A esporotricose é uma micose causada por fungos do gênero Sporothrix, com alta prevalência no Brasil. Embora as formas cutâneas correspondam a maior parte dos casos, o envolvimento extracutâneo vêm ganhando espaço, especialmente associado à doença disseminada e à espécie Sporothrix brasiliensis, a mais virulenta. A esporotricose oesteoarticular (EO) é uma complicação grave, muitas vezes subdiagnosticada, marcada pelo diagnóstico tardio e risco potencial de incapacidade. Outro ponto de destaque é a falta de diretrizes que diferenciem as formas unifocais de multifocais.

Como foi realizado o estudo sobre esporotricose osteoarticular no Brasil?
Coorte retrospectiva conduzida no Hospital Eduardo de Menezes (HEM-FHEMIG), centro de referência em infectologia em Minas Gerais, avaliando 252 pacientes diagnosticados com esporotricose entre 2014 e 2024. Destes, 20 pacientes com confirmação microbiológica (isolamento de Sporothrix spp. em osso ou líquido sinovial) ou com probabilidade clínica/radiológica de EO foram analisados detalhadamente. As variáveis incluíram dados clínicos, epidemiológicos, moleculares, esquemas terapêuticos e desfechos. Regressão logística uni e multivariada foi utilizada para identificar os fatores associados ao desenvolvimento da forma osteoarticular.
Quais são os fatores de risco?
Dos 252 pacientes da coorte, vinte (7,9%) tiveram EO, dos quais metade desenvolveu osteomielite. A mediana de idade foi 58 anos, com 55% de homens. O contato com gatos foi relatado em 75% dos casos, incluindo formas não traumáticas, demonstrando formas de transmissão por via ambiental ou secreções. Hipertensão (45%), diabetes (40%), etilismo (40%), tabagismo (35%) e HIV (15%) foram as comorbidades mais frequentes.
Leia também: Esporotricose: uma micose negligenciada com impacto mundial
Quais são as principais manifestações da esporotricose osteoarticular?
Lesões cutâneas estavam presentes em 95% e artralgia em 90%, com doença multifocal em metade dos casos. Os sítios mais acometidos foram dedos, punhos e joelhos. O tempo médio de diagnóstico foi alto, com média de 14,2 meses.
Como é feito o diagnóstico da esporotricose osteoarticular?
A esporotricose deve ser suspeitada em áreas endêmicas nos casos de pacientes com queixa articular, artralgia e mialgia persistentes. O cuidado deve ser maior em diabéticos, tendo em vista que essa comorbidade é fator de risco para a forma osteoarticular (quatro vezes maior em relação a indivíduos não-diabéticos).
O diagnóstico por meio de cultura de líquido sinovial e biópsia óssea é de extrema importância nos casos em que não há lesão de pele.
Como é o tratamento da esporotricose osteoarticular?
O esquema antifúngico mais utilizado foi itraconazol associado à anfotericina B, com tempo médio de tratamento de 21 meses. 13 pacientes (65%) necessitaram de cirurgia, com duas amputações.
Acometimento multissistêmico ocorreu em 45%, sequelas em 50% e a mortalidade foi de 15%.
O que muda na prática clínica?
Por fim, o manejo deve ser multidisciplinar: o tratamento é prolongado e agressivo, com altas doses de antifúngicos e necessidade de abordagem cirúrgica, com objetivo de mitigar sequelas irreversíveis secundárias a doença.
Autoria

Camila Rangel
Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.