A mesa sobre linfadenectomia no câncer ginecológico, realizada durante o 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026), reuniu especialistas para discutir o papel da abordagem linfonodal em diferentes tumores ginecológicos, com foco em indicação cirúrgica, morbidade e uso da biópsia do linfonodo sentinela nos cenários em que essa estratégia é possível.
Câncer de colo uterino exige avaliação linfonodal bem indicada
O professor Jesus Paula, chefe do setor de Ginecologia do Instituto do Câncer de São Paulo, abriu a mesa falando sobre a linfadenectomia no câncer de colo uterino.
O câncer de colo uterino evolui por contiguidade aos órgãos vizinhos e por acometimento linfonodal. Entre as razões destacadas para realizar a dissecção linfonodal estão o estadiamento, a definição do tratamento complementar e a remoção de possíveis metástases microscópicas.
Atualmente, preconiza-se a identificação de comprometimento linfonodal por exames de imagem antes da possível cirurgia, para nortear melhor o tratamento definitivo.
A linfadenectomia pode levar a morbidades intra e pós-operatórias relevantes; logo, deve ser bem indicada.
O linfonodo sentinela é o primeiro gânglio que recebe drenagem linfática a partir do tumor. A realização da biópsia do linfonodo sentinela tem menor morbidade e pode determinar o melhor seguimento.
A linfadenectomia sistemática, pélvica e aórtica, deve ser realizada somente em situações especiais.
Como a biópsia do linfonodo sentinela entra no câncer de endométrio?
O professor Delzio Bicalho, membro da Comissão Nacional Especializada de Ginecologia Oncológica da FEBRASGO, falou sobre o papel da linfadenectomia no câncer de endométrio.
O tratamento padrão para o câncer de endométrio é cirúrgico. Estudos atuais mostram que remover mais linfonodos saudáveis não aumenta o tempo livre de doença e aumenta a morbidade. Segundo guideline britânico citado na apresentação, a cada linfonodo retirado, aumenta em 6% o risco de linfedema.
A biópsia do linfonodo sentinela deve ser indicada em casos selecionados, é menos mórbida e não inferior à linfadenectomia sistemática; logo, esta última deve ser desencorajada. O professor destacou o papel atual importante do prognóstico relacionado ao estudo imunohistoquímico com a análise molecular do tumor de endométrio.
Saiba mais: Biópsia do linfonodo sentinela no câncer endometrial inicial e hiperplasia
Avaliar linfonodos suspeitos nos tumores epiteliais de ovário
O professor Renato Moretti, coordenador do serviço de Ginecologia Oncológica do Hospital Israelita Albert Einstein, reforçou toda a morbidade relacionada às linfadenectomias. Por outro lado, o acometimento linfonodal é frequente nos tumores epiteliais ovarianos.
Na doença avançada, a linfadenectomia sistemática deve ser abandonada, segundo estudos atuais, exceto nos casos em que, clinicamente, os linfonodos parecem suspeitos.
Na doença aparentemente inicial, a linfadenectomia tem como objetivo determinar o estadiamento e é indicada em situações de maior risco de acometimento linfonodal, a depender do tipo histológico.
O uso da biópsia de linfonodo sentinela em tumor ovariano ainda é alvo de pesquisas, pois a drenagem linfática é ampla e variável.
Quando a disseminação linfática é rara nos tumores de cordões sexuais
O Dr. Caetano da Silva, professor da Faculdade de Medicina do ABC, pontuou sobre a raridade dos tumores de cordões sexuais, que representam 2% a 7% das malignidades ovarianas.
A maioria é diagnosticada em estágios iniciais, com boa sobrevida. A disseminação linfática é rara. Geralmente, a disseminação e as recorrências são peritoneais. Logo, não costuma ser indicada a linfadenectomia sistemática, e a linfadenectomia sentinela carece de mais estudos.
Câncer de vulva concentra debate sobre morbidade cirúrgica
A professora Walquiria Primo, da Universidade Federal de Brasília, fechou a mesa falando sobre o papel da linfadenectomia no câncer de vulva.
O câncer vulvar é raro, mais frequente em mulheres idosas e relacionado a dermatoses vulvares, em especial o líquen escleroso, com diagnósticos tardios.
A professora também destacou o manejo cada vez mais conservador desse tumor. A linfadenectomia inguinofemoral apresenta alta taxa de morbidade. A biópsia do linfonodo sentinela é uma alternativa em casos iniciais, com lesões menores que 4 cm. As micrometástases, menores que 2 mm, identificadas podem ser manejadas posteriormente com radioterapia, com menos morbidade quando comparada à linfadenectomia inguinofemoral completa.
O exame físico ginecológico cuidadoso é fundamental para o diagnóstico precoce das lesões precursoras e do câncer inicial vulvar.
Saiba mais: Câncer de vulva e neoplasias intraepiteliais vulvares
Mensagem Final
Atualmente, os tratamentos cirúrgicos ginecológicos apresentam uma tendência ao descalonamento, com substituição da linfadenectomia sistemática pela biópsia de linfonodo sentinela nos sítios possíveis. Nesse contexto, a linfadenectomia no câncer ginecológico deve ser discutida conforme o tipo tumoral, o risco de acometimento linfonodal, a morbidade esperada e a possibilidade de estratégias menos invasivas.
Simpósio Satélite Afya aborda manejo de úlceras genitais no CBGO 2026
Durante o CBGO 2026, a Afya realizou o Simpósio Satélite “Úlceras genitais: imagens e respostas — novo algoritmo da Sociedade Internacional no auxílio do manejo”, ministrado pela ginecologista Caroline Alves de Oliveira Martins, editora-chefe de Ginecologia e Obstetrícia dos produtos digitais da Afya. A atividade abordou, de forma prática e visual, o manejo de úlceras genitais a partir de um novo algoritmo internacional. O simpósio também contou com médico Járder Burdet, professor e editor-chefe da Afya GO.
Cobertura CBGO 2026 – Portal Afya
O Portal Afya acompanhou a cobertura do 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026), um dos principais encontros científicos da especialidade no país. O evento aconteceu entre os dias 27 e 30 de maio de 2026, no Minascentro, em Belo Horizonte/MG, reunindo ginecologistas, obstetras, residentes, estudantes de medicina e demais profissionais interessados nas atualizações em saúde da mulher.
O evento é promovido pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Autoria

Caroline Oliveira
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