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Ginecologia e Obstetrícia7 junho 2026

Endometriose e câncer de ovário: qual é o risco real?

Entenda a associação entre endometriose e câncer de ovário, os subtipos mais relacionados e o impacto na prática clínica.
Por Sérgio Okano

A endometriose é uma doença crônica dependente de estrogênio que afeta aproximadamente 1 a cada 8 mulheres em idade reprodutiva no mundo. Caracteriza-se pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina e está associada à dismenorreia, dor pélvica crônica e infertilidade.   

Evidências epidemiológicas e moleculares sustentam uma associação entre endometriose e aumento do risco de câncer de ovário, especialmente dos subtipos histológicos endometrioide e de células claras. A relação entre endometriose e câncer de ovário é multifatorial, envolvendo inflamação crônica, estresse oxidativo induzido por depósitos de ferro, desequilíbrios hormonais e mutações genéticas.  

Saiba mais: Endometriose: conceitos, diagnóstico e tratamento  

A inflamação crônica eleva a produção de citocinas e promove estresse oxidativo, levando a dano ao DNA e proliferação celular anormal. O microambiente hormonal dominado por estrogênio e deficiente em progesterona favorece ainda mais a sobrevivência celular e a instabilidade genética. 

Mutações compartilhadas, como em ARID1A e PTEN, encontradas tanto em tecidos endometrióticos quanto neoplásicos, sustentam o conceito de continuidade biológica entre as doenças ou, ao menos, de vias de sinalização sobrepostas relacionadas à homeostase celular. A endometriose atípica, caracterizada por atipia celular e/ou proliferação glandular arquitetural, é reconhecida como uma possível lesão precursora de malignidade. 

Saiba mais: Panorama do câncer de ovário no Brasil e no mundo  

Diante dessa questão, foi publicada na Gynecologic Oncology uma revisão sistemática com o objetivo de analisar criticamente a literatura médica atual sobre o risco oncológico associado à endometriose. 

Métodos 

Foi conduzida uma revisão sistemática por um painel de especialistas, conforme as diretrizes PRISMA, buscando estudos que avaliassem a associação entre endometriose e risco de câncer de ovário. As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Scopus e Web of Science, utilizando os termos endometriosisovarian cancer e risk. Foram incluídos estudos publicados em inglês entre janeiro de 2000 e outubro de 2025. Ao todo, foram incluídos 35 estudos. 

Principais achados 

Os estudos epidemiológicos demonstraram aumento modesto, porém estatisticamente significativo, do risco de câncer de ovário em mulheres com endometriose, especialmente para os subtipos endometrioide e de células claras. Já os estudos de coorte mostraram riscos relativos variando entre 1,3 e 4,2, sendo os maiores riscos observados em mulheres com endometriomas ovarianos e endometriose infiltrativa profunda. Alguns trabalhos relataram aumento de até 10 vezes no risco relativo em subgrupos específicos de doença grave. 

Apesar disso, o risco absoluto permaneceu baixo. Os autores destacam que o risco de desenvolver câncer de ovário ao longo da vida aumenta de aproximadamente 1,4% na população geral para cerca de 1,9% em mulheres com endometriose. 

Do ponto de vista molecular, foram identificadas alterações compartilhadas entre endometriose e câncer ovariano, incluindo mutações em ARID1A, PIK3CA e PTEN, além de alterações epigenéticas e ativação de vias inflamatórias e dependentes de estrogênio. Além disso, o microambiente inflamatório crônico da endometriose, associado ao acúmulo de ferro, estresse oxidativo, angiogênese e escape imune, favorece instabilidade genômica e possível transformação maligna. 

Em relação ao rastreamento, não há evidências suficientes para justificar vigilância oncológica rotineira ou cirurgia profilática apenas pelo diagnóstico de endometriose. Embora biomarcadores como CA-125, HE4 e algoritmos como ROMA apresentem potencial auxiliar, seu papel ainda é limitado. 

Comentários e implicações clínicas 

O artigo traz uma discussão importante para a prática clínica ao equilibrar dois conceitos frequentemente mal interpretados: a existência de associação entre endometriose e câncer de ovário e, simultaneamente, o baixo risco absoluto de malignidade na maioria das pacientes. 

Historicamente, muitos estudos enfatizaram o aumento do risco relativo, o que pode gerar ansiedade excessiva tanto em pacientes quanto em profissionais. Entretanto, esta revisão reforça, de maneira muito clara, que a maioria das mulheres portadoras de endometriose jamais desenvolverá câncer de ovário. Essa diferenciação entre risco relativo e risco absoluto é essencial para evitar excesso de exames, cirurgias desnecessárias e medicalização inadequada. 

O artigo também reforça o entendimento de que determinadas alterações moleculares podem representar eventos precoces da carcinogênese, além de chamar atenção para a necessidade de individualização do risco, sugerindo que provavelmente existam subgrupos específicos de pacientes com maior predisposição à transformação maligna, embora ainda faltem modelos clínicos robustos para identificá-los com precisão. 

O que muda na prática clínica? 

O artigo não recomenda rastreamento oncológico sistemático para câncer de ovário nas portadoras de endometriose, nem ooforectomia profilática de rotina. 

Mulheres com endometriomas ovarianos volumosos, doença infiltrativa profunda ou endometriose atípica podem representar subgrupos de maior risco e merecem acompanhamento individualizado. O aconselhamento deve enfatizar que o risco absoluto de câncer permanece baixo, evitando alarmismo desnecessário. 

É importante ressaltar que o uso prolongado de contraceptivos hormonais, tanto para o tratamento das queixas de endometriose quanto para prevenção do câncer de endométrio, também parece exercer efeito protetor sobre o risco de câncer ovariano. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

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