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Infectologia25 setembro 2026

Bacteremia por Staphylococcus aureus recebe novo consenso

A bacteremia por Staphylococcus aureus passa a ser avaliada por risco, exames seriados e presença de focos profundos ou metastáticos
Por Camila Rangel

A bacteremia por Staphylococcus aureus (SAB, da sigla em inglês) é uma infecção grave e complexa, frequentemente associada a focos profundos e metastáticos. O consenso publicado em setembro de 2026 pela IDSA/ESCMID (Sociedade Americana de Doenças Infecciosas/Sociedade Europeia de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas) destaca a mortalidade por todas as causas em 30 dias entre 15% e 30% e ressalta que a disseminação pode permanecer oculta na apresentação inicial. Nesse cenário, classificar a doença apenas como complicada ou não complicada pode simplificar uma condição heterogênea e dinâmica.

Com base na revisão das evidências disponíveis em adultos e crianças, a Parte 1 do consenso formulou sete tópicos sobre estratificação de risco, hemoculturas seriadas, ecocardiografia, imagem de corpo inteiro e duração do tratamento. O manejo definitivo de MRSA (Staphylococcus aureus resistente à Meticilina) e MSSA (Staphylococcus aureus sensível à Meticilina) será abordado em publicações futuras.

A bacteremia por Staphylococcus aureus passa a ser avaliada por risco, exames seriados e presença de focos profundos ou metastáticos

A estratificação de risco organiza o manejo

Nos adultos, recomenda-se substituir a antiga classificação binária (complicada/não compliacada) por uma avaliação de baixo risco ou risco aumentado, reavaliada durante a evolução. Os três principais fatores associados de forma consistente a focos profundos, disseminação metastática ou recidiva são: doença comunitária, hemocultura positiva pelo menos 48 horas após a primeira cultura positiva e presença de dispositivo intracardíaco.

Também deve-se considerar condições valvares predisponentes, uso de drogas injetáveis, enxerto endovascular, episódio de SAB nos 90 dias anteriores, manifestações de foco profundo, eventos embólicos, focos não contíguos e origem desconhecida. Anamnese, exame físico seriado e avaliação contínua são centrais, tendo em vista que o risco pode mudar durante o tratamento. Em crianças, os dados não permitem definir um grupo confiável de baixo risco, e o painel sugere avaliar todas quanto à presença de foco profundo. O próprio modelo de estratificação ainda necessita de validação.

Saiba mais: Bacteremia por Staphylococcus aureus — quais as controvérsias no manejo atual?

Quando repetir hemoculturas de acompanhamento?

Em adultos, recomenda-se coletar pelo menos duas amostras de hemoculturas de acompanhamento 48 horas após a primeira hemocultura positiva e repetir a coleta a cada 24 a 48 horas até a negativação. Persistência da positividade a partir de 48 horas deve ampliar a investigação de focos profundos ou metastáticos e levar à reavaliação do controle de foco.

A primeira cultura negativa, desde que não seja seguida por uma nova positiva, define o clareamento microbiológico e serve como referência para o cálculo da duração do tratamento. Quando o controle da fonte ocorre posteriormente, a data da remoção do foco pode ser adotada como início da terapia. Em pediatria, aplica-se estratégia semelhante, com ajuste do volume de sangue e número de frascos à idade e ao peso.

Ecocardiografia transtorácica em todos os adultos

O painel sugere ecocardiografia transtorácica (ETT) de rotina em todos os adultos com SAB, pois não conseguiu estabelecer critérios consistentes para uma população com risco suficientemente baixo de endocardite. Em crianças, a ETT é indicada rotineiramente na presença de cardiopatia estrutural, bacteremia prolongada ou manifestações sugestivas de endocardite e pode ser omitida quando esses fatores estão ausentes e a suspeita clínica é baixa.

Com ETT negativa, a ecocardiografia transesofágica (ETE) é sugerida em adultos com dispositivo intracardíaco, condição valvar predisponente, hemoculturas persistentes, eventos embólicos ou mais de um foco infeccioso não contíguo. Doença comunitária e uso de drogas injetáveis também justificam consideração individual da ETE. Quando a ETT negativa é de boa qualidade e não existem características de risco aumentado para endocardite infecciosa, a ETE pode ser desnecessária. Em crianças, deve ser reservada principalmente para suspeita clínica elevada com ETT negativa ou inconclusiva.

Em adultos de risco aumentado e sem origem definida após avaliação inicial adequada, o painel sugere imagem de corpo inteiro, incluindo PET/CT com [18F]FDG, ou uma combinação de métodos que investige os locais mais prováveis de infecção. A evidência disponível para PET/CT deriva de estudos observacionais; permanecem lacunas sobre seu impacto em mortalidade e recidiva quando comparado a exames orientados por sintomas ou estratégias multimodais. Um ponto importante sobre esse exame é o custo elevado e a disponibilidade de serviços para realizá-lo.

Saiba mais: Eco transesofágico para bacteremia por Staphylococcus aureus é indispensável?

Tempo de tratamento

Adultos de baixo risco sem focos profundos ou metastáticos devem receber 14 dias de antibioticoterapia. O mesmo período é sugerido para pacientes de risco aumentado cuja investigação individualizada não identifique esses focos. Cursos mais longos devem ser considerados na bacteremia prolongada, sobretudo quando a avaliação diagnóstica foi incompleta ou limitada. Para crianças sem foco profundo ou metastático após investigação adequada, o painel também sugere 14 dias.

Na prática da enfermaria ou do plantão, a bacteremia por Staphylococcus aureus passa a exigir uma sequência explícita: documentar o clareamento das hemoculturas de controle, procurar endocardite e outros focos conforme o risco, controlar a fonte e reavaliar o paciente ao longo da evolução. O impacto clínico central é deslocar a decisão terapêutica da antiga etiqueta de doença complicada ou não complicada para uma classificação baseada em risco e na demonstração ou exclusão adequada de focos profundos ou metastáticos. A disponibilidade dos exames e as circunstâncias individuais permanecem determinantes para sua aplicação.

Saiba mais: Endocardite infecciosa — principais atualizações AHA 2026

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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