Um aspecto fundamental no manejo de pacientes críticos é a identificação da etiologia do choque, a instituição precoce de terapias direcionadas e adequadas para suporte, visando manter o fluxo sanguíneo e oferta de oxigênio adequada aos tecidos, bem como a aplicação de tratamentos específicos para reverter a causa do choque. Nas últimas quatro décadas, houve inúmeros avanços na compreensão do choque, de sua gravidade e da resposta às terapias, acompanhados pelo desenvolvimento de abordagens de monitorização mais específicas e esclarecedoras. Um artigo recente buscou fazer uma análise histórica e resumir todos esses aspectos.
O choque permanece uma das principais causas de mortalidade em pacientes críticos. Apesar dos extraordinários avanços tecnológicos das últimas décadas, o autor inicia o artigo lembrando que o princípio fundamental permanece inalterado: reconhecer precocemente o choque e iniciar rapidamente terapias capazes de restaurar a perfusão tecidual antes que a lesão orgânica se torne irreversível. Quando a disfunção orgânica já está estabelecida, nenhuma intervenção consegue reverter o dano celular; o máximo que conseguimos é impedir sua progressão.
Inicialmente, o choque era interpretado apenas como consequência de perda sanguínea. Estudos experimentais conduzidos por Wiggers, Richards, MacLean e Weil permitiram compreender que diferentes mecanismos fisiopatológicos poderiam levar ao mesmo fenótipo clínico de hipoperfusão.
Na década de 1960, Weil e Shubin propuseram uma classificação extremamente simples, mas revolucionária, dividindo o choque em quatro categorias:
- Hipovolêmico
- Cardiogênico
- Obstrutivo
- Distributivo
Essa classificação continua sendo utilizada atualmente porque facilita a identificação rápida da fisiopatologia predominante à beira do leito. O autor destaca que todas essas formas compartilham um elemento comum: hipoperfusão tecidual, manifestada por alterações do estado mental, oligúria, hiperlactatemia, aumento da diferença arteriovenosa de oxigênio e redução do tempo de enchimento capilar, acompanhadas da ativação simpática com taquicardia e vasoconstrição periférica.
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Na década de 1970 surgiu o cateter de artéria pulmonar, marco importante da terapia intensiva. Pela primeira vez foi possível medir continuamente pressões intracardíacas, débito cardíaco e transporte de oxigênio, inaugurando uma fase em que o tratamento buscava normalizar parâmetros fisiológicos. Contudo, o entusiasmo inicial foi seguido por uma importante decepção. Estudos posteriores demonstraram que estratégias voltadas para atingir “níveis de sobrevivência” de oferta de oxigênio não apenas deixavam de melhorar a mortalidade, como podiam aumentá-la.
Após discutir as limitações dos protocolos padronizados, o autor propõe um retorno aos fundamentos da fisiologia cardiovascular. Segundo ele, o erro da medicina intensiva durante muitos anos foi acreditar que restaurar parâmetros macrocirculatórios, como débito cardíaco (DC) e pressão arterial média (PAM), significaria automaticamente restaurar a perfusão dos órgãos. A experiência clínica mostrou que isso nem sempre acontece.
Historicamente, diante de um paciente hipotenso, a conduta era administrar volumes sucessivos de cristaloides e observar se a pressão arterial melhorava. Essa estratégia, embora intuitiva, frequentemente levava à sobrecarga volêmica. Pinsky descreve como estudos realizados no início dos anos 2000 demonstraram que apenas uma parcela dos pacientes críticos realmente aumenta o débito cardíaco após receber fluidos. Esses pacientes são chamados de responsivos a fluidos. Nos demais, novos volumes apenas elevam a pressão venosa, favorecem edema intersticial e podem agravar a disfunção de órgãos. Essa observação transformou profundamente a prática clínica. Em vez de perguntar “o paciente precisa de volume?”, passou-se a perguntar “o paciente responderá ao volume?”.
Durante décadas, o principal objetivo da ressuscitação foi elevar a pressão arterial média (PAM), assumindo que uma pressão mais alta resultaria automaticamente em melhor fluxo sanguíneo para os órgãos. Pinsky demonstra que essa lógica é incompleta, pois o fluxo sanguíneo para um tecido é determinado pela interação entre quatro fatores principais:
- a demanda metabólica do tecido;
- a pressão de entrada (pressão arterial);
- a resistência vascular;
- a pressão existente no leito microvascular e venoso.
Assim, dois pacientes com PAM de 70 mmHg podem apresentar perfusão tecidual completamente diferente, dependendo da fisiologia da microcirculação.
Os órgãos não dependem exclusivamente da pressão arterial para receber sangue. Em condições fisiológicas, pequenos vasos e arteríolas ajustam continuamente seu calibre para manter o fluxo relativamente constante, mesmo quando ocorrem oscilações da pressão arterial. Esse mecanismo recebe o nome de autorregulação. Segundo o autor, sem esse mecanismo seria necessário um débito cardíaco muito maior apenas para sustentar o metabolismo basal.
O autor explica que os pequenos vasos não permanecem abertos indefinidamente. Quando a pressão intravascular cai abaixo de determinado valor, o tônus da musculatura vascular supera a pressão dentro do vaso e ele colaba espontaneamente. Essa pressão mínima necessária para manter o vaso aberto recebe o nome de Pressão Crítica de Fechamento (Pcc). Isso significa que não basta existir pressão arterial. A pressão precisa ser suficientemente elevada para superar essa pressão crítica. Um dos conceitos mais interessantes do artigo é que a perfusão tecidual depende da diferença entre a pressão arterial média e a pressão crítica de fechamento. Isso ajuda a explicar por que elevar a PAM de 65 para 80 mmHg nem sempre melhora a perfusão. Se a Pcc também aumentar, a pressão efetiva disponível para perfundir o tecido poderá permanecer praticamente inalterada.
Outro conceito apresentado pelo autor é de “Vascular Waterfall”: em uma cachoeira, o fluxo de água depende principalmente da diferença de altura antes da queda, e não do nível do rio após a queda. Da mesma forma, na circulação o fluxo não depende apenas da pressão arterial. Ele depende da diferença entre:
- pressão arterial;
- pressão crítica de fechamento.
Esse gradiente recebe o nome de vascular waterfall.
O autor cita estudos mostrando que alguns pacientes submetidos ao aumento da PAM com noradrenalina realmente melhoraram a microcirculação. Entretanto, isso ocorreu apenas naqueles em que houve também aumento adequado da Pcc, restabelecendo um gradiente eficaz de perfusão.
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Pinsky dedica especial atenção ao tempo de enchimento capilar (TEC) como marcador simples de perfusão periférica. O autor ressalta que o TEC pode ser utilizado como um indicador à beira do leito para avaliar se a ressuscitação está efetivamente restaurando o fluxo tecidual. Além disso, cita um ensaio clínico multicêntrico que comparou uma estratégia guiada por perfusão tecidual (utilizando TEC, lactato e temperatura da pele) com a estratégia tradicional baseada nas recomendações da Surviving Sepsis Campaign. A estratégia personalizada, com metas fisiológicas e PAM um pouco mais baixa, mostrou resultados clínicos não inferiores em termos de sobrevida e eventos adversos graves.
Até este ponto, o artigo demonstra que nem todo paciente responde à expansão volêmica. Além disso, o autor também reforça que mesmo quando o débito cardíaco aumenta, isso não significa que a pressão arterial aumentará. Esse fenômeno ocorre porque o sistema arterial também possui propriedades mecânicas próprias. O autor apresenta então o conceito de elastância arterial dinâmica, definida como a relação entre a variação da pressão de pulso e a variação do volume sistólico. Na prática, esse índice estima o quanto um aumento do débito cardíaco será convertido em aumento da pressão arterial.
Segundo Pinsky:
- Eadyn > 1: aumento do débito cardíaco tende a elevar a PAM.
- Eadyn < 1: o aumento do débito cardíaco provavelmente não resultará em aumento significativo da PAM.
Esse conceito é particularmente útil em pacientes com vasoplegia grave, nos quais o sistema arterial perdeu sua capacidade de transformar fluxo em pressão.
Outro ponto importante do artigo é a reinterpretação do papel da noradrenalina. Durante muitos anos, havia receio de iniciar vasopressores precocemente por medo de reduzir a perfusão periférica. Atualmente, o autor mostra que o atraso no início da noradrenalina está associado a maior mortalidade, principalmente porque prolonga o período de hipotensão e favorece a administração excessiva de fluidos. Além disso, a noradrenalina pode restaurar a pressão de perfusão tecidual quando utilizada de forma fisiologicamente adequada, especialmente em pacientes com vasoplegia.
Segundo Pinsky, os protocolos padronizados tiveram enorme importância histórica ao organizar o atendimento inicial ao paciente séptico. Entretanto, à medida que a fisiologia cardiovascular passou a ser mais bem compreendida, tornou-se evidente que pacientes diferentes necessitam de estratégias diferentes. Essa visão é reforçada por estudos recentes citados no artigo, como o ANDROMEDA-SHOCK-2, que utilizaram metas individualizadas de perfusão, baseadas em tempo de enchimento capilar e pressão de pulso, obtendo melhores resultados compostos com níveis de PAM discretamente inferiores aos tradicionalmente adotados.
Na parte final do artigo, Pinsky aborda o potencial da inteligência artificial como ferramenta de apoio à decisão clínica. O autor descreve algoritmos capazes de analisar continuamente grandes volumes de dados fisiológicos, identificando padrões de resposta à ressuscitação e sugerindo o momento ideal para intensificar ou interromper intervenções.
Entretanto, ele deixa claro que essas tecnologias devem ser entendidas como sistemas de suporte. A decisão final continua dependendo do médico à beira do leito, capaz de interpretar o contexto clínico e adaptar a terapêutica às necessidades individuais do paciente.
Autoria

Raissa Moraes
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência e mestrado em Infectologia pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Atua na área de doenças infecciosas e controle de infecções.
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