A dissecção aórtica na gestação é rara e de alta letalidade, respondendo por uma em cada seis mortes cardíacas maternas no Reino Unido. Hormônios gestacionais alteram o tecido conjuntivo e, sob sobrecarga hemodinâmica, elevam o estresse sobre a parede aórtica, exigindo suspeição diagnóstica imediata diante de qualquer queixa de dor torácica aguda em gestantes.

Por que identificar a aortopatia antes da gestação é um desafio?
O desafio clínico central é que a maioria das gestantes acometidas desconhece sua aortopatia preexistente. Como a doença pode permanecer silenciosa até o evento agudo, triagens familiares detalhadas e o aconselhamento pré-concepcional são fundamentais para identificar as pacientes vulneráveis.
O guia clínico RCOG Good Practice Paper No. 20, publicado em agosto de 2026 pelo Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG), teve por objetivo padronizar a identificação, o monitoramento e o manejo clínico multidisciplinar de mulheres sob risco de dissecção aórtica.
Como o RCOG estruturou as orientações de boas práticas
Esta diretriz de boas práticas clínicas baseia-se no consenso de especialistas britânicos e na análise sistemática de evidências científicas internacionais. Por não ser um estudo experimental primário, os dados clínicos e desfechos apoiaram-se em grandes registros globais, como ROPAC e MBRRACE-UK, que compilam dados de gestantes acompanhadas em centros terciários.
Os critérios de inclusão basearam-se na escala de risco modificada da Organização Mundial da Saúde (mWHO 2.0). Foram elegíveis portadoras de aortopatias hereditárias — síndromes de Marfan, Loeys-Dietz e Ehlers-Danlos vascular —, síndrome de Turner e válvula aórtica bicúspide, analisando-se desfechos de dissecção e intervenções profiláticas.
Saiba mais: Gestantes com síndrome de Marfan: uma atualização sobre as complicações aórticas
Triagem e medidas de proteção nas pacientes de maior risco
Dados epidemiológicos mostram que entre 75% (registro ROPAC) e 90% (MBRRACE-UK) das gestantes com dissecção desconheciam a aortopatia antes do parto. Para pacientes de alto risco (mWHO III e IV), com diâmetro aórtico maior que 45 mm, recomenda-se parto cesáreo planejado, controle pressórico rígido (pressão arterial sistólica de 120-129 mmHg) e uso protetor de betabloqueadores.
Saiba mais: ESC 2025: Diretriz para o manejo de doenças cardiovasculares na gravidez
Lacunas nas evidências e particularidades anestésicas
A principal limitação da diretriz é a escassez de ensaios clínicos na população obstétrica, limitando as condutas a consensos de especialistas. Na prática anestésica, a ectasia dural, presente em até 90% das pacientes com síndrome de Marfan, eleva o risco de falha em bloqueios peridurais, exigindo triagem por ressonância magnética lombo-sacra.
Mensagem prática: quando pensar em dissecção aórtica
Para a nossa prática assistencial, o artigo consolida o lema “Think Aorta” nas emergências obstétricas. O termo é uma recomendação e um alerta clínico para que os profissionais de saúde sempre considerem a dissecção aórtica no diagnóstico diferencial ao avaliarem uma gestante ou puérpera recente que apresente dor no peito. A instituição precoce de uma equipe de cardiologia materna (Pregnancy Heart Team) é crucial para estabelecer um plano de parto individualizado, unindo máxima segurança técnica à autonomia e à decisão compartilhada da gestante.
Saiba mais: Síndromes aórticas agudas: o que precisamos saber?
Autoria

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais
Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.