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Ginecologia e Obstetrícia28 julho 2026

Rastreio do uso de álcool em consultas preventivas de saúde da mulher

Estudo avalia oportunidades de identificar transtorno por uso de álcool e doença hepática em consultas de rastreamento cervical

Rastreio do uso de álcool em consultas preventivas de saúde da mulher

Por que as consultas preventivas representam uma oportunidade de rastreio?

O transtorno por uso de álcool (TUA) tem se tornado uma preocupação crescente de saúde pública, especialmente entre as mulheres. Historicamente, os homens apresentavam taxas de consumo mais elevadas; porém, dados recentes indicam crescimento desproporcional do consumo de álcool entre mulheres. Essa tendência é alarmante, uma vez que o álcool apresenta maior hepatotoxicidade no organismo feminino devido a diferenças farmacocinéticas e hormonais, resultando em maior mortalidade mesmo com níveis de consumo similares aos dos homens.

A identificação precoce e a intervenção breve são pilares fundamentais para evitar que o uso nocivo evolua para a doença hepática associada ao álcool (DHA), que já é a principal causa de indicação para transplante de fígado nos Estados Unidos. Para muitas mulheres saudáveis e sem condições crônicas, as consultas de saúde reprodutiva — como as de rastreio do câncer do colo do útero — são, por vezes, o único ponto de contato regular com o sistema de saúde.

O estudo, publicado no Journal of Addiction Medicine em 2026, teve por objetivo determinar a prevalência de TUA e DHA em uma coorte nacional de mulheres submetidas ao rastreio do câncer cervical e quantificar a proporção de pacientes cujas oportunidades de diagnóstico foram perdidas durante essas visitas.

Saiba mais: Transtorno por uso de álcool: um apanhado da farmacoterapia

Como o estudo avaliou TUA e doença hepática associada ao álcool

Trata-se de um estudo observacional retrospectivo fundamentado no banco de dados MarketScan, com cobertura privada e Medicare, abrangendo o período entre julho de 2013 e dezembro de 2021. Foram incluídas mulheres adultas de 21 a 65 anos que realizaram exames de citopatologia (Papanicolau) ou testes de HPV.

Para garantir a confiabilidade dos dados, as participantes deveriam ter pelo menos 180 dias de inscrição contínua antes e depois do encontro clínico. Os pesquisadores utilizaram códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID) para identificar diagnósticos de TUA, DHA e complicações médicas relacionadas ao álcool, tanto em ambientes ambulatoriais quanto hospitalares.

Saiba mais: Congresso Brasileiro PTGI – Novo modelo de rastreamento do câncer cervical

Diagnósticos, hospitalizações e oportunidades perdidas

A coorte analisada incluiu 11.429.720 mulheres, com média de idade de 41,7 anos. Os resultados revelaram que aproximadamente uma em cada 50 mulheres (2%) apresentava diagnóstico de TUA, sendo que cerca de um quarto dessas mulheres necessitou de hospitalização por complicações relacionadas.

Um dado crítico do estudo aponta que 30,7% das mulheres hospitalizadas por TUA haviam consultado anteriormente um profissional de saúde para rastreamento do câncer cervical, sem que o transtorno fosse identificado na ocasião. No caso da DHA, presente em 0,1% da coorte, cerca de metade das pacientes necessitou de hospitalização; entre as hospitalizadas, 24,5% haviam passado previamente por uma consulta de rastreamento cervical na qual o TUA não foi identificado.

Embora o estudo não detalhe o odds ratio para todos os subgrupos, observou-se que pacientes atendidas por médicos de família ou clínicos tiveram taxas de diagnóstico de DHA significativamente superiores (2,4% vs. 1,9%; P < 0,001) em comparação com aquelas atendidas por ginecologistas e obstetras.

Saiba mais: Doença hepática associada ao álcool

Lacunas no cuidado e limites da análise

A discussão do estudo enfatiza que as visitas para citopatologia representam janelas de oportunidade relevantes, especialmente porque 60,4% desses exames foram realizados por ginecologistas, profissionais que muitas mulheres consideram seus principais profissionais de referência. A principal limitação reside na natureza administrativa dos dados, que pode subestimar a prevalência real devido à subcodificação e à falta de detalhes clínicos sobre a gravidade do uso de álcool. Além disso, a população estudada possuía seguro privado, o que pode não refletir a realidade de populações vulneráveis ou sem seguro, nas quais a prevalência de DHA tende a ser maior.

Mensagem prática para a consulta ginecológica

A mensagem prática do estudo é que a consulta ginecológica não deve ser restrita à saúde reprodutiva. Integrar ferramentas padronizadas de rastreio ao fluxo de atendimento do exame citopatológico é uma estratégia de baixo custo e alto impacto.

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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