A inteligência artificial (IA) avança sobre todas as áreas do conhecimento humano. Entretanto, para quem atua na Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva, há certo ceticismo sobre o real benefício da colonoscopia assistida por IA, pois sabemos que a qualidade técnica do exame depende de múltiplos fatores:
- Taxa de detecção de adenomas (TDA) do endoscopista;
- Adequação do preparo do cólon, com destaque para a escala de Boston;
- Qualidade das imagens obtidas, que dependem do aparelho (câmeras, ópticas, telas e manutenção preventiva); esmero do colonoscopista em lavar e aspirar o cólon e ajustar brilho e exposição;
- Plenitude da avaliação do intestino grosso, com ênfase na taxa de intubação cecal;
- Retrovisão em ceco ou segunda inspeção, em visão frontal, do cólon direito;
- Tempo de retirada mínimo de 6-9 minutos.
Diante de tantas variáveis, e de um cenário de saúde pública e suplementar que pressiona os profissionais por produção, quanto a colonoscopia assistida por IA poderia contribuir na prática da endoscopia digestiva baixa?

Quais são as evidências?
O benefício da IA, portanto, parece ser mais pronunciado para a detecção de adenomas diminutos (≤ 5mm) de baixo risco do que para lesões maiores e avançadas. Para lesões serrilhadas sésseis, consideradas uma das causas subjacentes aos cânceres colorretais de intervalo, sobretudo os de cólon direito, os dados são mais conflitantes.
A colonoscopia assistida por IA, com base em múltiplas meta-análises, associa-se a aumento significativo da TDA, na magnitude aproximada de 20-24%, em comparação ao método convencional, de modo independente do tempo de experiência do endoscopista.
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Uma metanálise de 44 ensaios clínicos randomizados (RCTs), com N = 36.201 pacientes, demonstrou TDA de 44,7% com IA vs. 36,7% sem IA (RR 1,21; IC 95% 1,15-1,28). Outra metanálise de 28 RCTs, com N = 23.861, corroborou aumento de 20% na TDA (RR 1,20; IC 95% 1,14-1,27).
Já para adenomas avançados, as evidências para o uso de colonoscopia assistida por IA são menos consistentes, o que é previsível pela maior visibilidade natural às lesões mais volumosas e grosseiras.
Na contramão desses dados, um RCT publicado em junho/2026 no prestigiado periódico Endoscopy, a utilização do sistema da IA PolyDeep acoplada à colonoscopia realizada por endoscopistas experientes, em uma população triada por FIT positivo ou em seguimento pós-polipectomia, não aumentou significativamente a TDP. Apesar de ter sido um estudo limitado a três hospitais universitários espanhóis, com N = 827, a ideia é de que o impacto da tecnologia possa ser mais limitados em centros com elevada qualidade assistencial.
Qual o impacto em desfechos oncológicos brutos?
No momento, não há evidência direta do impacto da colonoscopia assistida por IA na mortalidade por câncer colorretal, pois os estudos disponíveis focam em desfechos substitutos (TDA e taxa de perda de adenomas, por exemplo). É compreensível que assim o seja, pois a cascata evolutiva de um adenoma para câncer colorretal (displasia de baixo grau, displasia de alto grau, adenocarcinoma in situ e adenocarcinoma invasor) costumeiramente leva anos a décadas.
Modelos de simulação sugerem benefícios potenciais. Um estudo de modelagem Markov estimou que a IA poderia reduzir a incidência de câncer colorretal (48,9% vs. 44,2% sem IA) e a mortalidade específica (52,3% vs. 48,7%).
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A tecnologia se paga?
Estudos de modelagem econômica sugerem que a IA é custo-efetiva e potencialmente economizaria recursos.
Uma análise realizada na população asiática mostrou que a estratégia de triagem com teste imunoquímico fecal (FIT), seguida por colonoscopia assistida por IA, teve a menor razão de custo-efetividade incremental em relação às outras estratégias. Na população americana, o método poderia reduz custos em cerca de US$ 60 por indivíduo rastreado, resultando em economia anual de cerca de US$ 300 milhões.
A economia presumida decorreria principalmente da prevenção de casos de câncer colorretal e redução de custos sequenciais com a terapia oncológica.
Mensagens práticas
Na prática brasileira, a prevenção do câncer colorretal esbarra principalmente na baixa disponibilidade da colonoscopia e, em menor grau, na adesão limitada dos pacientes ao método. Nesse contexto, a pesquisa de sangue oculto fecal por imunocromatografia permite selecionar uma população com maior probabilidade de benefício da colonoscopia, racionalizando o uso desse recurso.
Entre os pacientes que conseguem acesso ao exame, um dos principais gargalos da qualidade é a pressão por produtividade. Nesse cenário, a colonoscopia assistida por inteligência artificial surge como uma tecnologia capaz de aumentar a taxa de detecção de adenomas, mas cuja incorporação em larga escala só faria sentido se contextualizada dentro das prioridades e limitações da saúde pública brasileira.
Autoria

Leandro Lima
Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.
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