
Maioria dos casos decorre de doença de pequenos vasos
A hemorragia intracerebral espontânea é definida no documento como sangramento não traumático no parênquima cerebral. Ela corresponde a 28,8% dos AVCs incidentes no mundo, e quase 3 milhões de pessoas morrem anualmente após esse evento, com 40-50% dessas mortes nos primeiros 30 dias. No Brasil, a proporção de hemorragia intracerebral entre os AVCs variou de 10-26% nas séries citadas, com mortalidade hospitalar de 34,1%.
A hemorragia cerebral espontânea é condição heterogênea com mais de 30 causas potenciais reportadas. A forma primária representa cerca de 80-85% dos casos e decorre de doença de pequenos vasos, principalmente arteriolosclerose hipertensiva e angiopatia amiloide cerebral. Já as formas secundárias correspondem a 15-25% e incluem patologias macrovasculares e não vasculares, como aneurismas, malformações arteriovenosas, trombose venosa cerebral, vasculite, coagulopatias doença de Moyamoya, entre outros.
Ainda que a hemorragia intracerebral espontânea seja condição de alta morbimortalidade, o manejo até então era limitado pela insuficiência de evidências clínicas de alta qualidade. Contudo, estudos recentes trouxeram novos avanços em seu manejo, motivo pelo qual surgiu a necessidade de atualização da diretriz, a fim de proporcionar recomendações que auxiliem na tomada de decisão clínica e disseminação de melhores práticas diagnósticas, terapêuticas e relacionadas à recomendação da hemorragia intracerebral espontânea.
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Painel multidisciplinar aplica método GRADE
O documento foi elaborado por especialistas em neurologia, neurocirurgia, neurorradiologia, neurointensivismo e epidemiologia, com perguntas estruturadas pelo modelo PICO (Population, Intervention, Comparator, Outcome). Para cada questão, grupos de dois ou três autores revisaram MEDLINE, EMBASE, Cochrane Library e outras bases, avaliando ensaios randomizados, revisões sistemáticas, metanálises e estudos observacionais. O método GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) classificou a qualidade da evidência como alta, moderada, baixa ou muito baixa e a força das recomendações como forte ou fraca, com consenso de especialistas quando necessário.
Como o manejo agudo orienta diagnóstico e tratamento?
A diretriz recomenda neuroimagem rápida, preferencialmente tomografia de crânio sem contraste, para adultos com quadro semelhante a AVC, com evidência alta e recomendação forte. Em pacientes com hemorragia intracerebral, recomenda tomografias seriadas nas primeiras 24 horas diante do risco de expansão do sangramento, por exemplo em torno de 6 e 24 horas, com evidência moderada e recomendação forte. Após 24 horas, a frequência dos exames de neuroimagem deve ser adaptada ao estado neurológico e clínico do paciente. A realização de angiotomografia ou angiorressonância arterial e venosa precoce é recomendável, tanto para exclusão de causas secundárias como para achados prognósticos de expansão precoce do hematoma (“spot sign”), com evidência moderada e recomendação forte.
Em adultos sem indicação inicial de terapia intensiva, recomenda-se internação precoce em unidade de AVC, com evidência alta e recomendação forte. Casos moderados ou graves, hemorragia intraventricular com hidrocefalia ou hemorragia infratentorial volumosa devem ser manejados em UTI ou neuro-UTI, com evidência baixa e recomendação forte. Hemorragias supratentoriais volumosas, hemorragia intraventricular ou sangramento infratentorial devem motivar transferência para centro com capacidade neurocirúrgica.
Para a pressão arterial, a diretriz recomenda em adultos com hemorragia intracerebral espontânea aguda alvo de pressão sistólica entre 130 e 140 mmHg na primeira hora com agentes intravenosos, mantendo controle durante a primeira semana e excluindo pacientes em coma com Glasgow de 3 a 5 ou hematomas maciços. Em casos menos graves, recomenda iniciar a redução em até 3 horas e atingir valor abaixo de 140 mmHg em até 1 hora. A qualidade da evidência é moderada para essas duas recomendações.
O controle metabólico inclui tratamento da hiperglicemia com alvo de 110 a 140 mg/dL em não diabéticos e de 140 a 180 mg/dL em diabéticos, com evidência baixa e recomendação forte. A hipertermia deve ser tratada para alvo abaixo de 37,5 °C em até 1 hora, também com evidência baixa e recomendação forte.
Na hemorragia relacionadas à anticoagulantes, pode ser considerado a administração de drogas reversoras. Para hemorragia associada à antagonista da vitamina K, recomenda-se concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores combinado à vitamina K para alcançar INR abaixo de 1,5, com evidência baixa e recomendação forte. No caso de hemorragia relacionada ao uso de inibidores diretos da trombina, o uso de um agente reversor específico (Idarucizumabe) com monitoramento rigoroso para prevenir complicações tromboembólicas pode ser considerado, ainda que evidência muito baixa e recomendação fraca a favor. Já nas hemorragias relacionadas ao uso de inibidores do fator Xa, a decisão de administrar agentes reversores possui evidência baixa e recomendação fraca a favor. No caso desses anticoagulantes orais diretos, o uso de reversores deve levar em conta o contexto clínico, a disponibilidade do agente e uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios.
Em pacientes não deambulantes, recomenda-se compressão pneumática intermitente desde a admissão, com evidência moderada e recomendação forte. A dose profilática de anticoagulante deve ser iniciada depois que a tomografia documentar hematoma estável, com evidência baixa e recomendação forte.
Para cirurgia, a diretriz recomenda técnica minimamente invasiva trans-sulcal para hemorragia lobar de 30 a 80 mL, com evidência moderada e recomendação forte. Em adultos com hemorragias intracerebrais supratentorial candidatos à evacuação cirúrgica (volume ≥ 30 mL), considerar técnicas cirúrgicas minimamente invasivas (neurocirurgia estereotáxica, neuroendoscopia, aspiração do hematoma) em detrimento da craniotomia convencional para melhorar os desfechos clínicos, com evidência moderada e recomendação forte a favor., e evacuação urgente com drenagem ventricular externa em hematomas cerebelares acima de 15 mL quando houver hidrocefalia obstrutiva, compressão do tronco ou do quarto ventrículo, hemorragia intraventricular ou redução da consciência.
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Cuidado pós-AVC segue além da estabilização
Na prevenção secundária da hemorragia intracerebral espontânea, sugere-se pressão sistólica entre 120 e 130 mmHg, com evidência baixa e recomendação fraca, e pode-se iniciar ou manter estatina quando houver indicação cardiovascular bem documentada, também com evidência baixa e recomendação fraca.
Na reabilitação, a diretriz sugere contra mobilização muito precoce, nas primeiras 24 horas, com evidência baixa e recomendação fraca contra, mas recomenda cuidado multidisciplinar especializado, com evidência baixa e recomendação forte. O rastreamento rotineiro de déficit cognitivo e transtornos do humor recebe recomendação forte, apesar de evidência muito baixa.
A diretriz também recomenda incluir especialistas em cuidados paliativos na equipe interdisciplinar, com evidência moderada e recomendação forte, além de comunicação alinhada com familiares e representantes por reuniões regulares. Em casos com objetivos de cuidado discordantes, a diretriz recomenda um período terapêutico definido para manter tratamento intensivo e reavaliar resposta e prognóstico.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Danielle Calil
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.
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