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Ginecologia e Obstetrícia27 agosto 2026

Falha recorrente de implantação: o que muda no documento da ASRM 

Entenda os critérios propostos pela ASRM para definir e investigar a falha recorrente de implantação e quais intervenções não são indicadas de rotina
Por Sérgio Okano

A implantação corresponde à adesão e subsequente penetração do blastocisto no endométrio. Historicamente, os critérios utilizados para definir a falha recorrente de implantação (RIF) baseavam-se principalmente no número de ciclos ou transferências embrionárias sem sucesso. Mais recentemente, passaram a incorporar características da paciente e a ploidia embrionária. Outros critérios utilizam probabilidades previstas de sucesso, calculadas a partir de variáveis como número de embriões transferidos, idade da paciente e condição de euploidia. 

American Society for Reproductive Medicine (ASRM) considera a aneuploidia relacionada à idade a principal causa de falha de implantação. Diante da heterogeneidade conceitual e da incerteza sobre sua prevalência, o documento de 2026 da ASRM propõe uma definição para RIF e apresenta uma abordagem baseada nas evidências disponíveis para sua investigação e manejo. Nos aspectos em que a literatura permanece insuficiente, as orientações foram complementadas por consenso de especialistas. 

O que muda na definição de falha recorrente de implantação? 

Segundo a ASRM, RIF deve ser definida como a falha de implantação após a transferência do número estimado de blastocistos de boa qualidade necessário para atingir uma probabilidade cumulativa de 95% de obtenção de teste de gravidez positivo, incorporando a probabilidade esperada de implantação. 

Com base na literatura disponível, a RIF pode ser caracterizada após aproximadamente três a seis transferências malsucedidas de embriões testados e euploides. Quando os embriões não foram submetidos a teste de aneuploidia, o número necessário de transferências é variável e aumenta de acordo com a idade materna, refletindo o aumento progressivo da prevalência de aneuploidias. 

Como deve ser conduzida a investigação? 

A primeira etapa diante de uma suspeita de RIF deve ser a revisão detalhada da história médica e reprodutiva, dos exames de imagem e de todos os aspectos dos ciclos prévios das técnicas de reprodução assistida (TRA), procurando fatores potencialmente corrigíveis. 

O cariótipo do casal pode ser considerado para investigação de rearranjos cromossômicos estruturais. Caso uma alteração parental seja identificada, recomenda-se aconselhamento genético, podendo ser oferecido PGT-SR. A ASRM enfatiza que não existem evidências de que o PGT-A aumente a taxa de nascidos vivos especificamente em pacientes com RIF. Também não há evidência suficiente para recomendar rotineiramente testes de fragmentação do DNA espermático na investigação da RIF. 

Saiba mais: Disbiose seminal e intestinal: associação com desfechos reprodutivos 

Cavidade uterina, endometriose e adenomiose 

A reavaliação da cavidade endometrial e das tubas pode ser realizada por meio de histerossonografia, histeroscopia, histerossalpingografia ou ultrassonografia tridimensional. A remoção de pólipos endometriais e miomas submucosos pode ser considerada, embora permaneçam insuficientes as evidências para estabelecer recomendações sobre o tratamento de miomas intramurais que não distorcem a cavidade uterina. 

A endometriose e a adenomiose são frequentes entre pacientes com falha recorrente de implantação (RIF), mas a qualidade das evidências disponíveis ainda é insuficiente para estabelecer uma estratégia diagnóstica e terapêutica uniforme. O tratamento prévio ao ciclo com agonista de GnRH, associado ou não a inibidor da aromatase, pode ser considerado em pacientes com endometriose ou adenomiose conhecida ou suspeita e RIF. A evidência, entretanto, é limitada. A pesquisa endometrial de BCL-6 não é recomendada rotineiramente. 

Saiba mais: Endometriose: conceitos, diagnóstico e tratamento 

Transferência embrionária e endométrio 

Transferências tecnicamente difíceis estão associadas a menores taxas de gravidez e devem ser reconhecidas e corrigidas quando possível. Não existem dados suficientes para recomendar um protocolo específico de suplementação de progesterona para pacientes com RIF. Da mesma maneira, a utilização rotineira de testes de receptividade endometrial, como o ERA, não é recomendada. 

Há evidências observacionais sugerindo associação entre endometrite crônica e resultados reprodutivos desfavoráveis. 

Saiba mais: Endometrite crônica e a falha reprodutiva recorrente 

O que não deve ser incorporado rotineiramente? 

Uma das mensagens clinicamente mais relevantes do documento é a tentativa de limitar a utilização de exames e tratamentos adicionais sem benefício comprovado. A ASRM considera que atualmente não há evidências suficientes para recomendar de rotina: 

  • testes de fragmentação do DNA espermático; 
  • testes de receptividade endometrial, incluindo ERA; 
  • pesquisa de BCL-6; 
  • endometrial scratching; 
  • rastreamento rotineiro de síndrome antifosfolípide na ausência de outra indicação; 
  • anticoagulação empírica com heparina ou heparina de baixo peso molecular; 
  • imunoglobulina intravenosa; 
  • G-CSF; 
  • outras terapias imunomoduladoras de rotina; 
  • infusão intrauterina de plasma rico em plaquetas (PRP). 

Quais são as implicações clínicas da mudança? 

Na prática, o documento sugere uma mudança de paradigma: falhas repetidas de transferência não devem desencadear automaticamente uma bateria extensa de exames e tratamentos empíricos. Antes de classificar uma paciente como portadora de RIF, deve-se considerar o número e a qualidade dos blastocistos transferidos, a condição de euploidia e a idade materna. 

Quando confirmada, a investigação deve ser direcionada principalmente para fatores com plausibilidade clínica e possibilidade concreta de intervenção, como alterações da cavidade uterina, fatores tubários, alterações cromossômicas parentais, endometriose/adenomiose em situações selecionadas, endometrite crônica e dificuldades técnicas durante a transferência. 

Mensagem prática 

A principal mensagem da ASRM para a prática é que RIF não significa necessariamente que exista uma causa oculta a ser encontrada. Quando embrião, anatomia uterina, técnica de transferência e fatores clínicos relevantes foram adequadamente avaliados e nenhuma alteração corrigível é identificada, continuar realizando transferências embrionárias pode ser uma conduta mais baseada em evidências do que ampliar indefinidamente a investigação ou acrescentar terapias sem benefício comprovado. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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Referências bibliográficas

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