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Infectologia17 julho 2026

Eficácia e segurança da cefazolina no tratamento de bacteremias por MSSA

Estudo avaliou o uso de cefazolina para o tratamento da bacteremia por Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA)
Por Camila Rangel

A bacteremia por Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA) carrega uma morbimortalidade historicamente elevada, superior a 25%. Por décadas, consensos de especialistas favoreceram o uso de penicilinas antiestafilocócicas (como oxacilina ou flucloxacilina) em detrimento da cefazolina, devido ao receio teórico do “efeito inóculo”: a degradação in vitro da cefazolina por betalactamases em infecções de alta carga bacteriana. No entanto, dados observacionais já sugeriam que a cefazolina poderia apresentar melhor perfil de tolerabilidade e menor mortalidade.

O ensaio clínico internacional SNAP (Staphylococcus aureus Network Adaptive Platform) foi desenhado para responder essa questão.

Saiba mais: Bacteremia na UTI, sinais que Indicam o Desfecho

Eficácia e segurança da cefazolina no tratamento de bacteremias por MSSA

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Metodologia do estudo

Trata-se de um ensaio clínico internacional, pragmático, aberto e randomizado, conduzido sob uma plataforma adaptativa Bayesiana em 91 centros de 8 países. Foram incluídos adultos hospitalizados com bacteremia por MSSA (especificamente cepas resistentes à penicilina, para afastar viés em relação ao efeito inóculo). Os participantes foram randomizados em proporção 1:1 para receber cefazolina (2g IV a cada 8h ou a cada 6h em casos graves/endocardite) ou penicilina antiestafilocócica.

O desfecho primário analisado foi a mortalidade por todas as causas em 90 dias, avaliada por modelo de regressão logística Bayesiana hierárquica. Os desfechos secundários foram incluíram morte por qualquer causa dentro de 14, 28 e 42 dias, falha no tratamento microbiológico, diagnóstico de novos focos infecciosos entre os dias 15 e 90 e infecção por Clostridioides difficile dentro de 90 dias. Também foram analisadas presença de lesão renal e hepática agudas e início de terapia de substituição renal.

Resultados

Entre fevereiro de 2022 e agosto de 2024, 1.341 pacientes foram randomizados (671 no grupo cefazolina e 670 no grupo penicilinas).

  • Mortalidade em 90 dias: Ocorreu em 15,0% (97/645) dos pacientes no grupo cefazolina versus 17,0% (109/642) no grupo das penicilinas (Razão de Chances Ajustada: 0,81; Intervalo de Credibilidade de 95%: 0,59 a 1,12). A probabilidade posterior de não inferioridade da cefazolina foi de 99,2%, e a de superioridade alcançou 89,8%.
  • Segurança Renal: O desenvolvimento de lesão renal aguda (LRA) em 14 dias foi significativamente menor no grupo cefazolina: 13,9% vs. 19,6% (OR ajustada: 0,67; probabilidade de superioridade da cefazolina de 99,7%).
  • Eventos Adversos: A cefazolina associou-se a uma taxa significativamente menor de reações adversas graves relacionadas à droga (1,8% vs. 4,9%) e menor necessidade de descontinuação do tratamento devido a efeitos adversos (1,6% vs. 9,1%).

Mensagem prática para o infectologista

O SNAP Trial fornece a evidência randomizada mais robusta até hoje sobre esse dilema terapêutico: a cefazolina é não inferior às penicilinas antiestafilocócicas para mortalidade em 90 dias na bacteremia por MSSA, com vantagem em segurança renal e em eventos adversos graves.

Para a prática clínica, isso reforça a cefazolina como opção segura de tratamento, com potencial benefício adicional de menor nefrotoxicidade, ponto especialmente relevante em pacientes que já vulneráveis ao desenvolvimento de lesão renal durante o tratamento de bacteremia estafilocócica. Os receios quanto ao efeito inóculo na prática clínica real parecem ser amplamente mitigados por estes resultados robustos.

Leia também: Descalonamento de antibióticos em paciente adulto com sepse de origem comunitária

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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Referências bibliográficas

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