O antiagregante plaquetário exerce papel fundamental no manejo do AVC isquêmico de etiologia não cardioembólica, uma vez que sua função é atuar impedindo a formação de trombo intravascular reduzindo o risco de eventos isquêmicos relacionados a oclusão dos vasos. Neste artigo, revisamos AAS e clopidogrel, suas diferenças, quando indicar monoterapia ou uso combinado e os principais pontos de segurança, como risco de sangramento e falha terapêutica.
AAS e clopidogrel: mecanismos e diferenças
O AAS e o clopidogrel são antiagregantes plaquetários as quais que atuam reduzindo a formação de trombos intravasculares.
O AAS atua inibindo a COX-1 de forma irreversível. Nas plaquetas, esse efeito leva ao bloqueio do tromboxano A2 (que tem ação agregante plaquetária). Já o clopidogrel necessita de metabolização hepática, onde é ativado e atua bloqueando o P2Y12 de ADP nas plaquetas, também de forma irreversível.
Cabe ressaltar que a resposta ao clopidogrel pode variar mediante polimorfismos em CYP2C19, enquanto a resposta ao AAS tende a ser mais uniforme. Do ponto de vista gastrointestinal, o clopidogrel tende a ser mais bem tolerado.
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Quando indicar antiagregante plaquetário no AVC?
O uso de antiagregantes no AVC isquêmico de etiologia não cardioembólica é recomendado como parte do manejo. A introdução da medicação (AAS isolado ou combinação com clopidogrel) deve ser realizada o mais precocemente possível, para melhor benefício clínico na redução de risco de novos eventos cerebrovasculares.
Uso combinado de AAS e clopidogrel
O uso combinado de AAS e clopidogrel é recomendado em casos de AVC isquêmico minor (NIHSS < 5) ou em casos de AIT de alto risco (ABCD2 > 4). Seu uso combinado deve ser realizado por 21 a 90 dias, com melhor benefício introduzindo a medicação dentro de 48 horas do evento.
Duração do tratamento com AAS e clopidogrel
A recomendação de uso é de 21 dias a 90 dias. Após 90 dias, é recomendado retirar o clopidogrel, mantendo apenas o AAS, devido risco de sangramento aumentado e ausência de benefício adicional após 90 dias.
Risco de sangramento e como avaliar
Existe um risco relativo de sangramento do trato gastrointestinal quando o paciente está em uso de AAS. Os principais fatores de risco relacionados a ocorrência de sangramento são incluem:
- Presença de úlcera péptica
- Gastrite relacionada ao H. Pylori
- Uso concomitante de anti-inflamatórios não esteroidais
- Idosos
- Tabagismo.
Deve-se ficar atento a presença de dispepsia após introdução do AAS e a presença de dor abdominal aguda.
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O que fazer em caso de sangramento agudo em uso de AAS?
Caso haja sangramento agudo em uso de AAS, estando o paciente utilizando a medicação como profilaxia secundária, seu uso não deve ser interrompido. Caso haja necessidade de interrupção da medicação, orienta-se retornar à medicação logo após confirmada a hemostasia, pelo risco de recorrência do evento vascular.
Falha do antiagregante plaquetário
Pode haver recorrência de evento cerebrovascular mesmo em uso adequado do AAS. Algumas teorias para essa falha incluem:
- Má absorção da medicação
- Variabilidades na expressão da COX e glicoproteínas
- Má adesão
- Subdose
No caso do clopidogrel, pode haver falha relacionada a polimorfismo da CYP2C19.
Situações especiais
Em situações especiais, quando houver intolerância ou alergia ao AAS e clopidogrel, pode-se considerar outros antiagregantes, como o ticagrelor. Já nos casos de sangramento gastrointestinal alto, a conduta é realizar hemostasia e em casos de profilaxia secundária, retornar uso de AAS.
O que não fazer no uso de AAS e clopidogrel?
Não se recomenda manter o uso concomitante de AAS e clopidogrel por mais de 90 dias, pelo aumento de risco de sangramento do trato gastrointestinal.
Recomenda-se evitar uso de anti-inflamatórios não esteroidais e esteroidais, em vigência de uso de antiagregante plaquetário, pelo aumento de risco de sangramento.
Mensagens práticas para o médico
O AVC isquêmico afeta parcela significativa da população e a instituição de profilaxia secundária é fundamental para reduzir o risco de recorrência dos eventos. Neste contexto, o AAS é uma medicação crucial no manejo pós AVC isquêmico de origem não cardioembólica, podendo ser utilizado isoladamente ou em combinação com clopidogrel por 21 a 90 dias.
Situações especiais, como falha ao medicamento, alergia e sangramento do trato gastrointestinal, devem ser manejadas de forma individual, com orientação a pacientes e familiares quanto aos riscos e segurança de uso da medicação.
Autoria

Jesus Ventura
Médico graduado pela AFYA Faculdade de Ciências Médicas de Ipatinga em 2017. Neurologista formado no HCUFMG de 2018 a 2021. Neurologista assistente do IPSEMG. Professor na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.
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