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Infectologia18 junho 2026

Benefícios da profilaxia com fluoroquinolonas em neutropênicos de alto risco

Estudo buscou comparar os resultados clínicos e microbiológicos da profilaxia com fluoroquinolonas em pacientes neutropênicos de alto risco

Considerando o risco de infecções invasivas em pacientes submetidos à quimioterapia que desenvolvem neutropenia e mucosite, o uso de fluoroquinolonas como profilaxia em pacientes de alto risco é uma prática frequente. Contudo, ainda há debate sobre a relação risco-benefício, principalmente em um contexto de disseminação de microrganismos multirresistentes.

A diretriz conjunta de 2018 da American Society of Clinical Oncology e da Infectious Diseases Society of America (ASCO/IDSA) recomenda administração de profilaxia com fluoroquinolona em pacientes considerados de alto risco em quem se espera neutropenia grave e prolongada (contagem de neutrófilos < 100/mm³ por ≥ 7 dias).

Já os Australian Consensus Guidelines de 2011 e o European Society for Medical Oncology (ESMO) Clinical Practice Guidelines de 2016 recomendam contra a profilaxia de rotina com fluoroquinolonas em quaisquer pacientes, independentemente do risco.

Uma meta-análise procurou avaliar o impacto dessa prática em desfechos clínicos e a seleção de resistência em pacientes neutropênicos de alto risco com neoplasia hematológica.

Profilaxia com fluoroquinolonas em pacientes neutropênicos de alto risco: quais os benefícios?

Materiais e métodos

Os autores realizaram uma revisão sistemática com meta-análise de artigos sobre profilaxia com fluoroquinolonas em pacientes neutropênicos por neoplasias hematológicas considerados de alto risco para episódios febris ou em seguimento de transplante de células hematopoiéticas.

Foram analisados artigos publicados entre 2015 e 2025. Meta-análises, cartas ao editor, revisões, resumos de congressos, comentários editoriais, publicações duplicadas e artigos que incluíram pacientes em que a profilaxia não foi feita com fluoroquinolonas foram excluídos. Somente artigos em inglês entraram na análise.

O desfecho primário foi mortalidade em 1, 6 e 12 meses. Os desfechos secundários incluíram as taxas de episódios de neutropenia febril e de bacteremia em 30 dias ou até recuperação da neutropenia e as taxas de colonização ou infecção por bactérias resistentes a fluoroquinolonas durante o seguimento.

Resultados

A análise final incluiu 18 artigos, conduzidos em diferentes regiões geográficas, com predominância de países da Europa (n = 6), América do Norte (n = 5) e Ásia (n =3), seguidos de Oriente Médio (n = 2), América do Sul (n = 1) e norte da África (n = 1). As principais condições hematológicas associadas foram leucemia aguda tratada com altas doses de quimioterapia, transplante de células hematopoiéticas (autólogo ou alogênico) e mieloma múltiplo.

Levofloxacino e ciprofloxacino foram os antimicrobianos utilizados, com a profilaxia geralmente sendo iniciada no início do condicionamento da quimioterapia e continuando até recuperação da neutropenia, episódio febril ou alta hospitalar. A mediana de duração foi de 7 a 37 dias e o seguimento foi de 21 a 365 dias, embora somente 4 estudos tenham tido períodos de seguimento mais prolongados, de 6 a 12 meses.

A meta-análise que avaliou o desfecho primário – de mortalidade geral – incluiu 13 estudos, contando com dados de 12.134 pacientes, sendo 6.993 (57,6%) no grupo recebendo profilaxia e 5141 (42,4%) no grupo controle. A taxa de mortalidade foi semelhante entre os grupos (RR = 1,04; IC 95% = 0,79 – 1,37; p = 0,77).

Em relação à incidência de episódios de neutropenia febril, a administração de profilaxia esteve associada com menor taxa de ocorrência (RR = 0,87; IC 95% = 0,88 – 0,96; p = 0,006). Os resultados foram semelhantes em diferentes subanálises, exceto na que avaliou somente estudos prospectivos, na que avaliou somente pacientes com leucemia aguda, na que avaliou somente pacientes em uso de ciprofloxacino e na que avaliou somente pacientes pediátricos, as quais não mostraram diferença entre os grupos. Contudo, é importante destacar que essas subpopulações foram sub representadas.

A profilaxia também esteve associada a menores taxas de bacteremia quando comparada com o controle que não recebeu profilaxia (RR = 0,59; IC 95% = 0,47 – 0,75; p < 0,001). Já em relação à resistência antimicrobiana, não foi observada diferença na taxa de isolamento de cepas bacterianas resistentes a fluoroquinolonas (RR = 0,87; IC 95% = 0,34 – 2,2; p = 0,77).

Mensagens práticas

  • Profilaxia com fluoroquinolonas em pacientes neutropênicos de alto risco esteve associada a menores taxas de episódios de neutropenia febril e bacteremia, mas não com menor mortalidade.
  • A heterogeneidade entre os estudos, principalmente nas subanálises, e a inclusão somente de trabalhos em língua inglesa são limitações encontradas nesse estudo.

Autoria

Foto de Isabel Cristina Melo Mendes

Isabel Cristina Melo Mendes

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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