Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr. Ederlon Rezende conduziu o bate papo com especialista com expert Dr. Daniel De Backer (Alemanha) Saiba os principais tópicos abordados.
Raciocínio Clínico
A pressão venosa central (PVC) deixou de ser interpretada como um marcador direto de volemia para assumir um papel mais integrado no raciocínio hemodinâmico moderno. A abordagem contemporânea, amplamente discutida por Daniel De Backer, reforça que a PVC isolada tem baixa acurácia para predizer responsividade a fluidos, mas mantém utilidade quando inserida em um contexto fisiológico mais amplo.
O raciocínio clínico atual parte do princípio de que a PVC reflete a interação entre retorno venoso e função cardíaca direita, sendo, portanto, um marcador de “pressão de saída” do sistema venoso e não de volume intravascular. Assim, valores absolutos de PVC não devem guiar decisões isoladas, mas sua tendência ao longo do tempo e sua interpretação conjunta com outros parâmetros (lactato, débito urinário, perfusão periférica, ecocardiografia e variações dinâmicas) podem fornecer informações valiosas.
A principal pergunta não é mais “qual o valor da PVC?”, mas sim “o que esse valor representa neste paciente específico?”. Em um paciente com choque séptico, por exemplo, uma PVC elevada pode indicar congestão venosa e risco de sobrecarga hídrica, associando-se a piores desfechos. Já em contextos de hipovolemia, valores baixos podem reforçar a suspeita clínica, mas não confirmam responsividade a fluidos.
Outro ponto central é a relação da PVC com a perfusão de órgãos. A elevação da PVC pode reduzir o gradiente de perfusão venosa, especialmente em órgãos sensíveis como rim e fígado, contribuindo para disfunção orgânica. Dessa forma, a PVC ganha relevância como marcador de congestão e não apenas como indicador de pré-carga.
Além disso, sua análise integrada com a pressão arterial média (PAM) permite estimar o gradiente de perfusão (PAM – PVC), conceito particularmente importante na avaliação da perfusão renal e sistêmica. Essa visão reforça a necessidade de evitar estratégias agressivas de fluidoterapia que elevem excessivamente a PVC sem ganho hemodinâmico real.
Portanto, a PVC ainda é útil, desde que utilizada corretamente: como ferramenta complementar, interpretada em tendência e integrada a uma abordagem multimodal. O erro não está na medida, mas na interpretação simplista.
Limitações e Desafios
- Baixa acurácia para volemia: PVC não reflete volume intravascular real.
- Não prediz responsividade a fluidos: valores isolados não guiam reposição com segurança.
- Alta variabilidade: influenciada por ventilação mecânica, PEEP, pressão intratorácica e posição do paciente.
- Dependência da função cardíaca direita: disfunção do VD distorce a interpretação.
- Interpretação isolada é inadequada: risco de decisões clínicas incorretas se não integrada a outros parâmetros.
- Risco de sobrecarga hídrica: uso inadequado pode levar a fluidoterapia excessiva.
- Baixa sensibilidade para perfusão tecidual: não reflete diretamente débito cardíaco ou perfusão.
- Problemas técnicos: erro de zero, posicionamento do transdutor e calibração.
- Influência da pressão abdominal: hipertensão intra-abdominal altera valores.
- Necessidade de integração multimodal: depende de eco, parâmetros dinâmicos e marcadores clínicos.
O principal desafio não é medir a PVC, mas interpretá-la corretamente dentro de um raciocínio fisiológico integrado.
Mensagens Práticas
- Não use a PVC isoladamente para guiar fluidos — sempre associe a parâmetros dinâmicos e avaliação clínica.
- Avalie tendência da PVC ao longo do tempo, não apenas valores pontuais.
- PVC elevada deve acender alerta para congestão venosa, especialmente em rim e fígado.
- Sempre interprete a PVC junto com a PAM → calcule o gradiente de perfusão (PAM – PVC).
- Em ventilação mecânica (especialmente com PEEP), reavalie criticamente o valor da PVC.
- Considere função do ventrículo direito — disfunção do VD pode elevar PVC sem relação com volemia.
- Evite expansão volêmica baseada em PVC baixa sem testar responsividade a fluidos (PLR, VTI, PPV).
- Utilize a PVC como marcador de “backward failure” (congestão) mais do que de pré-carga.
- Garanta medida adequada: nivelamento correto do transdutor e zero na linha axilar média.
- Integre PVC com lactato, diurese, perfusão periférica e ecocardiografia para decisões seguras.
Mensagem final: PVC útil é PVC contextualizada — nunca isolada.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.