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Ginecologia e Obstetrícia30 maio 2026

CBGO 2026 - Rastreamento do HPV na prática clínica em PTGI

Mesa discute teste molecular, citologia reflexa, colposcopia e seguimento de pacientes com HPV positivo.
Por Sérgio Okano

A mesa dedicada ao rastreamento do HPV e ao manejo da infecção pelo HPV reuniu especialistas para discutir aspectos ainda controversos da história natural da infecção, os desafios da implementação do novo programa de rastreamento brasileiro e as estratégias de seguimento das pacientes com testes positivos. 

Infecção pelo HPV pode ter detecção intermitente 

A Dra. Fernanda Tso, da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, iniciou a sessão abordando mitos e realidades relacionados à chamada infecção latente pelo HPV. A palestrante apresentou dados de uma coorte brasileira que identificou taxas de detecção intermitente do HPV em até 8% das mulheres previamente consideradas com clearance viral. Segundo a discussão, esse fenômeno pode ocorrer por diferentes mecanismos, incluindo falhas transitórias do sistema imunológico, reinfecção, reativação viral ou persistência da infecção em níveis abaixo do limite de detecção dos testes moleculares. O fenômeno parece ser particularmente relevante em mulheres na peri e pós-menopausa, em decorrência da imunossenescência. Como principal mensagem, a especialista ressaltou que um teste negativo para HPV não significa necessariamente ausência completa da infecção, mas sim que a carga viral encontra-se abaixo da capacidade de detecção do método utilizado. 

Como o teste molecular muda o rastreamento do câncer do colo do útero? 

Na sequência, a professora Yara Furtado de Melo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), discutiu os desafios da implementação do novo modelo de rastreamento do câncer do colo do útero proposto pelo Ministério da Saúde. A palestrante destacou que a incorporação do teste de HPV como exame primário exigirá mudanças estruturais importantes, incluindo a redução gradual da coleta de citologia convencional como método inicial de rastreamento. Segundo a professora, o principal desafio será a transição de um modelo predominantemente oportunístico para um sistema de rastreamento organizado, baseado em convites sistemáticos, acompanhamento dos casos positivos e fortalecimento dos fluxos laboratoriais e assistenciais. Foi ressaltado que, em 2025, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) publicou um manual de apoio à implementação do rastreamento baseado em HPV. Também foi enfatizada a necessidade de priorizar mulheres entre 30 e 50 anos, faixa etária com maior incidência de lesões precursoras, além de preparar os serviços para um provável aumento inicial da demanda por colposcopias. 

Saiba mais: SUS passará a oferecer nova tecnologia para detecção de câncer do colo do útero 

Citologia reflexa ajuda a estratificar o HPV de alto risco 

A professora Isabel Cristina Furtado Guimarães, da Universidade Federal Fluminense (UFF), abordou o papel dos testes reflexos na estratificação de risco das mulheres com teste de HPV positivo. A palestrante destacou que, para cada 100 mulheres com HPV de alto risco detectado, aproximadamente 20 a 30 apresentarão alterações citológicas e apenas 2 a 5 terão lesões de alto grau equivalentes a NIC 3 ou superiores. Nesse contexto, os testes reflexos permitem reduzir encaminhamentos desnecessários para colposcopia. A presença de HPV 16 ou 18 constitui indicação direta para avaliação colposcópica; para os demais tipos de alto risco não 16 e 18, a citologia reflexa continua sendo uma ferramenta com boa especificidade para triagem da colposcopia. 

A professora também apresentou os dados sobre dupla marcação p16/Ki-67, exame não incorporado ao SUS, mas que apresenta sensibilidade e especificidade superiores à citologia isolada para identificação de lesões clinicamente relevantes. Segundo as recomendações da American Society for Colposcopy and Cervical Pathology (ASCCP), esse biomarcador pode ser particularmente útil em mulheres com citologia normal, ASC-US ou LSIL associadas à positividade para HPV de alto risco não 16/18. 

Quando a persistência viral exige vigilância prolongada 

A professora Silvana Maria Quintana, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), discutiu o manejo das pacientes com HPV de alto risco persistente na ausência de lesão identificável, destacando que a persistência viral é caracterizada pela manutenção da positividade para HPV de alto risco em avaliações sucessivas realizadas entre 12 e 24 meses. Nesses casos, diante de um teste positivo acompanhado de colposcopia sem alterações, é fundamental excluir exaustivamente a presença de lesões ocultas antes de concluir pela ausência de doença. 

A professora reforçou que a persistência isolada do HPV não constitui indicação de tratamento excisional e que essas mulheres devem permanecer em vigilância rigorosa. A estratégia recomendada atualmente no Brasil consiste na repetição do teste molecular após 12 meses, mantendo-se o seguimento enquanto houver persistência viral. Também foram discutidas recomendações internacionais que incluem associação de biomarcadores e repetição mais precoce da citologia e do teste de HPV. Nos casos de zona de transformação tipo 3, o protocolo do INCA prevê acompanhamento anual com HPV, associado a avaliações citológicas e colposcópicas periódicas. 

Saiba mais: Neoplasia intraepitelial cervical: biópsias cervicais versus excisão da zona de transformação 

Seguimento pós-tratamento em NIC mantém foco na recorrência 

Encerrando a sessão, a professora Ana Katherine Gonçalves, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abordou o seguimento das pacientes após o tratamento das neoplasias intraepiteliais cervicais (NIC). A discussão enfatizou que o sucesso terapêutico não elimina completamente o risco de recorrência, tornando indispensável o seguimento prolongado dessas mulheres. A palestrante revisou os protocolos atuais de vigilância pós-tratamento, destacando o papel crescente do teste de HPV como ferramenta de monitoramento, por apresentar maior sensibilidade na identificação precoce de persistência ou recorrência da doença quando comparado à citologia isolada. A mensagem final reforçou a importância da adesão ao seguimento de longo prazo para garantir a efetividade dos programas de prevenção do câncer do colo do útero e do rastreamento do HPV na prática clínica. 

Simpósio Satélite Afya aborda manejo de úlceras genitais no CBGO 2026 

Durante o CBGO 2026, a Afya realizou o Simpósio Satélite “Úlceras genitais: imagens e respostas — novo algoritmo da Sociedade Internacional no auxílio do manejo”, ministrado pela ginecologista Caroline Alves de Oliveira Martins, editora-chefe de Ginecologia e Obstetrícia dos produtos digitais da Afya. A atividade abordou, de forma prática e visual, o manejo de úlceras genitais a partir de um novo algoritmo internacional. O simpósio também contou com médico Járder Burdet, professor e editor-chefe da Afya GO. 

Cobertura CBGO 2026 – Portal Afya 

O Portal Afya acompanhou a cobertura do 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026), um dos principais encontros científicos da especialidade no país. O evento aconteceu entre os dias 27 e 30 de maio de 2026, no Minascentro, em Belo Horizonte/MG, reunindo ginecologistas, obstetras, residentes, estudantes de medicina e demais profissionais interessados nas atualizações em saúde da mulher. 

O evento é promovido pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

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