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Ginecologia e Obstetrícia31 dezembro 2024

Condutas no trauma em gestantes 

Existem mudanças fisiológicas importantes que ocorrem durante a gravidez que tornam o manejo do trauma em pacientes grávidas diferente do tratamento padrão
Por Jader Ricco

Nos Estados Unidos é estimado em cerca de 4% a proporção de mulheres que sofrem algum tipo de trauma durante a gestação. Acidentes automobilísticos, quedas e violência doméstica figuram entre as principais causas de trauma na gestante.  Dentre as principais causas de morte materna e fetal, os atropelamentos têm grande representatividade, correspondendo a 27% das mortes maternas e 45% das fetais.  

Importante também considerar a violência perinatal que constitui a forma mais comum de violência contra as mulheres e é a principal causa de morte entre mulheres grávidas. A violência doméstica na gestante é bem mais frequente no primeiro trimestre com taxas de até 77%. 

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Independente do mecanismo do trauma, o atendimento a gestante, apesar de na maior parte ser semelhante ao preconizado nas situações de trauma para não gestantes, envolve algumas particularidades.  

Metodologia 

Avaliamos um artigo publicado recentemente (novembro/2024) pelo Department of Surgery. Division of Trauma, Surgical Critical Care, and Emergency General Surgery, University of California, Irvine, Orange, California. O estudo traz particularidades em relação ao trauma na gestante que são essenciais serem considerado no atendimento dessas pacientes para evitar complicações imediatas e futuras.  

Discussão 

Ao iniciar o atendimento exames laboratoriais devem ser solicitados. Dentre os exames, alguns podem dar indícios de problemas desencadeados pelo trauma e associado à gestação. É o caso da dosagem de fibrinogênio que, quando em valores baixos, menores que 2 g/L, pode ser indicativo de descolamento prematuro de placenta. Esse descolamento pode fazer com que o sangue fetal entre em contato com a circulação materna, podendo levar a eritroblastose fetal. O teste de Kleihauer-Betke (KB) é usado para identificar presença de sangue fetal na circulação materna e indicar o uso Imunoglobulina Rho (D) para evitar a eritroblastose e é recomendado pela Eastern Association for the Surgery of Trauma para toda grávida vítima de trauma com idade gestacional maior que 12 semanas. 

Saiba mais: Ressuscitação volêmica no trauma: Qual a medida certa?

Um tema frequente de discussão entre os profissionais de saúde é a realização de tomografia computadorizada (TC) na gestante. Segundo orientações do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) a TC é relativamente segura e não deve deixar de ser solicitada em situações cuja a realização seja importante para o diagnóstico. Entretanto, é recomendado a menor dose de radiação possível. A ressonância magnética (RNM) e o ultrassom (USG) são exames não radioativos seguros para uso na gestação. O Focused Assessment with Sonography in Trauma (FAST) continua sendo uma boa ferramenta na avaliação rápida de líquido na cavidade, com pequena redução da sensibilidade (61% versus 71%;) e especificidade (94% vs. 97%). 

No que se refere a traumas específicos, alguns traumas como os pélvicos podem ser desafiadores. Fraturas como as do tipo “livro aberto” podem piorar a circulação materna durante o tratamento com o uso de cinta pélvica. É preciso ter em mente medidas que possam deslocar parcialmente o útero gravídico como decúbito lateral esquerdo, uso de encostos ou deslocamento manual do útero. A viabilidade fetal deve ser considerada quando houver indicações cirúrgicas para correção de fraturas pélvicas. 

Abordamos situações graves e de emergência em outra publicação prévia (Cesariana Perimortem Após Lesão Grave) que está a disposição para consulta. 

Conclusão 

Apesar de grande parte das medidas no atendimento ao trauma nas gestantes serem semelhantes às não gestante, existem situações específicas e inerentes às pacientes grávidas que o médico que está realizando o atendimento precisa ter em mente para não deixar causas tratáveis e preveníveis se tornarem complicações graves.

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Referências bibliográficas

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