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Endocrinologia3 outubro 2025

Diretriz SBD 2025: tratamento do diabetes tipo 2

Veja como a diretriz SBD 2025 orienta o tratamento do diabetes tipo 2 por risco cardiovascular, obesidade, função renal e HbA1c.

O tratamento do diabetes tipo 2 evoluiu substancialmente na última década, especialmente com o surgimento dos inibidores de SGLT2 e dos agonistas do receptor de GLP-1.

Estudos como EMPA-REG, com empagliflozina, e SUSTAIN-6, com semaglutida, demonstraram redução do risco de eventos cardiovasculares maiores, os chamados MACEs. Desde então, cresceu o interesse pelos benefícios adicionais das novas terapias, incluindo nefroproteção e impacto no manejo conjunto da obesidade.

Antes centrados principalmente na glicemia, os guidelines atuais passaram a considerar também prevenção de complicações microvasculares, proteção cardiovascular e renal, e tratamento da obesidade. Esse é também o caminho da diretriz SBD 2025 para tratamento do diabetes tipo 2.

medicamento para DM2

Diretriz SBD 2025: principais pontos sobre tratamento do diabetes tipo 2

Individualização do tratamento conforme perfil do paciente

A diretriz da SBD 2025 reforça que o tratamento do diabetes tipo 2 deve ser individualizado conforme o perfil de cada paciente.

O primeiro passo é avaliar:

  • risco cardiovascular individual;
  • presença de obesidade;
  • função renal;
  • valor da HbA1c.

A estratificação de risco divide os pacientes em risco cardiovascular baixo, intermediário, alto e muito alto. Este último grupo inclui indivíduos com múltiplos fatores de risco, lesão de órgão-alvo ou eventos cardiovasculares prévios.

Essa classificação é determinante para a escolha terapêutica, pois define se o paciente deve receber, desde o início, fármacos com impacto em desfechos cardiorrenais.

Obesidade como alvo terapêutico no diabetes tipo 2

Outro ponto central da diretriz é o reconhecimento da obesidade como alvo terapêutico.

Pacientes com sobrepeso ou obesidade devem ter como prioridade fármacos capazes de promover perda ponderal significativa, como:

  • agonistas do receptor de GLP-1;
  • coagonistas GLP-1/GIP.

Essa abordagem integra o tratamento do diabetes tipo 2 ao manejo da obesidade.

Já em pacientes sem excesso de peso, especialmente aqueles com alto risco cardiovascular, a preferência pode ser por inibidores de SGLT2, que oferecem praticidade, menor custo relativo e proteção contra desfechos cardíacos e renais.

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HbA1c como modulador da intensidade terapêutica

A HbA1c funciona como modulador da intensidade terapêutica.

De forma prática:

  • HbA1c < 7,5%: permite iniciar com monoterapia;
  • HbA1c ≥ 7,5%: indica necessidade de terapia dupla já na linha inicial.

Essa decisão deve sempre ser associada ao risco cardiovascular e à presença ou ausência de obesidade.

Assim, dois pacientes com a mesma HbA1c podem receber esquemas completamente diferentes, dependendo desses fatores.

Inércia terapêutica, intensificação e desescalonamento

A diretriz também enfatiza a necessidade de combater a inércia terapêutica.

O paciente deve ser reavaliado em três meses. Se a meta de HbA1c não for atingida, o tratamento deve ser intensificado, avançando conforme necessário:

  • de terapia dupla para tripla;
  • de terapia tripla para quádrupla;
  • quando indicado, para insulinoterapia.

Também deve ser considerada a possibilidade de desescalonamento do tratamento quando houver condições clínicas favoráveis.

Quando indicar insulinoterapia no diabetes tipo 2

A insulinoterapia deve ser indicada independentemente do risco cardiovascular quando o paciente apresenta sintomas de insulinopenia e hiperglicemia grave.

Entre os sintomas de insulinopenia estão:

  • perda de peso;
  • poliúria;
  • polidipsia.

Nesses casos, pode-se considerar coformulações com agonistas de GLP-1 se houver obesidade. Em situações de emergência ou suspeita de diabetes tipo 1, podem ser necessários esquemas completos basal-bolus.

Como organizar o tratamento do diabetes tipo 2 conforme risco cardiovascular

A SBD propõe um fluxograma baseado em três critérios principais:

  • IMC;
  • risco cardiovascular;
  • HbA1c inicial.

Na diretriz, são chamados de AD1 os antidiabéticos com efeito protetor cardiovascular comprovado, como inibidores de SGLT2 e agonistas de GLP-1 com evidências de proteção cardiovascular, incluindo semaglutida, liraglutida e dulaglutida.

Risco baixo ou intermediário sem sobrepeso ou obesidade

Para pacientes com risco cardiovascular baixo ou intermediário, sem sobrepeso ou obesidade, a recomendação varia conforme a HbA1c:

  • HbA1c < 7,5%: metformina em monoterapia;
  • em caso de intolerância à metformina: AD1, com preferência por iSGLT2, ou outro antidiabético com baixo risco de hipoglicemia;
  • HbA1c ≥ 7,5%: terapia dupla inicial com metformina + AD1, preferindo iSGLT2, ou metformina + outro antidiabético.

Risco baixo ou intermediário com sobrepeso ou obesidade

Para pacientes com risco cardiovascular baixo ou intermediário e sobrepeso ou obesidade, o peso passa a orientar a escolha terapêutica:

  • HbA1c < 7,5%: monoterapia com agonista do receptor de GLP-1 ou tirzepatida;
  • se houver indisponibilidade ou intolerância: iSGLT2 ou metformina;
  • HbA1c ≥ 7,5%: terapia dupla inicial com agonista de GLP-1/tirzepatida + metformina ou agonista de GLP-1/tirzepatida + iSGLT2.

Risco alto ou muito alto sem sobrepeso ou obesidade

Para pacientes com risco cardiovascular alto ou muito alto, sem sobrepeso ou obesidade, a proteção cardiovascular orienta a escolha:

  • HbA1c < 7,5%: monoterapia com AD1, com preferência por iSGLT2;
  • HbA1c ≥ 7,5%: AD1, preferencialmente iSGLT2, associado à metformina.

Risco alto ou muito alto com sobrepeso ou obesidade

Para pacientes com risco cardiovascular alto ou muito alto e sobrepeso ou obesidade, a diretriz integra proteção cardiovascular e redução ponderal:

  • HbA1c < 7,5%: monoterapia com agonista de GLP-1; se indisponível, iSGLT2;
  • HbA1c ≥ 7,5%: AD1, com preferência por agonista de GLP-1, associado à metformina;
  • considerar início com agonista de GLP-1 + iSGLT2, com ou sem metformina.

Impacto da diretriz SBD 2025 na prática clínica

A diretriz SBD 2025 confirma que o manejo do diabetes tipo 2 deve ser cada vez mais individualizado.

O risco cardiovascular e o IMC ganham papel central na escolha terapêutica, agora de forma mais didática e organizada. Nesse contexto, a metformina deixa de ser a escolha óbvia em todas as situações, abrindo espaço para novas terapias conforme o perfil clínico do paciente.

O manejo do diabetes tipo 2 passa a ser mais estratégico e centrado na prevenção de complicações. No entanto, muitas recomendações do novo guideline ainda não correspondem a terapias amplamente disponíveis para todos os brasileiros, especialmente no sistema público de saúde.

Esse contraste reforça o desafio de aproximar avanços científicos e farmacológicos da aplicabilidade clínica no país.

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*Este conteúdo foi atualizado em: 14/05/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.

Autoria

Foto de Luiz Fernando Fonseca Vieira

Luiz Fernando Fonseca Vieira

Endocrinologista pelo HCFMUSP. Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu.

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Referências bibliográficas

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