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Ginecologia e Obstetrícia7 agosto 2026

Menopausa em sobreviventes de câncer ginecológico: manejo e segurança

Posicionamento da FIGO discute menopausa após câncer ginecológico, THM, cuidados não hormonais e aspectos de segurança oncológica.

O sucesso crescente no diagnóstico precoce e nos tratamentos oncológicos resultou em uma população cada vez maior de sobreviventes de câncer ginecológico. No entanto, essa longevidade traz novos desafios, especialmente a menopausa induzida pelo tratamento, que frequentemente ocorre de forma abrupta e em idades mais jovens do que a menopausa natural. 

Os sintomas vasomotores, a síndrome geniturinária da menopausa (SGM) e o risco acelerado de osteoporose impactam severamente a qualidade de vida dessas mulheres. Historicamente, o receio da recorrência tumoral levou a um subtratamento sistemático, privando muitas pacientes de terapias eficazes por preocupações de segurança nem sempre fundamentadas em evidências robustas. 

O artigo de posicionamento da FIGO, coordenado por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido e publicado em 2026 na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, teve por objetivo sintetizar as evidências atuais e fornecer orientações práticas sobre a terapia hormonal da menopausa (THM) e os cuidados não hormonais em sobreviventes de tumores de vulva, vagina, colo do útero, endométrio e ovário. 

Saiba mais: Terapia hormonal na menopausa em situações especiais: novas recomendações 

Este artigo caracterizou-se como uma revisão narrativa e documento de posicionamento clínico elaborado pelo Comitê de Mulheres na Menopausa da FIGO. A metodologia baseou-se em uma busca abrangente em bases de dados como MEDLINE, Embase e Cochrane Library, incluindo estudos publicados até março de 2026. 

O processo de seleção priorizou ensaios clínicos randomizados (ECRs), revisões sistemáticas e metanálises. As evidências foram classificadas segundo o sistema do Oxford Centre for Evidence-Based Medicine (OCEBM), variando do nível 1 (revisões sistemáticas de ECRs) ao nível 5 (opinião de especialistas). 

As recomendações finais foram consolidadas por meio de discussões interativas entre especialistas globais, visando à aplicabilidade tanto em países de alta renda quanto em países de baixa e média renda. Foram avaliados critérios de inclusão com base na histologia tumoral, no estadiamento e na sensibilidade hormonal. 

Saiba mais: Recomendações para osteoporose pós-menopausa 

Segurança da terapia hormonal conforme o perfil tumoral 

Os resultados indicam que a THM sistêmica é aceitável para sobreviventes de cânceres não dependentes de hormônios, como carcinomas de células escamosas de vulva, vagina e colo do útero. No câncer de endométrio em estágio inicial (I-II) e de baixo grau, um ECR fundamental demonstrou que a recorrência foi de 2,3% no grupo com estrogênio, em comparação com 1,9% no grupo placebo, sem diferença estatística significativa. 

Para portadoras de síndrome de Lynch, metanálises sugerem que a terapia apenas com estrogênio pode até melhorar desfechos, apresentando um risco relativo (RR) de 0,53 (IC 95%, 0,30–0,96) para recorrência. Contudo, a THM permanece contraindicada em tumores altamente sensíveis, como o carcinoma seroso de ovário de baixo grau e o sarcoma estromal endometrial. 

Lacunas no cenário oncológico contemporâneo 

A discussão destaca a lacuna de dados sobre a interação da THM com terapias modernas, como inibidores de PARP (poli-ADP-ribose polimerase) e imunoterapias, embora não existam contraindicações farmacocinéticas claras até o momento. Em países de baixa e média renda, as barreiras econômicas e a falta de confiança dos prescritores ainda limitam o acesso ao cuidado adequado. 

Uma limitação importante da literatura é a interrupção precoce de ensaios clínicos, o que reduz o poder estatístico para detectar pequenas diferenças no risco de recorrência em subtipos tumorais raros. Além disso, a atrofia vulvovaginal pode se tornar irreversível se o tratamento local não for iniciado precocemente, na chamada “janela de oportunidade”. 

Saiba mais: Manejo da Síndrome Geniturinária da Menopausa (GSM) – Novo Guideline 

Mensagem prática para o cuidado após o tratamento oncológico 

O cuidado à sobrevivente deve ser multidisciplinar e individualizado. Na prática, a THM transdérmica deve ser a primeira escolha devido ao menor risco tromboembólico, reservando-se as opções não hormonais, como o fezolinetanto ou ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), para tumores hormônio-dependentes. O ginecologista deve utilizar o checklist de quatro etapas proposto pela FIGO para garantir que a qualidade de vida seja priorizada sem comprometer a segurança oncológica estabelecida. 

Câncer ginecológico

Protocolo de Cuidados Menopausais em Sobreviventes de Câncer Ginecológico

Check List em 4 etapas

O guia organiza o cuidado em quatro fases essenciais, iniciando com o aconselhamento pré-tratamento sobre riscos de infertilidade e saúde óssea. Durante a sobrevivência precoce, o foco recai sobre a avaliação da elegibilidade para a terapia de reposição hormonal e o rastreamento de disfunções sexuais. O acompanhamento de longo prazo monitora a segurança oncológica e a saúde cardiovascular, garantindo que as intervenções sejam ajustadas conforme necessário. Por fim, o material enfatiza a importância de uma comunicação centrada na paciente e a adaptação dos recursos médicos à realidade local de cada sistema de saúde.

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Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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