O transtorno por uso de álcool (TUA) e a doença hepática relacionada ao álcool (DHAL) representam um desafio constante na prática clínica diária. Além da abordagem multidisciplinar, com intervenções sociais e psicológicas como grandes protagonistas, o papel das medicações em seu tratamento é fundamental, com benefícios amplamente documentados em literatura. Contudo, sua utilização ainda é notavelmente baixa. Este artigo aborda evidências recentes que destacam o impacto significativo das estratégias farmacológicas em desfechos clínicos extremamente relevantes.

Farmacoterapia e melhoria da sobrevida em pacientes com DHAL grave
Um estudo de coorte retrospectivo, publicado por Sundaresh e colaboradores (2026), investigou a associação entre o uso de medicamentos específicos para transtorno por uso de álcool (TUA) e a mortalidade em 1.309 pacientes com DHAL grave, referenciados para transplante hepático.
- Aumento da sobrevida: O uso de medicações específicos para TUA por pelo menos 3 meses foi associado a um aumento significativo na sobrevida: 6,6% maior em 1 ano e 18,5% maior em 3 anos. Esta associação persistiu independentemente de fatores como o escore MELD-Na, status do transplante hepático e outras comorbidades clínicas;
- Benefício mesmo em doença mais grave: Curiosamente, o grupo que recebeu tratamento farmacológico apresentava uma gravidade de doença maior, com escores MELD-Na mais elevados, mais comorbidades e mais descompensações hepáticas (como varizes hemorrágicas e encefalopatia hepática). Mesmo nesse cenário, a farmacoterapia demonstrou claro benefício na redução da mortalidade, com uma relação de risco (HR) ajustada de 0,59 (IC 95%, 0,39-0,92) para aqueles medicados por pelo menos de 3 meses;
- Relação dose-resposta: O estudo também observou uma relação dose-resposta, onde maiores doses, maior número de medicamentos e maior duração de uso estavam associados a um risco progressivamente menor de mortalidade por todas as causas.
Esses resultados reforçam a importância de se considerar a farmacoterapia, mesmo em pacientes com DHAL grave, e destacam a necessidade de melhorar o acesso a esses tratamentos.
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Farmacoterapia e redução de hospitalizações pós-alta no transtorno por uso de álcool (TUA)
Complementando as evidências de sobrevida, o estudo de Bernstein e colaboradores (2024), realizado em pacientes hospitalizados por condições relacionadas ao alcoolismo, avaliou o impacto da iniciação de farmacoterapia específica para TUA na alta hospitalar em desfechos clínicos nos 30 dias subsequentes à alta hospitalar.
- Redução substancial no risco combinado: A iniciação de medicamentos específicos na alta hospitalar foi associada a uma redução absoluta de 18% no desfecho composto de retorno ao hospital ou morte em 30 dias. Relativamente, houve uma diminuição de 42% na incidência do desfecho primário (IRR, 0,58; IC 95%, 0,45-0,76);
- Diminuição de reinternações e visitas ao pronto-socorro: Especificamente, a iniciação de farmacoterapia resultou em uma redução da incidência de visitas ao pronto-socorro por todas as causas (IRR, 0,57) e de readmissões hospitalares por todas as causas (IRR, 0,42). A redução foi ainda mais pronunciada para o retorno ao hospital relacionado ao álcool (IRR, 0,49);
- Aumento do acompanhamento pós-alta: Pacientes que iniciaram medicações na alta tiveram uma maior probabilidade de realizar acompanhamento em atenção primária ou saúde mental em 30 dias (IRR, 1,22), um fator crítico para a continuidade do tratamento e prevenção de recaídas.
Esses achados destacam o momento da alta hospitalar como uma preciosa janela de oportunidade para iniciar o tratamento medicamentoso para TUA, o que parece impactar favoravelmente os desfechos a curto prazo e a integração do paciente aos cuidados ambulatoriais.
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Conclusão e relevância clínica
As evidências científicas são claras, mas a prescrição de farmacoterapia para transtornos relacionados ao álcool ainda é negligenciada. O conhecimento dos benefícios e o domínio técnico sobre o uso dos agentes disponíveis são aspectos fundamentais para se transformar esse cenário e oferecer um cuidado mais completo e eficaz.
Autoria

Filipe Fernandes Justus
Conteudista de Gastroenterologia do Whitebook e Portal Afya. Médico especializado em Clínica Médica, Gastroenterologia e Hepatologia pelo HC-FMUSP. Atua em ensino médico e assistência ambulatorial e hospitalar.
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