maioria dos sintomas são positivos e de espalhamento gradual. Reconhecer esses padrões aumenta a acurácia diagnóstica e evita exames desnecessários.

Autoria

Foto de Thiago Nascimento

Thiago Nascimento

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.

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