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Infectologia9 setembro 2026

OMS atualiza segurança ocular e dose por peso da Miltefosina

Nova diretriz da OMS detalha prevenção de eventos oculares e esquema alométrico por peso da Miltefosina para uso no tratamento das leishmanioses
Por Camila Rangel

A Miltefosina é o primeiro antileishmania de administração oral, incorporada ao SUS em outubro de 2018. Possui vida terminal muito longa, de cerca de uma semana. É indicada para tratamento de leishmaniose visceral, leishmaniose tegumentar cutânea e mucosa e leishmaniose dérmica pós-calazar.

O medicamento foi o foco dos anexos 1 e 2 da nova diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre leishmanioses. As recomendações não são voltadas especificamente para a América Latina, e sim para outras regiões do mundo. No entanto, traz importantes atualizações sobre o uso da Miltefosina, que também são de aplicabilidade no contexto brasileiro. O anexo 1 detalha medidas para prevenir, reconhecer e manejar eventos adversos oculares causados pela medicação, enquanto o anexo 2 apresenta um regime alométrico de dose por faixa de peso. As orientações foram incorporadas após sinais de toxicidade ocular e integram a atualização para leishmaniose visceral e leishmaniose dérmica pós-calazar (PKDL).

Eventos adversos oculares sustentam nova cautela com Miltefosina

Após relatos de eventos oculares graves em pacientes tratados com Miltefosina para PKDL, a OMS constituiu um grupo técnico multidisciplinar para revisar os dados disponíveis, avaliar causalidade, propor medidas de minimização de risco e orientar a comunicação com pacientes e profissionais. O grupo se reuniu em outubro e novembro de 2022 e finalizou as recomendações em dezembro.

A avaliação reuniu relatos do VigiBase, três estudos de campo na Índia, literatura publicada e dados não clínicos. Entre os 83 casos em que foi possível avaliar causalidade, a relação entre Miltefosina e o evento ocular foi considerada possível. Foram descritos como eventos adversos: ceratite, ceratopatia, esclerite aguda, uveíte, hiperemia ocular e comprometimento visual, incluindo perda de visão.

A maioria dos eventos considerados ao menos possivelmente relacionados ocorreu após 28 dias de tratamento. Muitos tiveram resolução ao menos parcial após a suspensão, mas houve casos persistentes, incluindo perda visual. A OMS considera uma relação causal pelo menos razoavelmente possível. A frequência, entretanto, não pôde ser estimada por limitações como tamanho dos estudos, possível subnotificação e ausência de comparador.

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Como fazer o exame oftalmológico antes da Miltefosina?

Antes do tratamento, recomenda-se avaliar histórico prévio de doença ocular e realizar avaliação dos olhos conforme apropriado. Quando há doença ocular atual ou prévia, benefícios e riscos devem ser ponderados e, quando viável, deve-se buscar avaliação de oftalmologista.

O anexo 1 orienta adiar a Miltefosina em pacientes com doença ocular grave, especialmente ceratite, uveíte ou esclerite, até resolução completa do quadro. Em quem apresentou alterações oculares durante exposição anterior à Miltefosina, recomenda-se intervalo de, pelo menos, quatro semanas antes de nova exposição e seguimento preferencialmente a cada duas semanas.

Pacientes e familiares devem ser orientados a reconhecer os sintomas: vermelhidão, irritação, lacrimejamento, dor, fotofobia, redução ou turvação da visão, aspecto ocular turvo ou pontos brancos no olho.

Interromper a Miltefosina diante de sintomas oculares

Se surgirem sintomas oculares durante o tratamento, recomenda-se interromper imediatamente a Miltefosina e procurar avaliação em serviço de saúde. Se a associação com o medicamento não puder ser excluída, a diretriz orienta manter a suspensão, considerar tratamento alternativo para a leishmaniose quando necessário e solicitar avaliação oftalmológica para reduzir o risco de dano permanente.

Quando possível, o paciente deve ser encaminhado a serviço com assistência oftalmológica; teleconsulta pode ser considerada. Eventos suspeitos devem ser notificados às autoridades sanitárias locais e ao programa nacional de farmacovigilância.

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O seguimento ocular deve durar, pelo menos, dois meses

Todos os pacientes em uso de Miltefosina devem ser acompanhados frequentemente durante o tratamento e por, no mínimo, dois meses após o seu término. A OMS considera especialmente importante o exame ocular ao completar quatro semanas de terapia.

O anexo 1 inclui um questionário de seguimento destinado aos programas de doença e farmacovigilância, e não à equipe de linha de frente. O instrumento busca caracterizar melhor o risco e avaliar a efetividade das medidas de minimização. A OMS também recomenda vigilância ativa.

Persistem limitações importantes: não foi possível estimar a frequência dos eventos, nenhum fator de risco adicional foi identificado e as evidências não permitem confirmar ou excluir fator de risco semelhante em pacientes africanos com PKDL.  

Se o peso variar, a dose alométrica da Miltefosina muda por faixa

O anexo 2 organiza a dose alométrica da Miltefosina em faixas de peso. Na prática, os dois anexos combinam prescrição por faixa de peso comum roteiro de segurança antes, durante e depois da exposição. O anexo 1 também propõe advertências sobre possíveis eventos oculares nas informações do produto e nos materiais destinados ao paciente, além de comunicação específica aos profissionais de saúde quando viável.

O escopo geográfico da diretriz deve ser preservado: o documento aborda África Oriental e Sudeste Asiático, enquanto a orientação da OMS publicada em 2022 para as Américas permanece válida. Ao mesmo tempo, o próprio anexo 1 indica que suas precauções devem ser consideradas também para outros pacientes expostos à Miltefosina. Para a prática clínica, a mensagem central é associar dose adequada ao peso, educação do paciente, vigilância ocular e farmacovigilância dentro das recomendações aplicáveis a cada cenário regional.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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