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Neurologia20 abril 2026

Arterite de células gigantes: como não perder esse diagnóstico?

A arterite de células gigantes é uma emergência médica e o atraso no tratamento pode levar à isquemia de órgãos-alvo e perda da visão

A arterite de células gigantes (ACG) é uma das poucas condições neurológicas em que tempo literalmente é visão. Ainda assim, continua sendo frequentemente subdiagnosticada, atrasada ou descartada de forma equivocada, mesmo em pacientes com sinais clássicos. Um artigo recente do BMJ (2026), da série Easily Missed?, escancara esse problema ao mostrar como a ACG pode passar despercebida — com consequências devastadoras.

O texto não é apenas uma revisão: é um alerta clínico direto para médicos da atenção primária, emergência, neurologia, oftalmologia e reumatologia.

Por que a arterite de células gigantes é uma emergência médica?

A ACG é uma vasculite de médios e grandes vasos que pode levar rapidamente a:

  • Perda visual permanente
  • AVC
  • Isquemia de outros órgãos

Até 50% dos pacientes não tratados evoluem com algum grau de perda visual permanente.

Mesmo após o advento dos corticoides, o atraso diagnóstico continua sendo o principal determinante de cegueira evitável.

O caso clínico que ilustra o erro

O artigo começa com uma história real e didática:

  • Mulher, 80 anos
  • Dor mandibular ao mastigar por 4 semanas
  • Episódios de perda visual indolor
  • Sensibilidade no couro cabeludo
  • Cefaleia “parecida com as antigas”

O detalhe crítico foi a presença de VHS e PCR normais, além de um ultrassom inicial inconclusivo.

Resultado:

  • ACG descartada
  • Diagnóstico atrasado
  • Evolução para neuropatia óptica isquêmica bilateral
  • Perda visual permanente

A principal lição é clara: exames normais não excluem arterite de células gigantes.

Leia também: Avaliação do acometimento de vasos intracranianos na arterite de células gigantes

Arterite de células gigantes: como não perder esse diagnóstico?

Imagem de kjpargeter/freepik

O que é a arterite de células gigantes, afinal?

Trata-se de uma vasculite que pode se apresentar em dois grandes fenótipos:

Forma craniana clássica

Acomete ramos da carótida externa:

  • Cefaleia nova ou diferente
  • Dor ou sensibilidade temporal
  • Claudicação mandibular
  • Alterações visuais

Forma extracraniana

Acomete aorta e grandes ramos:

  • Claudicação de membros
  • Sintomas constitucionais
  • Associação com polimialgia reumática

Pacientes com a forma extracraniana demoram mais a ser diagnosticados.

Quão comum é?

A incidência global varia amplamente:

  • Mais comum em pessoas com 50 anos ou mais
  • Pico em países escandinavos

Ainda assim, um médico generalista em tempo integral vê, em média, 1 caso novo a cada 1–2 anos.

Essa combinação de raridade relativa e apresentações atípicas explica o alto risco de erro diagnóstico.

Por que a ACG é tão frequentemente “perdida”?

O artigo destaca três fatores principais:

Confiança excessiva em sintomas clássicos

  • Cefaleia está ausente em até 25% dos casos
  • A ausência de dor de cabeça leva muitos médicos a excluir o diagnóstico

Marcadores inflamatórios normais

  • Cerca de 4% dos casos confirmados por biópsia apresentam VHS e PCR normais
  • A normalidade laboratorial reduz a suspeita, mas não exclui a doença

Atrasos no sistema de saúde

Meta-análises mostram:

  • Tempo médio até diagnóstico: 9 semanas
  • Nas formas extracranianas: até 18 semanas

Tempo suficiente para dano irreversível ocorrer.

Os sinais que realmente pesam no diagnóstico

Uma meta-análise citada no artigo mostra que nem todos os sintomas têm o mesmo peso diagnóstico.

Os achados com maior valor diagnóstico são:

  • Claudicação de membros
  • Claudicação mandibular
  • Espessamento da artéria temporal

Esses sinais devem aumentar imediatamente a suspeita clínica, mesmo com exames normais.

Diagnóstico: imagem, biópsia e o tempo contra o paciente

As diretrizes atuais convergem em um ponto fundamental:

O tratamento não deve ser adiado aguardando confirmação diagnóstica.

  • Ultrassom de artérias temporais e axilares é primeira linha em muitos países europeus
  • Biópsia da artéria temporal segue como referência em vários cenários
  • Ressonância, angio-TC ou PET são úteis para formas extracranianas

A sensibilidade dos exames cai após o início do corticoide, mas o tratamento não pode esperar.

Tratamento: agir antes de confirmar

A recomendação é direta:

  • Diante de suspeita clínica de ACG, iniciar corticoide imediatamente
  • Prednisona VO 40–60 mg/dia
  • Na presença de sintomas visuais:
    • Metilprednisolona EV 500–1000 mg/dia por 3 dias

Estudos mostram que iniciar tratamento em até 24 horas após perda visual:

  • Aumenta a chance de recuperação
  • Reduz o risco de cegueira bilateral

Saiba mais: Modalidades de exames de imagem para o diagnóstico da arterite de células gigantes

A principal mensagem do artigo

Arterite de células gigantes é um diagnóstico clínico antes de ser laboratorial ou radiológico.

Na prática:

  • Exames normais não tranquilizam
  • História compatível exige tratamento
  • Esperar confirmação pode custar a visão

Conclusão

Este artigo do BMJ é um chamado direto à responsabilidade clínica. A arterite de células gigantes não é rara o suficiente para ser esquecida, nem benigna o suficiente para ser observada passivamente.

Em pacientes acima de 50 anos, com dor mandibular, sintomas visuais ou claudicação, pensar em ACG é obrigatório — mesmo com exames normais.

E, uma vez pensada, o tratamento deve ser imediato.

Na ACG, errar por excesso é menos grave do que errar por atraso.

Autoria

Foto de Thiago Nascimento

Thiago Nascimento

Formado em Medicina pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Residência Médica em Neurologia no Hospital Geral Roberto Santos (HGRS) Salvador - Bahia (2016-2019). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Mestrando em Ciências da Saúde pela UFBA (PPGCs - UFBA). Preceptor da Residência de Neurologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Médico Neurologista - Membro do Ambulatório de Neuroimunologia do HU- UFS - (Ebserh - Aracaju- SE). Professor na Afya Educação Médica.

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Referências bibliográficas

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