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Neurologia16 junho 2026

Dormir melhor para ter menos enxaqueca: evidências de psicoeducação do sono

Estudo avaliou o impacto de medidas de psicoeducação sobre o sono nos aspectos clínicos de pacientes com enxaqueca crônica
Por Danielle Calil

A relação entre sono e migrânea é bem estabelecida na literatura, mas o impacto de intervenções comportamentais breves sobre os desfechos clínicos da migrânea crônica permanecia pouco explorado.

Recentemente, um estudo brasileiro intervencional não randomizado, publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria, traz evidências relevantes para a prática ambulatorial: a psicoeducação do sono, entregue em sessão única de 20 a 30 minutos acompanhada de um folheto informativo, produziu reduções estatisticamente significativas na frequência e na intensidade das crises de cefaleia, além de melhorar parâmetros objetivos de qualidade do sono.

Dormir melhor para ter menos enxaqueca: evidências de psicoeducação do sono

Migrânea crônica e insônia: uma via de mão dupla

A migrânea é uma das condições neurológicas mais prevalentes, afetando cerca de 15% da população mundial. Sua cronificação — definida como cefaleia em 15 ou mais dias por mês por mais de três meses, com pelo menos oito dias de características migranosas — representa uma complicação relevante, associada a alterações mal adaptativas nos sistemas centrais de modulação da dor.

Indivíduos com migrânea apresentam prevalência significativamente maior de insônia em comparação à população geral, e essa associação parece ser bidirecional: distúrbios do sono aumentam a hiperexcitabilidade cortical e disfunção de vias inibitórias descendentes da dor, favorecendo a cronificação da migrânea. Em contraponto, as crises migranosas recorrentes, a antecipação da dor e a hiperativação autonômica associada interferem no início e na manutenção do sono, perpetuando ambas as condições.

Métodos

O estudo foi conduzido no ambulatório de cefaleia do Serviço de Neurologia do Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), incluindo pacientes com migrânea crônica refratária (nas quais houve falha de pelo menos três classes distintas de tratamento profilático adequadamente administrado).

Trata-se de estudo brasileiro intervencional, não randomizado, com tamanho amostral calculado para conferir poder estatístico de 80% utilizando alocação 2:1 (intervenção:controle), totalizando 93 participantes. O grupo intervenção foram pacientes com migrânea crônica que apresentavam queixas de distúrbios de sono, enquanto grupo controle não apresentava tais queixas relacionadas a sono.

O grupo intervenção foi avaliado por três instrumentos validados: o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI), a Escala de Sonolência de Epworth (ESS) e o Índice de Gravidade de Insônia (ISI). Em seguida, o grupo recebeu psicoeducação individualizada ministrada por dois estudantes de medicina previamente treinados, incluindo um folheto informativo desenvolvido pelo grupo de pesquisa e recomendações personalizadas envolvendo: restrição de tempo de tela, redução de cafeína, refeições leves antes de dormir, exercício aeróbico regular, técnicas de relaxamento respiratório, rotina de sono consistente e restrição do tempo na cama.

Após dois a três meses, os questionários foram reaplicados e os dados clínicos de ambos os grupos foram revisados.

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Resultados

Dos 100 pacientes triados por questionário estruturado, 68 (68%) relatavam queixas de qualidade do sono compatíveis com insônia e compuseram o grupo intervenção; os demais 32 pacientes, sem queixas de sono, foram alocados no grupo controle. Foram excluídos pacientes com sintomas sugestivos de apneia obstrutiva do sono.

O grupo controle, não houve variação estatisticamente significativa na frequência nem na intensidade da cefaleia ao longo do período de seguimento.

Já no grupo intervenção, os resultados foram expressivos:

  • Intensidade da cefaleia: redução da mediana de 9 para 8 pontos (p < 0,001).
  • Frequência da cefaleia: 55,9% dos pacientes relataram melhora. A proporção com cefaleia diária caiu de 57,4% para 20,6%; a frequência de 4-6 vezes por semana passou de 5,9% para zero (p < 0,001).
  • Qualidade do sono (PSQI): redução da média de 13,7 para 11,7 (p = 0,005).
  • Gravidade da insônia (ISI): redução expressiva de 18,5 para 13,4 (p < 0,001), com migração dos pacientes de categorias de insônia mais grave para categorias menos graves segundo os critérios clínicos padronizados.
  • Sonolência diurna (ESS): sem variação significativa — resultado esperado, dado que a queixa predominante era insônia, não hipersonia.

Na avaliação subjetiva realizada no seguimento, 61,8% dos pacientes relataram melhora na qualidade do sono e 58,8% referiram melhora das cefaleias após a intervenção. Houve ainda uma redução de 8,8% no uso de toxina botulínica no grupo intervenção, possivelmente refletindo a melhora sintomática.

Ao analisar os domínios do PSQI separadamente, os aspectos mais impactados pela intervenção foram qualidade subjetiva do sono, duração do sono, eficiência habitual do sono e distúrbios do sono, reforçando que a psicoeducação atua em múltiplas dimensões da qualidade do sono, tanto perceptivas quanto objetivas.

Implicações para a prática

A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é o tratamento de primeira linha recomendado pela American Academy of Sleep Medicine para insônia crônica e demonstrou benefícios tanto no sono quanto na migrânea em estudos prévios. No entanto, sua implementação exige profissionais especialmente treinados e múltiplas sessões, o que representa uma barreira significativa no contexto ambulatorial de alta demanda.

A psicoeducação do sono, por sua vez, apresenta-se como uma alternativa viável, de baixo custo e reprodutível, na qual, neste presente estudo, mostrou impacto positivo no tratamento de migrânea em indivíduos com queixas relacionadas ao sono. O fato de ter sido conduzida de forma eficaz por estudantes de medicina supervisionados amplia seu potencial de implementação em serviços de neurologia sem acesso a especialistas em medicina do sono. A intervenção se encaixa na janela de tempo disponível em consultas ambulatoriais de rotina (20 a 30 minutos) e não requer equipamentos ou recursos adicionais.

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Embora os autores reconheçam limitações metodológicas importantes (delineamento não randomizado, tamanho amostral, ausência de diário de cefaleia e de polissonografia, e seguimento relativamente curto), a magnitude das diferenças observadas no momento pré e pós-intervenção do grupo submetido à psicoeducação de sono sugere que a melhora no grupo de intervenção vai além do efeito placebo.

Mensagem final

Este estudo reforça a pertinência de incorporar avaliação e manejo do sono na rotina de atendimento a pacientes com migrânea crônica, especialmente naqueles com queixas de sono. A psicoeducação do sono emerge como medida adjuvante não farmacológica acessível, com impacto favorável tanto nos parâmetros de sono quanto nas características clínicas da migrânea. Estudos randomizados com maior amostra e seguimento mais longo são necessários para consolidar essas evidências e definir o papel desta intervenção no arsenal terapêutico da migrânea crônica.

Autoria

Foto de Danielle Calil

Danielle Calil

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Neurologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fellow em Neurologia Cognitiva e Anormalidades do Movimento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre no Programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto na UFMG e, atualmente, cursando o doutorado na mesma instituição. Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular e em rede secundária no SUS.

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