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Endocrinologia26 outubro 2026

Hipotireoidismo subclínico na SOMP não altera hormônios

Evidência observacional de baixa certeza deixa dúvidas sobre prolactina e pede cautela ao interpretar o hipotireoidismo subclínico

A síndrome dos ovários policísticos (SOMP) é o distúrbio endócrino e metabólico mais comum em mulheres em idade reprodutiva, caracterizada por disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e morfologia ovariana policística, com maior risco de infertilidade, irregularidade menstrual e síndrome metabólica. O hipotireoidismo subclínico, definido por TSH sérico elevado com T4 livre normal, tem coexistido com frequência crescente nessa população, o que levanta o debate sobre se o hipotireoidismo subclínico na SOMP se associa a distúrbios reprodutivos mais graves.

Saiba mais: SOMP substitui SOP: nova nomenclatura da síndrome dos ovários policísticos 

As metanálises anteriores deixaram lacunas relevantes. Uma de 2017 avaliou apenas FSH, LH e SHBG, sem análise conjunta de estradiol, prolactina e testosterona total e sem estratificação por ponto de corte do TSH ou autoimunidade. Outra, de 2018, estimou apenas prevalência, e a de 2021 dependeu de literatura cinzenta, sem GRADE. Coortes publicadas entre 2021 e 2026 ficaram fora dessas buscas, o que motivou a nova revisão. 

Saiba mais: Hipotireoidismo Subclínico: temos novidades? 

Metanálise reúne estudos observacionais com critérios de Rotterdam 

Trata-se de revisão sistemática com metanálise de estudos observacionais (transversais, caso-controle e coortes retrospectivas), registrada no PROSPERO e conduzida segundo o PRISMA. As buscas em PubMed, Web of Science, Embase e Cochrane Library abrangeram publicações em inglês até 25 de abril de 2026. 

Seu objetivo consistiu em examinar a associação entre hipotireoidismo subclínico (HS) e os níveis de hormônios reprodutivos essenciais em pacientes com SOMP. Diferente do que se imaginava, com base em alguns estudos prévios, as análises agrupadas não identificaram diferenças consistentes e estatisticamente significativas nos níveis dos principais hormônios reprodutivos entre pacientes com SOMP com e sem HS.

Foram incluídas mulheres em idade reprodutiva com SOMP pelos critérios de Rotterdam, comparando aquelas com hipotireoidismo subclínico (TSH acima do limite laboratorial e T4 livre normal) a controles eutireoidianas com SOMP. Os pontos de corte do TSH variaram de 2,5 a 5,0 mUI/L entre os estudos. 

O desfecho primário foi o FSH sérico, e os secundários incluíram LH, estradiol, testosterona total e prolactina. O risco de viés foi avaliado pela escala de Newcastle–Ottawa e pelo checklist da AHRQ. A síntese usou modelo de efeitos aleatórios com diferença média padronizada (SMD), análises de sensibilidade e subgrupos por ponto de corte do TSH. A certeza da evidência seguiu um modelo adaptado do GRADE. 

Os níveis de FSH e LH diferem entre os grupos? 

Treze estudos de nove países somaram 3.114 mulheres, das quais 579 com hipotireoidismo subclínico e 2.535 eutireoidianas. Sete estudos tiveram risco global de viés baixo, cinco moderado e um alto, e a maioria pareou os grupos apenas por idade e IMC. 

Para o FSH (12 estudos), não houve diferença entre os grupos (SMD 0,038; IC95% −0,095 a 0,170; p = 0,581), com heterogeneidade moderada (I² = 36,4%). No LH, o resultado também foi nulo (SMD 0,095; IC95% −0,170 a 0,360; p = 0,482), porém com heterogeneidade substancial (I² = 81,4%). Na análise por subgrupo, o corte convencional (TSH > 4,0/4,5 mUI/L) resultou em SMD 0,144 (IC95% −0,252 a 0,539; I² = 86,8%) e o corte de 2,5 mUI/L, em SMD 0,002 (IC95% −0,224 a 0,229; I² = 46,2%), sem interação significativa (p = 0,5434). 

Estradiol (SMD −0,056; IC95% −0,442 a 0,330; p = 0,762) e testosterona total (SMD 0,08; IC95% −0,158 a 0,357; p = 0,882) também não diferiram, ambos com heterogeneidade elevada (I² de 86,4% e 92,7%). Ao excluir estudos com dados convertidos, o estradiol passou a SMD −0,326 (IC95% −0,654 a 0,002), achado exploratório e sem significância. Não houve viés de publicação para FSH (Egger p = 0,410) e LH (p = 0,478). 

Saiba mais: ACP 2025: Síndrome do ovário policístico – Realmente uma doença do clínico 

Prolactina sobe apenas após exclusão de estudo discrepante 

Na análise principal da prolactina (sete estudos), a diferença não foi significativa (SMD 0,614; IC95% −0,114 a 1,342; p = 0,165), com heterogeneidade extrema (I² = 95,3%). A retirada de um único estudo responsável pela heterogeneidade produziu elevação pequena e significativa (SMD 0,207; IC95% 0,077 a 0,336; I² = 0%). Como essa exclusão não estava prevista no protocolo, os autores consideram o achado apenas exploratório. O teste de Begg sugeriu possível efeito de estudos pequenos (p = 0,024). 

Apenas dois estudos dosaram anticorpos antitireoidianos e só um estratificou os resultados por autoimunidade, o que impediu a análise desse subgrupo. A certeza da evidência foi baixa para o FSH e muito baixa para os demais hormônios. 

Rastreamento tireoidiano segue as recomendações vigentes na ausência de alterações hormonais

A metanálise indica que, em nível populacional, o hipotireoidismo subclínico na SOMP não se associa a diferenças consistentes de FSH, LH, estradiol ou testosterona total, enquanto as evidências em torno da prolactina permanecem incertas. Para o médico, a coexistência da disfunção tireoidiana não interfere no diagnóstico da SOMP pelos critérios de Rotterdam, e atualmente os presentes resultados não bastam para orientar decisões sobre tratamento de fertilidade. 

Segundo os autores, a evidência atual não justifica alterar as diretrizes de rastreamento tireoidiano na SOMP, de modo que a avaliação tireoidiana deve seguir as recomendações existentes, sem ser deixada de lado. O monitoramento metabólico continua necessário nessas mulheres, já que pacientes com SOMP e HS costumam apresentar obesidade e alterações glicêmicas mais importantes. Como ovulação, gestação e aborto não foram avaliados, o benefício da levotiroxina nesse cenário segue indefinido e depende de ensaios clínicos randomizados. No Brasil, onde foi conduzido um dos estudos incluídos, a leitura deve considerar que os desenhos observacionais e a variação dos cortes do TSH impedem inferência causal. 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

Foto de Júlia Terra Knifis

Júlia Terra Knifis

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