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Ginecologia e Obstetrícia13 fevereiro 2025

Passo a passo da microscopia vaginal a fresco 

Artigo avaliou a literatura disponível sobre as indicações, desempenho, técnica e classificação da microscopia a fresco vaginal.

O uso do microscópio é essencial na prática do ginecologista para o diagnóstico de diversas condições vaginais. A microscopia a fresco consiste na observação direta do corrimento vaginal diluído em meio salino e permite uma avaliação imediata durante a consulta. É uma técnica de baixo custo que permite uma rápida avaliação do ambiente vaginal. É parte fundamental da avaliação de mulheres com sintomas vulvovaginais, em associação com o exame físico, medida do pH vaginal e, em alguns casos, cultura e pesquisa molecular. Para profissionais treinados é uma boa ferramenta para o diagnóstico de vaginose bacteriana, vaginite aeróbica/inflamatória descamativa além de permitir o diagnóstico de infecções mistas e avaliação do status hormonal. 

Em 2021 foi publicado pela Sociedade Internacional para o Estudo das Doenças Vulvovaginais (ISSVD) um artigo que revisou as informações da literatura sobre recomendações da microscopia a fresco, técnica de realização, preparo e leitura da lâmina e classificação das amostras. 

Alguns pontos principais e práticos para auxiliar no dia a dia dos ginecologistas serão descritos a seguir. 

Características do microscópio 

A avaliação deve ser feita com uma magnificação de 400 (40×10) vezes. O uso do microscópio com contraste de fase é preferível, porém mais caro e menos acessível nos serviços de saúde.  

Quando coletar a amostra 

A mulher deve evitar atividade sexual, uso de duchas ou medicações vaginais nas 48-72 horas anteriores ao exame. 

Local de coleta da amostra 

Em mulheres sintomáticas, preferir o terço inferior vaginal. A coleta de dois sítios (terço inferior vaginal e fundo de saco anterior) pode aumentar a acurácia. O fundo de saco posterior deve ser evitado pela maior presença de muco cervical com pH maior e mais probabilidade de encontrar células inflamatórias.   

Deve-se evitar o toque cervical antes do exame. Nas meninas antes da menarca e em pessoas que não querem realizar o exame especular, uma amostra às cegas da parede posterior vaginal é uma opção. 

O uso do espéculo aumenta a sensibilidade para o diagnóstico da tricomoníase, embora não tenha impacto para o diagnóstico da vaginose bacteriana e candidíase. 

Leia também: Saiba mais sobre a citologia cérvico-vaginal em meio líquido

Técnica de coleta e instrumental 

O corrimento pode ser coletado suavemente, sem desepitelizar a mucosa vaginal, usando uma escova endocervical, espátula de plástico ou um swab (que não seja de algodão para não deixar fibras). A espátula de madeira também deve ser evitada pois pode absorver a água do conteúdo coletado.  

Preparo da amostra 

Uma camada fina é essencial para melhor visualização. Alguns profissionais optam por colocar primeiro uma gota de solução salina na lâmina e depois misturar uma pequena quantidade do corrimento nela. Outros preferem espalhar o conteúdo na lâmina e depois colocar por cima a gota da solução salina. Depois, deve-se cobrir o conteúdo com uma lamínula (deixando cair de um lado para o outro da lâmina para evitar a formação de bolhas). O excesso de solução deve ser retirado com um papel absorvente. 

Outros profissionais preferem preparar outra lâmina com uma gota de KOH 10% para destruir as células epiteliais e permitir melhor identificação de estruturas fúngicas.  

Uso de corantes 

Em preparações a fresco, os corantes (diluídos com a solução salina) podem facilitar a visualização das células. As opções são azul de metileno, cristal violeta e fucsina. No entanto, os corantes podem ser tóxicos e dificultar a identificação tardia de fungos e protozoários. 

Observação imediata x tardia 

A observação tardia impede a visualização da mobilidade de micro-organismos como o Trichomonas vaginalis. Assim, a observação imediata (em até 10 minutos) é preferida. 

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Performance clínica da microscopia a fresco 

A sensibilidade para tricomoníase variou entre 25% e 82% entre os estudos e a especificidade entre 98% e 100%. Para a candidíase, a sensibilidade ficou em torno de 43,9% a 78% e a especificidade entre 75% e 88,9%. Lembrar que a identificação do fungo só tem relevância quando há uma evidência clínica da candidíase vulvovaginal. E para a vaginose bacteriana, a sensibilidade ficou entre 82% e 100% e a especificidade entre 93% e 97% avaliando-se todos os critérios (grau lactobacilar, quantidade de leucócitos, flora dominante, células epiteliais predominantes) e não somente a presença de células alvo (clue cells). 

Mensagem prática: microscopia vaginal 

A microscopia vaginal a fresco deve ser encorajada e é uma técnica barata que permite um diagnóstico rápido e adequado. Maior atenção deve ser dada para esta ferramenta na formação dos médicos residentes e especialistas que lidam com a saúde das mulheres.

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Referências bibliográficas

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