A inserção do dispositivo intrauterino (DIU) é um dos métodos contraceptivos reversíveis de longa duração (LARC) mais eficazes disponíveis atualmente. No entanto, o medo da dor durante o procedimento continua sendo uma barreira significativa para a sua adesão por muitas mulheres.
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Na prática clínica, é comum observar que experiências negativas anteriores ou relatos de dor intensa desencorajam o uso futuro de métodos eficazes, impactando diretamente a saúde pública. Embora os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) sejam amplamente prescritos por suas propriedades analgésicas, as evidências sobre sua real eficácia nesse cenário específico ainda são inconsistentes.
O estudo publicado em 2026 na revista Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology teve por objetivo sintetizar as evidências atuais sobre a eficácia dos AINEs no alívio da dor durante a inserção ambulatorial do DIU.
Como a revisão avaliou o uso de AINEs antes do procedimento?
Esta revisão sistemática com meta-análise seguiu o protocolo PRISMA e foi registrada no PROSPERO. Os pesquisadores realizaram buscas em bases de dados como MEDLINE, Embase e Cochrane Central, selecionando ensaios clínicos randomizados (ECR) e estudos não randomizados com controles apropriados que avaliaram o uso de AINEs pré-procedimento em mulheres submetidas à inserção de DIU.
A metodologia incluiu a análise de critérios como tipo de medicamento, dose, via de administração e paridade das pacientes. Os desfechos primários focaram na intensidade da dor medida por escalas visuais analógicas ou numéricas, além da avaliação da necessidade de analgesia adicional e da ocorrência de eventos adversos.
O efeito analgésico dos AINEs foi estatisticamente significativo
A revisão incluiu 22 estudos publicados entre 2006 e 2024, totalizando 3.358 participantes. A meta-análise de 14 estudos comparando AINEs com placebo revelou uma redução estatisticamente significativa nos escores de dor, com diferença média de 0,77 cm em uma escala de 10 cm (IC 95%: -1,29 a -0,25; p = 0,004).
Quanto à segurança, os efeitos adversos foram semelhantes entre os grupos. A análise de eventos adversos graves mostrou odds ratio (OR) de 0,41 (IC 95%: 0,11 a 1,51), indicando que o uso de AINEs não aumentou significativamente o risco de complicações em comparação ao placebo. O ibuprofeno foi o medicamento mais estudado, seguido pelo diclofenaco e pelo naproxeno.
Benefício modesto e baixa certeza da evidência
Apesar da significância estatística, a redução da dor de apenas 0,77 cm é considerada modesta, uma vez que mudanças clinicamente importantes costumam ser superiores a 1,7 cm. Observou-se alta heterogeneidade nos estudos pelo índice I², que varia de 0% a 100% (I² = 88%), o que limita a certeza da evidência, classificada como baixa pelo sistema GRADE.
Fatores como a paridade e o tipo de DIU (cobre vs. hormonal) podem influenciar a percepção da dor, mas as subanálises não demonstraram diferenças significativas entre os tipos de AINEs ou doses utilizadas. Isso sugere que o benefício, embora existente, é limitado quando os AINEs são utilizados como intervenção isolada.
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Mensagem prática para o consultório ginecológico
A mensagem prática que este estudo reforça é que, embora os AINEs sejam seguros e de baixo custo, eles não devem ser a única estratégia para o manejo da dor na inserção do DIU. Do ponto de vista técnico, o acolhimento, o ambiente tranquilo e, em casos selecionados, a associação com anestesia local podem oferecer um conforto superior à paciente.
Os AINEs continuam sendo uma opção razoável de primeira linha, mas o profissional deve alinhar as expectativas da paciente, explicando que o medicamento promove um alívio parcial e não a ausência total de desconforto.
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Autoria

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.
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