A síndrome hiperglicêmica hiperosmolar não cetótica (SHHNC), também chamada de estado hiperosmolar hiperglicêmico (EHH), é uma das emergências metabólicas mais graves associadas ao diabetes mellitus. Apresenta elevada mortalidade, especialmente em pacientes idosos, frágeis e com múltiplas comorbidades.
Embora menos frequente que a cetoacidose diabética (CAD), sua letalidade pode ser até dez vezes maior em alguns estudos. Essa gravidade está relacionada ao perfil dos pacientes acometidos: indivíduos com longa evolução de diabetes tipo 2, muitas vezes sem diagnóstico prévio, com infecções ou outras doenças intercorrentes e frequentemente em estado de desidratação importante.
Fisiopatologia
A SHHNC decorre de um déficit relativo de insulina:
- A insulina ainda é suficiente para inibir a lipólise e a cetogênese
- Porém, é insuficiente para controlar a glicemia
Como consequência:
- Hiperglicemia extrema
- Diurese osmótica intensa
- Perda significativa de água e eletrólitos
- Hipovolemia e hiperosmolaridade
As manifestações neurológicas variam de letargia ao coma e são proporcionais ao grau de hiperosmolaridade.
Diretriz SBD 2025: visão geral
A Sociedade Brasileira de Diabetes atualizou, em 2025, suas recomendações para diagnóstico e manejo da SHHNC, com foco em:
- Diagnóstico mais preciso
- Tratamento estruturado em etapas
- Redução de complicações
Diagnóstico
O diagnóstico não deve se basear apenas na hiperglicemia, mas na combinação de critérios clínicos e laboratoriais.
Critérios diagnósticos (SBD 2025)
- Glicemia ≥ 600 mg/dL
- Osmolalidade efetiva ≥ 320 mOsm/kg
- Ausência de cetoacidose significativa:
- pH ≥ 7,30
- Bicarbonato ≥ 15–18 mEq/L
- Cetonemia discreta ou ausente
Manifestações clínicas
- Confusão mental
- Sonolência
- Convulsões
- Coma
A intensidade dos sintomas neurológicos acompanha o grau de hiperosmolaridade.
Fatores precipitantes
- Infecções
- AVC e infarto agudo do miocárdio
- Embolia pulmonar
- Pancreatite
- Uso de corticoides
- Desidratação por baixa ingesta hídrica
Manejo
O tratamento deve ser realizado em ambiente hospitalar, preferencialmente em unidade de terapia intensiva.
H3: 1. Fluidoterapia (prioridade)
A reposição volêmica é a medida mais importante para redução da mortalidade.
- Iniciar com SF 0,9%: 15–20 mL/kg na primeira hora
- Ajustar conforme:
- Sódio corrigido
- Osmolalidade
- Estado clínico
Atenção:
Em idosos, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica → reposição mais cautelosa.
H3: 2. Correção do potássio
Fundamental antes da insulinoterapia.
- K+ < 3,3 mEq/L → corrigir antes da insulina
- K+ 3,3–5,2 mEq/L → repor junto com insulina
- K+ > 5,2 mEq/L → monitorar (sem reposição inicial)
Monitorização a cada 2–4 horas.
H3: 3. Insulinoterapia
Iniciar após reidratação inicial e correção do potássio.
- Infusão IV contínua: 0,05 U/kg/h
- Meta:
- Redução de glicemia de 50–70 mg/dL/h
Quando glicemia atingir 250–300 mg/dL:
- Reduzir insulina
- Associar solução glicosada (5–10%)
Objetivo: evitar hipoglicemia e queda rápida da osmolaridade.
H3: 4. Correção da osmolaridade
Deve ser lenta e controlada:
- Queda alvo: 3–8 mOsm/kg/h
Reduções rápidas aumentam risco de complicações neurológicas, incluindo edema cerebral.
H3: 5. Transição para insulina subcutânea
Quando houver:
- Estabilidade clínica
- Normalização do estado mental
- Retorno da alimentação oral
Conduta:
- Sobrepor insulina IV e SC por 1–2 horas
- Preferir esquema basal-bolus
- Utilizar análogos de ação prolongada
Critérios de resolução
- Paciente alerta e alimentando-se
- Osmolalidade < 315 mOsm/kg
- Glicemia < 250–300 mg/dL
- Correção dos distúrbios hidroeletrolíticos
- Ausência de acidose
Importância do tratamento da causa
O manejo só é completo com a identificação e correção do fator precipitante. Sem isso, há alto risco de recorrência e manutenção da mortalidade elevada.
Impacto na prática clínica
A diretriz SBD 2025 reforça pontos fundamentais:
- O diagnóstico deve considerar hiperosmolaridade, não apenas glicemia
- A fluidoterapia é a intervenção central
- A correção do potássio antes da insulina é crucial
- O tratamento deve ser gradual para evitar complicações neurológicas
Mensagem final
O estado hiperosmolar hiperglicêmico é uma emergência grave e potencialmente fatal. O manejo adequado, baseado em reposição volêmica, correção eletrolítica e uso criterioso de insulina, associado ao tratamento da causa base, é essencial para reduzir mortalidade e melhorar desfechos.
Autoria

Luiz Fernando Fonseca Vieira
Endocrinologista pelo HCFMUSP ⦁ Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) ⦁ Residência médica em Clínica médica pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) - Faculdade de Medicina de Botucatu
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Referências bibliográficas
# Augusto Cezar Santomauro Jr, Ana Teresa Santomauro, Carolina Couto Magalhães Camargo Barbosa, Roberto Abrão Raduan, Emerson Cestari Marino, Marcello Bertoluci, Rodrigo Nunes Lamounier. Manejo da Síndrome Hiperglicêmica Hiperosmolar não Cetótica (SHHNC). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025).