O artigo “Artificial Intelligence for Gastroenterology Practice: A Modified Delphi Consensus“, publicado no American Journal of Gastroenterology, nos traz um consenso de especialistas do American College of Gastroenterology (AGC) sobre o papel atual e futuro da inteligência artificial (IA) na prática da Gastroenterologia.
O documento, desenvolvido por um grupo de 32 especialistas clínicos e 12 representantes da indústria, revisou a literatura e subdividiu as recomendações em 4 áreas principais.
Endoscopia digestiva
A endoscopia digestiva é, naturalmente, a área com maior maturidade tecnológica, de forma que há evidências consistentes de que a detecção assistida por computador (CADe) aumenta a taxa de detecção de adenomas. O método se comporta à semelhança da mira de um avião caça, apontando, na tela do endoscopista, os pólipos por ele detectados. Entretanto, faltam dados sobre o impacto em desfechos clínicos de longo prazo, como a redução da incidência do câncer colorretal de intervalo.
Além de auxiliar na identificação dos pólipos, sistemas de diagnóstico assistido por computador (CADx) podem auxiliar na caracterização histológica em tempo real, a partir da interpretação do padrão de criptas da mucosa (pit), permitindo estratégias como “diagnosticar e não ressecar” (lesões claramente benignas que podem ser mantidas in situ) ou “ressecar e descartar” (a exemplo de adenomas com displasia de baixo grau), reduzindo riscos e custos com procedimentos endoscópicos e avaliação anatomopatológica.
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Gestão de clínicas
A IA apresenta aplicações promissoras para melhorar a eficiência administrativa. Sistemas de Ambient AI scribes podem registrar automaticamente interações médico-paciente e gerar notas estruturadas, reduzindo carga documental e trabalho após o expediente.
Ferramentas baseadas em processamento de linguagem natural (NLP) também podem extrair informações relevantes de registros médicos para apoiar decisões clínicas, otimizar codificação e faturamento e facilitar autorizações prévias de procedimentos. Essas aplicações têm potencial para melhorar o fluxo de trabalho, reduzir o burnout médico e as glosas de planos de saúde.

Inteligência artificial na educação médica
No campo da educação médica, a IA deve ser integrada de forma estruturada ao treinamento em gastroenterologia, mas sem comprometer a autonomia e o raciocínio clínico dos trainees.
Sistemas de IA podem auxiliar no aprendizado endoscópico ao destacar lesões sutis, interpretar exames como cápsula endoscópica ou fornecer feedback em simuladores. Entretanto, existe o risco de deskilling caso os residentes passem a depender excessivamente dessas ferramentas. Assim, recomenda-se que programas de treinamento incluam currículo formal sobre IA, ao mesmo tempo em que garantam que o médico alcance competência técnica de modo independente dessas tecnologias, que ainda não são ubíquas.
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Doenças inflamatórias intestinais e hepatologia
Em doenças inflamatórias intestinais e hepatologia, a IA pode contribuir para medicina de precisão ao integrar grandes volumes de dados clínicos, imaginológicos, genéticos e do microbioma.
Modelos de aprendizado de máquina têm potencial para melhorar a diferenciação entre doença de Crohn e retocolite ulcerativa, prever progressão da doença e orientar decisões terapêuticas.
Na hepatologia, algoritmos podem auxiliar na estratificação de risco e no manejo de condições como doença hepática crônica avançada e carcinoma hepatocelular.
Conclusão e mensagens práticas: inteligência artificial na gastroenterologia
A implementação da IA na Gastroenterologia pode potencializar a expertise médica, desde que implementada com rigor científico, supervisão clínica e responsabilidade ética, levando em conta questões como viés de algoritmo, privacidade de dados e transparência dos modelos.
A adoção segura da IA exigirá colaboração entre sociedades médicas, pesquisadores e indústria, bem como de modelos de reembolso por gestores de saúde que reconheçam o valor dessas ferramentas na melhoria da qualidade e redução dos custos envolvidos.
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Autoria

Leandro Lima
Editor de Clínica Médica da Afya ⦁ Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) ⦁ Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019) ⦁ Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
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