A atualização publicada em junho de 2026 reforça a continuidade da assistência à puérpera e ao recém-nascido, com recomendações sobre saúde materna, aleitamento materno e identificação precoce de complicações.
O puerpério é um período de importantes mudanças físicas, emocionais e sociais para a mulher, além de representar uma fase crítica para a saúde do recém-nascido. Grande parte das complicações maternas e neonatais ocorre nas primeiras semanas após o parto, tornando o acompanhamento pós-parto uma etapa fundamental da assistência obstétrica.
Nos últimos anos, diferentes sociedades científicas passaram a enfatizar a necessidade de um seguimento estruturado da puérpera e do recém-nascido, com foco na continuidade do cuidado, na promoção do aleitamento materno, na saúde mental e na identificação precoce de complicações. Nesse contexto, o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) atualizou, em junho de 2026, a diretriz Postnatal Care, publicada originalmente em 2021. O documento reúne recomendações para os cuidados de rotina durante as primeiras oito semanas após o parto, contemplando a assistência à mulher, ao recém-nascido e à família.
Continuidade do cuidado após a alta hospitalar
Um dos principais pontos da atualização é a organização da assistência após a alta hospitalar. A diretriz recomenda que o seguimento seja planejado de forma contínua, garantindo a comunicação entre a maternidade, a atenção primária e os demais profissionais envolvidos no cuidado. Também orienta que informações sobre a gestação, o parto, possíveis complicações, saúde mental materna, alimentação do recém-nascido e plano de seguimento acompanhem a mulher durante toda a transição entre os serviços de saúde.
O documento recomenda ainda que a primeira visita domiciliar da obstetriz ocorra em até 36 horas após a alta hospitalar ou após o parto domiciliar. Já a primeira visita do profissional responsável pelo acompanhamento da criança deve ser considerada entre 7 e 14 dias, favorecendo uma assistência organizada ao longo do puerpério.
Saiba mais: Amenorreia da lactação (LAM) é um método contraceptivo seguro?
Avaliação materna durante o puerpério
A diretriz recomenda que todos os contatos pós-parto incluam a avaliação da saúde física, emocional e psicológica da mulher. Entre os aspectos que devem ser abordados estão fadiga, alimentação, atividade física, sexualidade, contracepção, saúde mental, exercícios do assoalho pélvico e possíveis situações de vulnerabilidade social ou violência doméstica.
Também recomenda investigar sistematicamente dor, sangramento vaginal, alterações urinárias e intestinais, cicatrização perineal ou da cesariana, alterações mamárias, tromboembolismo venoso, infecção, anemia e pré-eclâmpsia. Além disso, reforça que todas as mulheres devem receber orientações sobre sinais de alerta que exigem avaliação médica imediata, como hemorragia, febre, secreção vaginal com odor fétido, dispneia, dor torácica, cefaleia persistente e mastite.
Saiba mais: Pré-eclâmpsia: revisão dos principais aspectos
Aleitamento materno e cuidados com o recém-nascido
O documento recomenda que o apoio ao aleitamento materno faça parte de todos os contatos pós-parto. As orientações incluem avaliação prática da mamada, identificação precoce de dificuldades, manejo da mastite, suporte para ordenha e armazenamento do leite, além de encaminhamento para apoio especializado quando necessário. Também reforça a importância da participação da parceria e da continuidade do suporte após a alta hospitalar.
Em relação ao recém-nascido, a diretriz reúne recomendações sobre exame físico, rastreamentos neonatais, profilaxia com vitamina K, vacinação e orientações sobre sono seguro e cuidados com o coto umbilical. Também descreve sinais de alerta para doenças graves, como dificuldade respiratória, febre ou hipotermia, convulsões, vômitos frequentes, cianose e recusa alimentar, que exigem avaliação imediata.
Outra atualização importante é a inclusão de recomendações específicas para famílias que utilizam fórmula infantil. O documento orienta oferecer informações sobre preparo seguro, esterilização dos utensílios, alimentação responsiva e fortalecimento do vínculo durante as mamadas, respeitando as escolhas da família e fornecendo orientações baseadas em evidências.
Saiba mais: AAP atualiza diretrizes sobre aleitamento para RN muito baixo peso
Mensagem prática
A atualização do NICE reforça que o acompanhamento pós-parto deve ser estruturado e contínuo, contemplando a saúde da mulher, do recém-nascido e da família durante as primeiras oito semanas após o nascimento. O documento amplia as recomendações relacionadas à avaliação clínica materna, à recuperação perineal, à saúde mental, ao apoio ao aleitamento materno, à alimentação infantil e ao reconhecimento precoce de complicações maternas e neonatais. Além disso, destaca a importância da comunicação entre os diferentes níveis de assistência e da participação ativa da mulher nas decisões relacionadas ao seu cuidado, favorecendo um seguimento mais organizado e centrado nas necessidades da família.
Embora tenha sido desenvolvida para o sistema de saúde do Reino Unido, a maior parte das recomendações está alinhada aos princípios defendidos pelo Ministério da Saúde, pela FEBRASGO e pela Sociedade Brasileira de Pediatria, especialmente em relação ao cuidado multiprofissional, à promoção do aleitamento materno, ao reconhecimento precoce de complicações e ao acompanhamento longitudinal da puérpera e do recém-nascido. Na prática, o guideline reforça conceitos já incorporados à assistência baseada em evidências e oferece uma oportunidade para revisar e padronizar rotinas nos diferentes cenários de atendimento.
Autoria

Ronaldo Oliveira
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Vale do Rio Verde, com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Montes Claros. Professor da Universidade de Ribeirão Preto. Medicina Fetal pela FMRP - USP. Mestre e Doutor pela FMRP - USP.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.