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Ginecologia e Obstetrícia3 agosto 2026

Função sexual após histerectomia: o que mostra a revisão sistemática

Revisão sistemática avalia função sexual após histerectomia, diferenças entre vias cirúrgicas e preservação do colo uterino.
Por Sérgio Okano

A histerectomia é um dos procedimentos ginecológicos mais realizados no mundo. Apesar de sua ampla utilização, o impacto dessa cirurgia sobre a qualidade de vida sexual das mulheres ainda não está completamente claro. A qualidade de vida é um conceito multidimensional que engloba percepções subjetivas sobre o funcionamento físico, psicológico e social de uma pessoa, incluindo,  consequentemente, a função sexual. 

Ela pode ser classificada conforme a extensão de ressecção uterina e pela via cirúrgica, podendo afetar diferentes desfechos sexuais por sua influência sobre a anatomia pélvica, a integridade neural e a recuperação após a cirurgia. 

Com o objetivo de avaliar esses desfechos, foi conduzida uma revisão sistemática, com análises específicas para cada questionário e estratificação pela via cirúrgica, a fim de proporcionar uma compreensão mais detalhada do impacto da histerectomia sobre a função sexual, além de avaliar se a preservação do colo do útero estaria associada a melhores desfechos sexuais. 

Saiba mais: Função sexual após histerectomia 

histerectomia

Como a revisão sistemática foi conduzida? 

Metodologicamente, trata-se de uma revisão sistemática com metanálise conduzida segundo o PRISMA e as recomendações do Cochrane Handbook, com protocolo previamente registrado no PROSPERO. A seleção dos estudos e a avaliação do risco de viés foram realizadas por revisores independentes. Ensaios randomizados foram avaliados pelo RoB 2, e estudos não randomizados, pelo ROBINS-I. 

Os autores pesquisaram cinco bases de dados até fevereiro de 2026 e incluíram estudos que avaliaram a função sexual antes  e depois da histerectomia por diferentes vias cirúrgicas. A síntese quantitativa foi restrita a estudos que utilizaram instrumentos validados, sobretudo o FSFI e ASEX, e excluiu casos com salpingo-ooforectomia bilateral concomitante e histerectomia radical. 

Na metanálise, os autores utilizaram modelos de efeitos aleatórios e metarregressão para considerar a heterogeneidade entre os estudos e os diferentes momentos de avaliação pós-operatória. Também aplicaram métodos robustos para lidar  com medidas repetidas dentro do mesmo estudo e avaliaram a certeza da evidência pelo GRADE. 

O que os resultados indicam sobre a função sexual? 

A principal conclusão foi que a histerectomia apresentou efeito globalmente neutro sobre a função sexual. Em média, não houve melhora nem piora clinicamente relevante, nem diferença significativa entre vias cirúrgicas ou benefício mensurável da preservação do colo uterino. Os escores médios do FSFI já eram baixos antes da cirurgia e permaneceram abaixo do ponto de corte durante o seguimento. 

Apesar de a histerectomia laparoscópica total, sem tempo de seguimento claramente definido, ter apresentado uma mudança positiva na pontuação do FSFI em relação ao pré-operatório, ela não foi suficiente para modificar a classificação de risco do FSFI, o que limita a interpretação isolada desse dado. 

Como interpretar o FSFI no contexto da histerectomia? 

Essa revisão traz uma mensagem objetiva: a histerectomia, com preservação ovariana, não deve ser prometida como tratamento para disfunção sexual. Apesar de a cirurgia envolver melhora do padrão de sangramento, da dor, dos sintomas pélvicos e do medo de gravidez, a retirada do útero não resultou em melhora da função sexual global. A melhora dos sintomas ginecológicos pode beneficiar algumas mulheres, mas a média populacional permaneceu abaixo do ponto de corte do FSFI, o que não demonstra uma mudança clínica importante. 

O FSFI é o instrumento mais utilizado e avalia a função sexual em seis domínios. Com 19 itens, um escore inferior a 26,55 é utilizado como ponto de corte para maior probabilidade de disfunção sexual. Embora o instrumento possa ser tratado como uma variável contínua, utilizando-se o escore total ou os escores separados por domínios da resposta sexual, abordagem adotada na maioria dos estudos, ele também classifica as respondentes em maior ou menor probabilidade de disfunção sexual, como variável categórica. Dessa forma, diferenças estatísticas no escore total ou em seus domínios nem sempre correspondem a mudanças clinicamente relevantes. 

Saiba mais: Cirurgia ginecológica e função sexual: o que mostra a metanálise 

Preservar o colo uterino melhora os desfechos sexuais? 

Outro ponto importante é que os autores concluem que preservar o colo apenas com a expectativa de melhorar a função sexual não é sustentado pela evidência disponível. Tal decisão deve ser baseada em decisão compartilhada. Afinal, a manutenção dessa estrutura pode ocasionar sangramento do coto cervical, necessidade de continuar o rastreamento do câncer do colo, possibilidade de doença cervical futura e eventual necessidade de nova intervenção. 

Limitações da evidência e implicações para a prática 

Apesar dessa estrutura metodológica relativamente rigorosa, a interpretação dos resultados é limitada pelo predomínio de estudos observacionais, pela heterogeneidade das populações, das indicações cirúrgicas, dos instrumentos utilizados e dos tempos de seguimento. Soma-se a isso a dependência do escore total do FSFI, que pode mascarar alterações específicas em domínios como desejo, dor, orgasmo ou satisfação. 

Assim, embora esta revisão represente uma das sínteses mais abrangentes sobre o tema, seus resultados devem ser interpretados com cautela. A principal mensagem para a prática clínica é que a escolha da via cirúrgica ou da preservação do colo uterino não deve ser fundamentada na expectativa de melhora da função sexual. A abordagem da sexualidade deve permanecer individualizada, considerando os sintomas pré-operatórios, os fatores hormonais, psicológicos e relacionais, além das expectativas da paciente, reforçando a importância do aconselhamento pré-operatório e da decisão compartilhada. 

Saiba mais: Revisão: Disfunção sexual feminina 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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