O AVC isquêmico, doença altamente prevalente no mundo, é importante causa de mortalidade, além de provocar sequelas funcionais significativas nos indivíduos acometidos. Dentre as terapias mais eficazes para sua abordagem, está a reperfusão mecânica endovascular, para casos onde há oclusão de vasos proximais. Uma janela de conhecimento se relaciona aos AVCs com ictus entre 6-24h, qual método de imagem utilizar na seleção para trombectomia mecânica nesses casos? Nos últimos anos, cada vez mais a tomografia (TC) de crânio com angiotomografia arterial de crânio ganha espaço, com evidências cada vez mais seguras, na seleção de pacientes para trombectomia. Tradicionalmente, a tomografia por perfusão faz parte dos protocolos de seleção em pacientes com 6-24h de ictus, porém é um exame mais específico, caro e indisponível em vários serviços, incluindo nossa realidade no Brasil.
Essa questão foi avaliada em revisão sistemática e metanálise recentemente publicada.
Sobre o estudo
É uma revisão sistemática e metanálise, incluiu 16 estudos, incluindo 12.199 pacientes. O grande ponto que instigou o estudo foi a indisponibilidade de TC com perfusão em diversos locais, o que limitaria a realização de trombectomia mecânica, caso a mesma dependa de tal exame.
O desfecho primário avaliado foi a melhora funcional com independência funcional (Rankin 0-2) em 90 dias. Desfechos secundários incluíram melhor desfecho funcional (Rankin 0-1), andar sem apoio (Rankin até 3), reperfusão bem sucedida, morte em 90 dias, sangramento intracraniano sintomático ou qualquer sangramento.
Resultados
Não houve diferenças significativas em desfecho funcional (Rankin 0-2; 0-1 ou 0-3), reperfusão de áreas acometidas ou sangramento intracraniano, nos grupos selecionados tanto com TC com angioTC ou TC com perfusão. Dentre as variáveis analisadas, a TC por perfusão foi melhor em prever desfechos de mortalidade, entretanto, as demais variáveis não diferiram entre as modalidades de seleção. No subgrupo large core (AVC com oclusão proximal e área isquêmica definida no ASPECTS 3-5), a TC de crânio com angioTC foi adequada na abordagem e em desfecho clínico funcional.
Cabe ressaltar que houve heterogeneidade entre os estudos, para quase todas as variáveis, o que pode ser causado por viés de desenhos de estudo, inclusão de pacientes com diferentes gravidades clínicas e populações diferentes.
Mensagem final: TC de crânio com angioTC
A TC de crânio com angioTC arterial foi segura e eficaz em predizer quase todos os desfechos, exceto mortalidade, onde a perfusão foi favorecida. Tais dados evidenciam a segurança e eficácia em indicar trombectomia mecânica utilizando TC de crânio com angioTC. Este fato facilita a indicação do procedimento e flexibiliza a realização do mesmo, em serviços onde não há disponibilidade de perfusão (o que é fortemente visto em nossa realidade no Brasil).
Os fluxogramas atuais tendem, cada vez mais, em deixar a perfusão como exame opcional na avaliação clínica dos AVCs pré trombectomia.
Reforçamos o caráter observacional dos estudos avaliados, sendo necessários estudos prospectivos, com desenhos mais homogêneos, para melhorar cada vez mais a evidência entre tais exames na prática.
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