A hidrocefalia de pressão normal idiopática (HPNi) é uma síndrome neurológica progressiva que acomete predominantemente indivíduos acima de 60 anos, caracterizada pela tríade clássica de distúrbio da marcha, declínio cognitivo e incontinência urinária, associada a ventriculomegalia na ausência de elevação da pressão do líquido cefalorraquidiano (LCR).
Por ser potencialmente reversível com a derivação liquórica, a HPNi é frequentemente citada como causa tratável de demência no idoso — conceito, contudo, bastante controverso. A prevalência de HPNi “possível” gira em torno de 1,3% entre indivíduos acima de 65 anos e aumenta de forma expressiva com a idade, passando para 5,9% acima dos 80 anos. Estima-se, ainda, que cerca de 15% dos pacientes de ambulatórios de memória e 14% dos residentes de instituições de longa permanência preencham critérios para HPNi possível, muitos deles sem diagnóstico. No Brasil, estudos em hospitais terciários identificaram a HPNi em 5,38% dos casos de demência e em aproximadamente 8% das demências potencialmente reversíveis.
Apesar dessa relevância, o diagnóstico permanece desafiador: a tríade completa costuma estar ausente nas fases iniciais, os achados de imagem se sobrepõem aos do envelhecimento e de doenças neurodegenerativas, e não há padronização sobre como realizar e interpretar os testes de dinâmica liquórica. Nesse cenário, a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) publicou na Dementia & Neuropsychologia um consenso nacional com recomendações práticas para o diagnóstico e o tratamento da HPNi, adaptadas à realidade do país.

Como o consenso brasileiro elaborou suas recomendações
Trata-se de um consenso de especialistas fundamentado em revisão não sistemática da literatura, sem restrição de data ou idioma, com priorização de artigos de relevância clínica e aplicabilidade ao contexto brasileiro. Um painel composto por neurologistas, neurocirurgião e neurorradiologistas discutiu critérios diagnósticos, apresentação clínica, exames complementares e tratamento, e as recomendações foram consolidadas por meio de reuniões estruturadas e feedback iterativo, integrando a evidência científica disponível à experiência clínica dos autores.
Fisiopatologia da hidrocefalia de pressão normal envolve múltiplos mecanismos
A fisiopatologia da HPNi permanece incompletamente compreendida e parece resultar da interação de múltiplos mecanismos — distúrbios da dinâmica liquórica, envelhecimento vascular, redistribuição da pulsatilidade intracraniana, hipoperfusão cerebral, disfunção glinfática, comprometimento da barreira hematoencefálica e neurodegeneração.
A hipótese vascular é atualmente a mais aceita: a redução da complacência arterial compromete o mecanismo de Windkessel cerebral e redireciona a energia pulsátil para o sistema ventricular, de modo que a ventriculomegalia representaria uma resposta adaptativa — e a derivação funcionaria como um “Windkessel acessório”.
Vale destacar que o próprio conceito de HPNi como entidade nosológica distinta vem sendo questionado, diante da elevada prevalência de doença de Alzheimer (DA) concomitante, da evolução de muitos pacientes para doenças neurodegenerativas manifestas e do declínio progressivo do benefício da derivação a longo prazo.
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Quais são os sintomas da hidrocefalia de pressão normal idiopática?
O distúrbio da marcha é a manifestação mais precoce e prevalente, presente em 94% a 100% dos casos, frequentemente de forma isolada nos primeiros 3 a 6 meses; com a progressão da doença, o comprometimento cognitivo passa a ser descrito em 78% a 98% e a disfunção urinária em 60% a 92% dos pacientes.
Embora tradicionalmente descrita como “magnética”, a marcha mais consistentemente apresenta: redução do comprimento do passo (97%), alteração em tandem (97%), base alargada (71%), passos arrastados (70%), instabilidade postural, giro em bloco e episódios de congelamento, sobretudo na iniciação da marcha e nas mudanças de direção. O perfil cognitivo é o de síndrome disexecutiva frontossubcortical, com lentificação psicomotora, déficit de atenção e de memória operacional e apatia (cerca de 70% dos casos); o reconhecimento mnésico e a orientação tendem a estar relativamente preservados nas fases iniciais. Os sintomas urinários começam com aumento de frequência e urgência, evoluindo para incontinência de urgência por hiperatividade detrusora.
A sequência de instalação tem valor prognóstico: quando o distúrbio da marcha precede o declínio cognitivo, a apresentação é mais típica e a resposta à derivação mais provável, ao passo que o comprometimento cognitivo precoce sugere diagnóstico alternativo.
Para quantificar a gravidade e monitorar a evolução, o consenso recomenda a versão brasileira validada da Grading Scale for Idiopathic Normal Pressure Hydrocephalus, que apresentou elevada concordância intra e interobservador nos três domínios.
Neuroimagem na hidrocefalia de pressão normal exige avaliação integrada
O índice de Evans é simples, reprodutível e aplicável à tomografia computadorizada (TC) e à RM, mas tem baixa especificidade, já que a ventriculomegalia também ocorre na atrofia relacionada à idade e em doenças neurodegenerativas. O ângulo caloso reduzido (< 90°) e o padrão DESH (do inglês disproportionately enlarged subarachnoid space hydrocephalus) — que combina ventriculomegalia, alargamento das fissuras sylvianas e apagamento dos sulcos da alta convexidade — têm maior especificidade e ajudam a distinguir a HPNi da ventriculomegalia ex vacuo. Hiperintensidades periventriculares, dilatação dos cornos temporais e estudos de fluxo liquórico aquedutal por RM com contraste de fase são complementares, mas inespecíficos ou ainda pouco padronizados.
Para integrar esses achados, o consenso recomenda a iNPH Radscale, escore composto por 7 parâmetros radiológicos com pontuação total de 0 a 12. Escores de 0 a 4 indicam baixa probabilidade de HPNi; de 5 a 8, probabilidade intermediária, que exige correlação clínica e eventualmente tap test; e de 9 a 12 sustentam fortemente o diagnóstico. Em validação populacional, o ponto de corte > 4 separou HPNi definida de controles assintomáticos com sensibilidade de 100% e especificidade de 96,4%.
Dois alertas técnicos merecem destaque: pequenas variações na angulação do plano de corte em relação à linha comissura anterior–comissura posterior podem alterar o índice de Evans e o ângulo caloso a ponto de reclassificar um paciente como normal ou patológico; e marcadores subjetivos, como o padrão DESH, apresentam variabilidade interobservador substancial. Por isso, o painel propõe um modelo de laudo radiológico estruturado adaptado à prática brasileira, que inclui o escore da Radscale detalhado por item.
Tap test ajuda a prever a resposta à derivação liquórica
O tap test é peça-chave na avaliação diagnóstica e prognóstica, com baixa taxa de complicações. Em revisão sistemática, seu valor preditivo positivo para resposta à derivação variou de 73% a 100%, enquanto o valor preditivo negativo foi de apenas 18% a 50% e a acurácia global, de 45% a 83%. Na prática, um teste positivo sustenta fortemente a indicação cirúrgica, mas um teste negativo não exclui benefício.
O consenso recomenda a retirada de aproximadamente 40 mL de LCR por punção lombar com agulha 18G ou 20G, com aferição prévia da pressão de abertura e repouso em decúbito dorsal por ao menos 1 hora após o procedimento. A avaliação deve usar os mesmos instrumentos 2 horas antes e 2 horas depois da drenagem; na ausência de resposta, sobretudo da marcha, recomenda-se reavaliação após 24 a 48 horas, dada a possibilidade de resposta tardia.
Para a marcha, os testes preconizados são o teste de caminhada de 10 metros e o Timed Up and Go (TUG), este realizado com cadeira de cerca de 46 cm de altura — idealmente com registro em vídeo, que pode ser feito com smartphone. Considera-se o teste positivo quando há melhora ≥ 10% no TUG, redução ≥ 5 segundos no tempo do TUG ou melhora ≥ 20% no teste de 10 metros. Para a cognição, o consenso propõe um protocolo simplificado (fluência verbal semântica e fonêmica e span de dígitos direto e inverso) e um protocolo ampliado para centros com neuropsicologia (Trail Making Test A e B, teste de Stroop, teste de dígitos e símbolos e bateria de avaliação frontal).
Derivação liquórica melhora principalmente a marcha na HPNi
A derivação liquórica é a única intervenção modificadora de doença na HPNi, e a derivação ventriculoperitoneal (DVP) permanece o padrão-ouro. A evidência de maior qualidade vem do ensaio clínico randomizado PENS (Placebo-Controlled Effectiveness in iNPH Shunting), multicêntrico e duplo-cego, no qual 99 pacientes selecionados por melhora da velocidade da marcha após drenagem temporária receberam válvula ajustável regulada em pressão funcional ou em configuração placebo, sem drenagem; a derivação produziu ganhos significativos na velocidade da marcha e na escala de Tinetti em 3 meses, sem benefício mensurável em cognição ou continência urinária nesse intervalo. Em metanálise de 54 estudos e 4.811 pacientes, mais de 74% melhoraram após a cirurgia (IC 95%: 70–78), com eficácia comparável entre DVP (75%; IC 95%: 70–79), derivação ventriculoatrial (75%; IC 95%: 70–80) e lomboperitoneal (70%; IC 95%: 52–83); a marcha melhorou em 72%, enquanto as disfunções urinária e cognitiva melhoraram em cerca de metade dos casos.
Limitações do consenso exigem cautela na interpretação clínica
Entre os méritos do documento, destaca-se a preocupação com a aplicabilidade em diferentes realidades assistenciais, com protocolos simplificados e ampliados de avaliação e a valorização da TC como ferramenta de triagem quando a RM não está disponível. Entre as limitações, vale ressaltar que se trata de consenso baseado em revisão não sistemática, sem graduação formal da qualidade da evidência; os limiares de positividade do tap test ainda não são padronizados entre centros; os biomarcadores fluidos e de imagem carecem de validação prospectiva como preditores de resposta; e o próprio status nosológico da HPNi, em relação à neurodegeneração precoce, permanece em aberto.
Como aplicar o consenso no diagnóstico e tratamento da HPNi
A HPNi deve ser ativamente considerada, mas confirmada por avaliação integrada, e não por um achado radiológico isolado. Na prática, o consenso da ABN recomenda laudo radiológico estruturado com a iNPH Radscale, atenção à angulação do plano de corte e realização do tap test com retirada de cerca de 40 mL de LCR, avaliação padronizada da marcha (TUG test) 2 horas antes e depois do procedimento e reavaliação em 24 a 48 horas quando não houver resposta inicial. Um teste positivo sustenta a indicação de derivação; um teste negativo, por sua vez, não a exclui quando o quadro é sugestivo, cenário em que a drenagem lombar externa pode ser considerada. A decisão cirúrgica deve ser individualizada e compartilhada com paciente e família, ponderando comorbidades vasculares e copatologia neurodegenerativa, que podem limitar sobretudo o ganho cognitivo a longo prazo, mas não justificam, por si só, negar a cirurgia.
Autoria

Danielle Calil
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.
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