Uma análise nacional do Global Burden of Disease (GBD) 2023 aponta o IMC elevado como principal fator de risco à saúde no Brasil. Publicado no The Lancet Regional Health Americas, o estudo avaliou o país entre 1990 e 2023. No último ano, o IMC superou a pressão arterial sistólica elevada, e a glicemia de jejum elevada chegou ao terceiro lugar.
A Rede GBD Brasil, com cerca de 200 pesquisadores, produziu as estimativas em parceria com o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME). O ranking usa as taxas de DALYs por todas as causas, padronizadas por idade. O critério soma os anos de vida perdidos por morte prematura e os anos vividos com incapacidade. Cada DALY corresponde a um ano de vida saudável perdido.
Um segundo estudo do GBD 2023, publicado no mesmo periódico, ajuda a dimensionar esse avanço. A análise estimou a prevalência de sobrepeso e obesidade e a carga atribuível ao IMC elevado em 17 países da América Latina, e coloca o Brasil entre os que tiveram maior crescimento do excesso de peso desde 1990.

Como a pressão arterial sistólica perdeu a liderança?
A pressão arterial sistólica elevada liderou o ranking até 2021 e foi ultrapassada pelo IMC elevado em 2023. O IMC ocupava o sétimo lugar em 1990, enquanto tabagismo e outros fatores perderam posições no período. Segundo os autores, IMC e glicemia de jejum tiveram as menores reduções no risco atribuível desde 1990.
Leia também: Diagnóstico, estadiamento e manejo da obesidade: síntese de recomendações atuais
Alterações glicêmicas ganham força
A glicemia de jejum elevada passou da sexta posição, em 1990, para a terceira, em 2023. No mesmo intervalo, a diabetes subiu de oitava para sexta causa de DALYs no país.
Para os autores, a alta da glicemia e do IMC representa desafio sobretudo para a doença isquêmica do coração. O cenário amplia o papel do diabetes e da doença renal crônica, com urbanização, sedentarismo, dieta hipercalórica e ultraprocessados entre os determinantes.
Quando se olha a prevalência, o salto da obesidade fica claro
Entre 1990 e 2023, a prevalência padronizada por idade no Brasil evoluiu da seguinte forma:
- Adultos (25 anos ou mais): sobrepeso e obesidade passaram de 40,3% para 66,8%, alta relativa de 68,8%, um dos dois maiores aumentos da região, ao lado da Colômbia.
- Obesidade em adultos: subiu de 7,8% para 27,7%.
- Adolescentes e jovens (15 a 24 anos): sobrepeso e obesidade foram de 13,2% para 33,9%. A obesidade passou de 1,5% para 10,2%, alta relativa de 646%, a maior entre os países analisados.
- Crianças (5 a 14 anos): a obesidade foi de 3,0% para 3,9%, sem tendência definida.
Os autores apontam que o salto entre jovens reflete a prevalência muito baixa de 1990 e tem intervalo de incerteza amplo. Nas crianças, a escassez de IMC medido limita as estimativas em boa parte da região.
A análise de coortes latino-americanas mostra que gerações mais recentes atingem níveis altos de obesidade cada vez mais cedo. Entre homens, a prevalência aos 40 anos foi de 29,6% dos nascidos em 1980, contra 10,6% dos nascidos em 1950. Para os autores, como a remissão sustentada da obesidade após a adolescência é pouco comum, a prevenção precisa mirar explicitamente essa faixa etária.
Entre as mulheres brasileiras, IMC elevado já é o principal fator de risco
Os principais dados sobre a carga atribuível ao IMC elevado são:
- Mulheres no Brasil: o IMC elevado foi o principal fator de risco para DALYs por todas as causas em 2023, padrão também observado em Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador e Uruguai.
- Taxa de DALYs no Brasil: 1.825,6 por 100 mil mulheres e 2.015,7 por 100 mil homens em 2023, ante 1.751,6 e 1.547,8 em 1990, respectivamente.
- Causas mais afetadas na região: diabetes, doença isquêmica do coração e doença renal crônica.
- Faixa etária de maior carga: 60 a 64 anos.
- Total na América Latina: 15,8 milhões de DALYs atribuídos ao IMC elevado em 2023.
Os autores também discutem o papel dos agonistas do receptor de GLP-1. A capacidade global de produção deve atender, no máximo, 100 milhões de pessoas, menos que os 127 milhões de adultos com obesidade estimados na região. Preço elevado e baixa proteção financeira tendem a concentrar o acesso nos grupos de maior renda, o que reforça a necessidade de prevenção populacional ao lado do tratamento farmacológico.
Atenção primária sustenta o controle da hipertensão
A análise nacional atribui parte da melhora no controle da hipertensão e do tabagismo ao investimento em atenção primária. O tabagismo caiu de 36% em 1989 para 12% em 2019, após regulação, alta de preços e veto à publicidade. Esse controle contribuiu para a queda das mortes por AVC e doença isquêmica do coração, que geraram os maiores ganhos de expectativa de vida.
Em 2019, o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis tinha cumprido 4 de 12 metas. Diante do IMC elevado em alta, os autores defendem adaptar o plano ao envelhecimento, com prevenção da obesidade ao longo da vida. Eles também reforçam a necessidade de manter o controle da hipertensão e dos demais fatores cardiovasculares.
Saiba mais: Envelhecimento no Brasil: estudo revela desafios de saúde dos idosos
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria

Luciano Lucas
Editor de conteúdo da Afya. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.