Durante o AAN Annual Meeting 2026, as sessões “Brain Health in Action: Advancing Behavior Change Strategies Together” e “Brain Health in 10 Minutes: Lightning Learning Series”, trouxeram uma discussão central para a neurologia contemporânea: como transformar o conhecimento sobre prevenção neurológica em mudanças sustentáveis de comportamento. As palestras foram ministradas pela Dra. Bernadette Boden-Albala e Dr. Behnam Sabayan, respectivamente, em atividades do Brain Health Hub.
A mensagem central foi que saúde cerebral não deve ser entendida apenas como ausência de doença neurológica, mas como a capacidade de preservar cognição, regulação emocional, funcionalidade, autonomia e participação social ao longo da vida.
Essa visão amplia o papel do neurologista, indo além do diagnosticar e tratar doenças estabelecidas, passando a atuar na redução de risco, na educação, na mudança comportamental e na construção de ambientes que favoreçam escolhas sustentáveis.
Saúde cerebral como trajetória de vida
Um dos pontos mais relevantes da apresentação foi a ideia de que o cérebro reflete exposições cumulativas. Pequenas decisões repetidas como adesão medicamentosa; controle pressórico; atividade física; sono; alimentação; interação social; redução do tabagismo e manejo de condições crônicas, podem influenciar trajetórias neurológicas ao longo de anos ou décadas.
A palestra destacou que ações de curto prazo podem ser iniciadas “hoje”, mas a proteção cerebral real depende de padrões sustentados: atividade física regular, alimentação saudável, controle de fatores vasculares e manutenção de vínculos sociais.
Esse raciocínio dialoga com a Comissão Lancet de 2024 sobre prevenção, intervenção e cuidado em demência, que estimou que cerca de 45,3% dos casos de demência poderiam ser potencialmente prevenidos ou retardados pela abordagem de 14 fatores modificáveis ao longo do curso de vida, incluindo baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo cranioencefálico, poluição do ar, isolamento social, LDL elevado e perda visual não tratada.
Portanto, a noção de brain health desloca a neurologia de uma lógica exclusivamente reativa para uma lógica longitudinal. A pergunta deixa de ser apenas “qual doença este paciente tem?” e passa a incluir: quais exposições estão moldando o risco neurológico deste paciente e quais mudanças são possíveis no contexto real em que ele vive?
Da recomendação ideal à ação possível
A palestra também abordou uma limitação frequente da prática clínica: recomendações preventivas costumam ser corretas do ponto de vista biomédico, mas pouco efetivas se não forem traduzidas em ações realistas. Orientar “faça exercício”, “durma melhor”, “coma melhor” ou “controle a pressão” pode ser insuficiente quando o paciente enfrenta barreiras de tempo, custo, ambiente, baixa alfabetização em saúde, múltiplas comorbidades, desconfiança no sistema ou ausência de suporte familiar.
Nesse sentido, Boden-Albala reforçou que o cuidado em saúde cerebral deve abandonar a noção simplista de “adesão” como responsabilidade exclusiva do paciente e avançar para um modelo de mudança comportamental apoiada. Isso inclui personalizar metas, reconhecer barreiras concretas, envolver familiares e redes sociais, usar recursos comunitários, reforçar pequenos progressos e manter acompanhamento longitudinal.
A entrevista motivacional foi apresentada como uma ferramenta útil nesse processo, por favorecer perguntas abertas, escuta reflexiva e fortalecimento da motivação intrínseca para mudança. Mais do que convencer o paciente, a proposta é construir (com ele) um plano possível.
AAN 2026: Transtorno comportamental do sono REM
O papel do Life’s Essential 8
Entre os instrumentos práticos discutidos, o Life’s Essential 8, da American Heart Association, aparece como uma forma objetiva de monitorar saúde cardiovascular e, indiretamente, risco neurológico. O escore avalia oito componentes: dieta, atividade física, exposição à nicotina, sono, índice de massa corporal, lipídios, glicemia e pressão arterial. Cada métrica é pontuada de 0 a 100, permitindo a construção de um escore global de saúde cardiovascular.
Embora tenha origem cardiovascular, o Life’s Essential 8 tem aplicação natural na neurologia preventiva, especialmente pela interface entre hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, sono inadequado, sedentarismo, AVC, comprometimento cognitivo e envelhecimento cerebral. Nas imagens da apresentação, esse conceito foi usado como ferramenta de monitoramento e comunicação de risco, com pontuações mais baixas indicando pior perfil cardiometabólico e maior necessidade de intervenção.
Esse ponto é particularmente útil para a prática: a saúde cerebral precisa ser acompanhada com parâmetros concretos. Monitorar pressão arterial, sono, atividade física, peso, glicemia e perfil lipídico pode transformar uma recomendação abstrata em um plano mensurável.
A “receita” multidomínio do U.S. POINTER
Um dos pontos altos da discussão foi o U.S.POINTER, estudo randomizado publicado no JAMA em 2025, que avaliou intervenções multidomínio em adultos mais velhos com risco aumentado de declínio cognitivo e demência. O estudo incluiu 2.111 participantes e comparou uma intervenção estruturada com uma intervenção autoguiada, ambas baseadas em atividade física, dieta MIND, desafio cognitivo/social e monitoramento da saúde cardiovascular. A intervenção estruturada produziu melhora global de cognição estatisticamente maior ao longo de dois anos.
A “receita” do POINTER não deve ser interpretada como fórmula rígida ou universal, mas como uma arquitetura prática de intervenção multidomínio. Seus componentes principais foram exercício físico regular, incluindo atividade aeróbica, força e flexibilidade; nutrição baseada na dieta MIND; estímulo cognitivo e social; e monitoramento regular de parâmetros clínicos, como pressão arterial, peso e exames metabólicos.
A implicação prática é importante: não basta aconselhar; é preciso estruturar. Intervenções com metas, suporte de acompanhamento e responsabilização, parecem mais promissoras do que orientações isoladas em consultas episódicas.
Saúde cerebral também exige olhar além do cérebro
Outro ponto interessante das imagens enviadas é a recomendação de pensar a saúde cerebral dentro de uma avaliação global. Atenção primária, visão, audição, saúde bucal e saúde mental aparecem como dimensões práticas do cuidado. Isso é coerente com a literatura atual: perda auditiva, perda visual não tratada, depressão, isolamento social e fatores cardiometabólicos são reconhecidos como componentes relevantes de risco neurológico e cognitivo ao longo da vida.
Para o neurologista, isso tem uma consequência direta: preservar a saúde cerebral não significa solicitar apenas exames neurológicos ou rastrear demência. Também envolve garantir que o paciente enxergue, ouça, durma, se movimente, controle dor, trate depressão, mantenha vínculos sociais e tenha acesso a cuidados básicos.
Redes sociais, família e comunidade: onde a prevenção acontece
Um dos conceitos mais fortes da palestra foi a passagem da responsabilidade individual para soluções compartilhadas. A grande parte da mudança comportamental relevante para brain health não acontece dentro do consultório, mas em casas, bairros, igrejas, barbearias, escolas, locais de trabalho e rotinas familiares. Os sistemas de saúde são, muitas vezes, episódicos e reativos; já a mudança de comportamento exige reforço contínuo, confiança e suporte social.
A apresentação revisou o papel das redes sociais como determinantes de saúde. Falta de suporte social, isolamento, solidão e redes limitadas foram associados a maior risco de AVC, pior recuperação funcional, depressão, pior qualidade de vida e atraso na procura por atendimento em situações agudas.
Esse ponto aproxima a neurologia preventiva da saúde pública. O neurologista pode prescrever metas, mas a manutenção dessas metas depende de fatores que muitas vezes estão fora da consulta: quem compra e prepara a comida, quem lembra a medicação, quem acompanha o paciente à consulta, quem incentiva caminhada, quem identifica sinais de alerta e quem ajuda a enfrentar barreiras de acesso.
Evidências de intervenções comunitárias
A palestra utilizou estudos comunitários para mostrar que intervenções fora do modelo tradicional de consultório podem produzir resultados relevantes. O estudo DESERVE, publicado no JAMA Neurology, avaliou uma intervenção educacional multinível após AVC/AIT, baseada em habilidades, modelo de cuidado crônico, agentes comunitários bilíngues, percepção de risco, adesão e comunicação médico-paciente. Na apresentação, a intervenção foi associada a redução adicional de 2,5 mmHg na pressão arterial sistólica em 12 meses em relação ao cuidado usual, com redução de 9,9 mmHg no subgrupo hispânico.
Outro exemplo citado foi o ensaio randomizado em barbearias, publicado no New England Journal of Medicine, no qual homens negros com hipertensão não controlada foram acompanhados em barbearias por uma estratégia que combinava promoção de saúde pelos barbeiros e manejo farmacológico por farmacêuticos treinados. O estudo mostrou redução pressórica significativamente maior no grupo de intervenção, reforçando o valor de levar o cuidado para ambientes comunitários de confiança.
Esses modelos não substituem o cuidado médico, mas mostram que a prevenção pode ser mais efetiva quando se aproxima dos lugares onde a vida cotidiana acontece.
O neurologista em camadas: da consulta ao suporte na defesa de políticas públicas
O modelo de pirâmide de ações em neurologia preventiva citado na palestra do Dr Behnam Sabayan, organiza o papel do neurologista em múltiplos níveis. Na base, está o cuidado direto ao paciente: avaliação de risco, controle de condições crônicas, aconselhamento individualizado e implementação de intervenções de estilo de vida. Em seguida, vem a educação familiar, com orientação sobre sinais precoces, mudanças comportamentais e suporte ao paciente. Além disso, o neurologista atua como especialista em saúde cerebral, recurso para colegas, formador de opiniões/protocolos e educador. No topo, está a atuação em nível comunitário/atuação institucional e políticas públicas.
Esse modelo é particularmente relevante porque evita duas reduções comuns. A primeira é pensar que a prevenção neurológica se limita a aconselhamento individual. A segunda é imaginar que a defesa de políticas públicas estão distantes da prática clínica. Na realidade, ambas as dimensões são complementares: o neurologista vê, no consultório, os efeitos cumulativos de desigualdade, baixa alfabetização em saúde, acesso irregular, insegurança alimentar, isolamento e controle inadequado de fatores vasculares.
Tecnologia, cognição e “cognitive off-loading”
As imagens da apresentação também chamam atenção para um tema emergente: o risco de descarregamento cognitivo (cognitive off-loading), ou seja, a terceirização excessiva de funções cognitivas para ferramentas externas, como dispositivos digitais e inteligência artificial. Esse ponto deve ser tratado com cautela. A tecnologia pode ser uma aliada importante para lembretes, organização, adesão medicamentosa, monitoramento remoto, telemedicina e educação em saúde.
O problema surge quando seu uso substitui completamente práticas cognitivamente ativas, como leitura crítica, aprendizagem, resolução de problemas, atenção sustentada, interação social e construção de novos repertórios.
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Mensagem prática
A palestra de Bernadette Boden-Albala no AAN 2026 reforça que brain health é uma agenda prática da neurologia moderna. A saúde cerebral não depende de uma intervenção isolada, nem de uma recomendação genérica. Ela resulta de padrões sustentados de comportamento, controle de fatores vasculares, sono adequado, alimentação saudável, atividade física, estímulo cognitivo, saúde mental, cuidado sensorial, vínculos sociais e acesso equitativo a serviços.
Para o neurologista, a implicação é clara: não basta reconhecer doenças neurológicas quando elas emergem. O papel da neurologia preventiva é ajudar o paciente a sustentar escolhas possíveis, mensuráveis e socialmente apoiadas, não apenas no consultório, mas nos espaços onde a vida acontece: em casa, na família, no trabalho e na comunidade.
Autoria

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao
Editor médico de Neurologia do Portal Afya. Mestrando em Neurologia pela UFF (Neuroimunologia/Neuromuscular). Fellow em Neuroimunologia na Universidade Federal de Goiás (HC-UFG).
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