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Ginecologia e Obstetrícia31 agosto 2026

Ibuprofeno antes da inserção do DIU pode reduzir a dor do procedimento? 

Ensaio randomizado avalia três doses de ibuprofeno antes da inserção do DIU e discute a relevância clínica da redução da dor. 
Por Sérgio Okano

O dispositivo intrauterino (DIU) apresenta alta eficácia e comodidade por não depender da paciente para garantir seu funcionamento. Apesar disso, é frequente o receio de potenciais usuárias de sentir dor moderada a intensa durante o procedimento de inserção. 

Saiba mais: AINEs na inserção do DIU: efeito analgésico é clinicamente relevante? 

Com o objetivo de investigar intervenções capazes de reduzir esse desconforto, foi publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology um ensaio clínico randomizado que avaliou se o uso de ibuprofeno em doses múltiplas nas 24 horas que antecedem a inserção do DIU seria capaz de reduzir a percepção de dor durante o procedimento. 

Os pesquisadores avaliaram se a administração de três doses de 800 mg de ibuprofeno ao longo de aproximadamente 24 horas anteriores à inserção do DIU poderia reduzir a dor durante o procedimento quando comparada ao placebo. Estudos anteriores não demonstraram redução significativa da dor durante a inserção do DIU quando o medicamento foi administrado em dose única antes do procedimento. 

Como o estudo MIPI avaliou o ibuprofeno antes da inserção do DIU? 

O MIPI (Multidose Ibuprofen Prior to Intrauterine Device Insertion) foi um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo e triplo-cego. Foram elegíveis participantes adultas que procuravam inserção de DIU. Foram excluídas aquelas com contraindicações ao método ou ao uso de AINEs, além de pacientes em anticoagulação ou com insuficiência cardíaca. 

As participantes foram randomizadas para receber três doses de 800 mg de ibuprofeno ao longo das 24 horas anteriores ao procedimento ou placebo. Nenhuma analgesia adicional foi utilizada durante a inserção. 

A dor foi avaliada pela Numeric Pain Rating Scale (NPRS), variando de 0 a 10, imediatamente após a introdução do espéculo, a colocação do tenáculo e a inserção propriamente dita do DIU. As participantes também foram avaliadas 24 horas depois quanto à intensidade da dor e à necessidade de analgesia adicional. 

O desfecho primário foi a intensidade da dor durante a inserção do DIU. Os autores consideraram uma redução de pelo menos 30% — aproximadamente 2 pontos na NPRS — uma diferença clinicamente relevante. 

Quais foram os principais achados sobre a dor na inserção do DIU? 

Oitenta e três participantes foram randomizadas, mas apenas 67 foram submetidas à tentativa de inserção ou à inserção do DIU, sendo 34 no grupo placebo e 33 no grupo ibuprofeno. 

A dor moderada a intensa durante o procedimento foi referida por mais de 80% das participantes. Em relação ao uso do ibuprofeno, houve redução no escore de dor, com 5 pontos no grupo intervenção versus 7 pontos no grupo controle. Porém, o benefício observado ficou concentrado na inserção do dispositivo propriamente dito, e não nas demais etapas — passagem do espéculo, colocação da pinça Pozzi ou avaliação 24 horas após o procedimento. 

Cerca de metade das participantes utilizou algum método adicional para controle da dor após o procedimento, principalmente AINEs, o que limita a interpretação dos resultados observados. 

Qual é a relevância clínica da redução observada? 

Estudos anteriores haviam demonstrado pouca ou nenhuma eficácia do medicamento. Entretanto, nesses trabalhos, o ibuprofeno geralmente foi administrado em dose única, uma a duas horas antes da inserção. O MIPI optou por outra intervenção, baseada na farmacocinética do medicamento. 

O que o estudo traz de positivo é a possibilidade de algum benefício do uso prolongado do ibuprofeno nas 24 horas antes da inserção do DIU sobre a percepção de dor durante a colocação do dispositivo, sem impacto sobre as demais etapas. 

Entretanto, é preciso ressaltar que a percepção de melhora deve ser interpretada com cautela, pois os próprios autores consideraram um corte de 30% na escala, aproximado nos resultados como diminuição de 2 pontos. No entanto, a equivalência de 30% corresponderia a uma diferença entre as medianas superior a 2,1. 

Por que isso é importante? A aproximação desse resultado pode gerar interpretações equivocadas, uma vez que a intervenção pode não ter gerado uma melhora significativa. Modelos matemáticos, como regressão de efeitos mistos e estimativas do tamanho de efeito, seriam mais precisos do que informar simplesmente a significância estatística. 

O que os resultados podem representar para a prática? 

Talvez o impacto na prática clínica seja pequeno, uma vez que o uso de anestesia está bem documentado por De Nadai et al. (2020), estudo no qual o bloqueio intracervical ocasionou um efeito clinicamente relevante sobre a ocorrência de dor intensa: apenas 26,5% das participantes relataram dor grave, em comparação com 59,4% no grupo sham e 50,5% no grupo sem intervenção (P < 0,0001). 

Entretanto, o estudo também discute uma possível estratégia que precisa ser replicada para locais onde há indisponibilidade de recursos, como anestésicos. 

Saiba mais: Eficácia e segurança de anestésicos tópicos na inserção de DIU 

Mensagem prática 

O estudo sugere possível redução da dor durante a inserção propriamente dita do DIU com o uso de doses múltiplas de ibuprofeno nas 24 horas anteriores ao procedimento. Entretanto, a relevância clínica da diferença observada deve ser interpretada com cautela, e os resultados precisam ser replicados. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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