Logotipo Afya
Anúncio
Infectologia26 março 2019

Polimixinas B: uso clínico na diretriz internacional

Veja recomendações da diretriz internacional 2019 sobre polimixinas: escolha entre polimixina B e colistina, doses e nefrotoxicidade.

Comercializadas desde a década de 1950, as polimixinas ressurgiram como opção para o tratamento de bactérias multirresistentes, especialmente Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e enterobactérias.

Seu mecanismo de ação envolve a interrupção da integridade da membrana externa de bactérias Gram-negativas. Atualmente, as principais apresentações são a polimixina B e a polimixina E, mais conhecida como colistina.

A colistina é uma pró-droga inativa, que precisa ser convertida em sua forma ativa. Já a polimixina B é administrada diretamente em sua forma ativa. A atividade in vitro de ambas é virtualmente idêntica, sendo bactericidas contra cepas suscetíveis de P. aeruginosa, A. baumannii e K. pneumoniae, com um efeito pós-antibiótico modesto. As diferenças farmacocinéticas e o potencial nefrotóxico frequentemente geram dúvidas na prática clínica.

Em 2019, foi publicado um consenso internacional, endossado por diversas sociedades, sobre o uso clínico das polimixinas. O documento reúne recomendações sobre escolha da formulação, indicações, doses, ajustes e estratégias para reduzir nefrotoxicidade.

A seguir, resumimos os principais pontos da diretriz.

polimixinas

Polimixina B ou colistina: qual escolher?

O consenso internacional recomenda o uso preferencial de polimixina B em infecções invasivas.

A escolha se justifica pelo melhor perfil farmacocinético em humanos e pelo menor potencial nefrotóxico em comparação à colistina.

Para infecções do trato urinário inferior, a recomendação é utilizar colistina, já que ela é convertida em sua forma ativa no trato urinário.

Recomendações para o uso de colistina

Em pacientes críticos, os níveis séricos de colistina podem aumentar em ritmo variável, levando horas ou dias para atingir concentrações adequadas ao efeito bactericida.

Por isso, recomenda-se dose de ataque de:

  • 000.000 UI;
  • infundida em 30 minutos a 1 hora;
  • seguida de dose de manutenção após 12 a 24 horas.

Em pacientes com função renal normal, a dose de manutenção é de:

  • 000.000 a 10.900.000 UI/dia;
  • dividida em 2 doses;
  • com infusão em 30 minutos a 1 hora.

A função renal deve ser monitorada para avaliar necessidade de ajuste de dose.

Colistina em pacientes em hemodiálise

Para pacientes em hemodiálise, doses suplementares devem ser administradas para compensar perdas de acordo com a modalidade de HD utilizada.

Na hemodiálise intermitente:

  • em dias sem diálise: 3.950.000 UI/dia;
  • em dias de diálise: dose suplementar pós-HD de:
    • 200.000 UI para sessões de 3 horas;
    • 600.000 UI para sessões de 4 horas.

Na hemodiálise contínua:

  • 650.000 UI a cada 12 horas;
  • aproximadamente 13.300.000 UI/dia.

Na hemodiálise prolongada:

  • dose suplementar equivalente a 10% da dose diária para cada hora de diálise (i.e., para uma sessão de 10h de HD, a dose é de 10% da dose diária x 10).

Recomendações para o uso de polimixina B

Para a polimixina B, recomenda-se dose de ataque de:

  • 000 a 25.000 UI/kg;
  • administrada durante 1 hora.

Em infecções graves, a dose de manutenção deve ser:

  • 500 a 15.000 UI/kg;
  • a cada 12 horas;
  • com infusão em 1 hora.

Diferentemente da colistina, a polimixina B não exige ajuste da dose de manutenção conforme função renal, pois sua eliminação não é predominantemente renal.

Também não são necessárias correções de dose em pacientes em hemodiálise.

Como reduzir o risco de nefrotoxicidade das polimixinas?

O guideline também aponta estratégias para reduzir o risco de nefrotoxicidade em pacientes em uso de colistina ou polimixina B.

As principais medidas são:

  • evitar uso concomitante de outras drogas nefrotóxicas;
  • evitar doses maiores do que as recomendadas;
  • preferir polimixina B quando ambas as formulações estiverem disponíveis;
  • reservar a colistina para situações em que ela é mais indicada, como infecção do trato urinário.

Não há recomendação para uso de antioxidantes, como vitamina C, como estratégia nefroprotetora. Embora o dano renal pareça ser mediado por estresse oxidativo, não há evidências de benefício dessas substâncias na prevenção de insuficiência renal associada às polimixinas.

Conclusão

As polimixinas seguem como opção no tratamento de bactérias Gram-negativas multirresistentes, mas seu uso exige atenção à escolha da formulação, dose, função renal e risco de nefrotoxicidade.

A diretriz internacional de 2019 orienta preferência pela polimixina B em infecções invasivas e pela colistina em infecções do trato urinário inferior. Também reforça a importância de evitar nefrotóxicos concomitantes, respeitar as doses recomendadas e monitorar pacientes em maior risco.

 

*Este conteúdo foi atualizado em: 02/06/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.

Referências:

  • Tsuji, BT, Pogue, JM, Zavascki, AP, Paul, M, Daikos, GL, Forrest, A, Giacobbe, DR, Viscoli, C, Giamarellou, H, Karaiskos, I, Kaye, D, Mouton, JW, Tam, VH, Thamlikitkul, V, Wunderink, RG, Li, J, Nation, RL, Kaye, KS. International Consensus Guidelines for the Optimal Use of the Polymyxins: Endorsed by the American College of Clinical Pharmacy (ACCP), European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID), Infectious Diseases Society of America (IDSA), International Society for Anti-infective Pharmacology (ISAP), Society of Critical Care Medicine (SCCM), and Society of Infectious Diseases Pharmacists (SIDP). Pharmacotherapy 39 (1), 2019.

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Infectologia