
Por que as consultas preventivas representam uma oportunidade de rastreio?
O transtorno por uso de álcool (TUA) tem se tornado uma preocupação crescente de saúde pública, especialmente entre as mulheres. Historicamente, os homens apresentavam taxas de consumo mais elevadas; porém, dados recentes indicam crescimento desproporcional do consumo de álcool entre mulheres. Essa tendência é alarmante, uma vez que o álcool apresenta maior hepatotoxicidade no organismo feminino devido a diferenças farmacocinéticas e hormonais, resultando em maior mortalidade mesmo com níveis de consumo similares aos dos homens.
A identificação precoce e a intervenção breve são pilares fundamentais para evitar que o uso nocivo evolua para a doença hepática associada ao álcool (DHA), que já é a principal causa de indicação para transplante de fígado nos Estados Unidos. Para muitas mulheres saudáveis e sem condições crônicas, as consultas de saúde reprodutiva — como as de rastreio do câncer do colo do útero — são, por vezes, o único ponto de contato regular com o sistema de saúde.
O estudo, publicado no Journal of Addiction Medicine em 2026, teve por objetivo determinar a prevalência de TUA e DHA em uma coorte nacional de mulheres submetidas ao rastreio do câncer cervical e quantificar a proporção de pacientes cujas oportunidades de diagnóstico foram perdidas durante essas visitas.
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Como o estudo avaliou TUA e doença hepática associada ao álcool
Trata-se de um estudo observacional retrospectivo fundamentado no banco de dados MarketScan, com cobertura privada e Medicare, abrangendo o período entre julho de 2013 e dezembro de 2021. Foram incluídas mulheres adultas de 21 a 65 anos que realizaram exames de citopatologia (Papanicolau) ou testes de HPV.
Para garantir a confiabilidade dos dados, as participantes deveriam ter pelo menos 180 dias de inscrição contínua antes e depois do encontro clínico. Os pesquisadores utilizaram códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID) para identificar diagnósticos de TUA, DHA e complicações médicas relacionadas ao álcool, tanto em ambientes ambulatoriais quanto hospitalares.
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Diagnósticos, hospitalizações e oportunidades perdidas
A coorte analisada incluiu 11.429.720 mulheres, com média de idade de 41,7 anos. Os resultados revelaram que aproximadamente uma em cada 50 mulheres (2%) apresentava diagnóstico de TUA, sendo que cerca de um quarto dessas mulheres necessitou de hospitalização por complicações relacionadas.
Um dado crítico do estudo aponta que 30,7% das mulheres hospitalizadas por TUA haviam consultado anteriormente um profissional de saúde para rastreamento do câncer cervical, sem que o transtorno fosse identificado na ocasião. No caso da DHA, presente em 0,1% da coorte, cerca de metade das pacientes necessitou de hospitalização; entre as hospitalizadas, 24,5% haviam passado previamente por uma consulta de rastreamento cervical na qual o TUA não foi identificado.
Embora o estudo não detalhe o odds ratio para todos os subgrupos, observou-se que pacientes atendidas por médicos de família ou clínicos tiveram taxas de diagnóstico de DHA significativamente superiores (2,4% vs. 1,9%; P < 0,001) em comparação com aquelas atendidas por ginecologistas e obstetras.
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Lacunas no cuidado e limites da análise
A discussão do estudo enfatiza que as visitas para citopatologia representam janelas de oportunidade relevantes, especialmente porque 60,4% desses exames foram realizados por ginecologistas, profissionais que muitas mulheres consideram seus principais profissionais de referência. A principal limitação reside na natureza administrativa dos dados, que pode subestimar a prevalência real devido à subcodificação e à falta de detalhes clínicos sobre a gravidade do uso de álcool. Além disso, a população estudada possuía seguro privado, o que pode não refletir a realidade de populações vulneráveis ou sem seguro, nas quais a prevalência de DHA tende a ser maior.
Mensagem prática para a consulta ginecológica
A mensagem prática do estudo é que a consulta ginecológica não deve ser restrita à saúde reprodutiva. Integrar ferramentas padronizadas de rastreio ao fluxo de atendimento do exame citopatológico é uma estratégia de baixo custo e alto impacto.
Autoria

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.
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