Ao longo dos últimos anos, a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) vem ganhando atenção especial em relação ao seu impacto metabólico e na saúde mental de suas portadoras, além das questões reprodutivas e dermatológicas. A condição afeta 1 a cada 8 mulheres, ou seja, mais de 170 milhões de mulheres no mundo.
Em 2023, houve uma atualização da diretriz americana de cuidado à pessoa portadora de SOP, com foco na importância do diagnóstico, da classificação em fenótipos e da extensão do cuidado para além das questões ginecológicas. Agora, em 2026, após um processo de consenso global rigoroso envolvendo mais de 14.000 pessoas com SOP e profissionais de saúde de todo o mundo, a condição passa a ser renomeada como Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
A mudança da nomenclatura teve como objetivo melhorar a acurácia diagnóstica e terapêutica, reduzir estigmas e refletir melhor a condição como algo sistêmico, e não puramente ovariano. Hoje, há evidência robusta de que a SOMP envolve não só um recrutamento folicular excessivo, mas também alterações endócrinas amplas, aumento da resistência insulínica, disfunções neuroendocrinológicas, alterações cardiovasculares, metabólicas, psicológicas e dermatológicas.
Como o consenso foi construído?
Diferentemente das propostas anteriores, o novo consenso foi desenvolvido por meio de uma iniciativa global ampla, estruturada e multidisciplinar. A coordenação do projeto foi centrada em três instituições principais — Monash University, Androgen Excess and PCOS Society e Verity —, mas contou com 56 organizações internacionais, incluindo sociedades médicas, grupos de pacientes e representantes de diferentes regiões do mundo.
Inicialmente, foram realizados surveys internacionais, seguidos de workshops e votações interativas, permitindo o refinamento progressivo das propostas de nomenclatura. No total, o processo reuniu 14.360 respostas globais, incluindo 10.411 pacientes e 3.949 profissionais de saúde, provenientes de diferentes continentes e áreas de atuação.
O objetivo não era apenas escolher um novo nome, mas construir uma terminologia que refletisse adequadamente o conhecimento científico sobre a síndrome e que, ao mesmo tempo, fosse culturalmente aceitável e viável para implementação internacional.
Saiba mais: Síndrome dos ovários policísticos recebe novo nome global
Estratégia global de implementação
Os autores propuseram uma estratégia global e progressiva para implementação da nova nomenclatura, estruturada em oito etapas sequenciais e complementares:
- Publicação científica e ampla disseminação acadêmica da proposta de mudança do nome da síndrome, acompanhada de editoriais, revisões clínicas e atualização de materiais educacionais.
- Desenvolvimento de recursos educativos direcionados tanto a pacientes quanto a profissionais de saúde, em diferentes idiomas e formatos de comunicação.
- Criação de uma estratégia internacional de comunicação e engajamento, envolvendo sociedades médicas, programas de educação profissional, campanhas multimídia e materiais multilíngues para pacientes e clínicos.
- Incorporação da nova terminologia aos sistemas de saúde e de informação médica, incluindo prontuários eletrônicos, plataformas educacionais e sistemas padronizados de nomenclatura clínica.
- Alinhamento institucional e científico, com envolvimento de governos, agências reguladoras, financiadores de pesquisa, periódicos científicos e indústria da saúde, visando padronizar a utilização da nova nomenclatura em publicações, pesquisas e sistemas de financiamento.
- Articulação formal com organismos internacionais, especialmente a World Health Organization, para promover a incorporação do termo aos sistemas internacionais de classificação de doenças, incluindo a Classificação Internacional de Doenças (CID).
- Período de transição controlada de três anos, acompanhado por monitoramento contínuo e avaliação sistemática da implementação, permitindo eventuais refinamentos da terminologia conforme a evolução do conhecimento científico.
- Incorporação definitiva da nova nomenclatura aos guidelines internacionais da síndrome, consolidando oficialmente a transição de SOP para SOMP nos futuros consensos e diretrizes clínicas internacionais.
E qual o impacto dessa mudança no cuidado médico?
A SOMP é caracterizada por alterações hormonais complexas, com impacto significativo sobre peso, metabolismo, saúde mental, manifestações dermatológicas e sistema reprodutivo. A limitação da antiga terminologia aos “ovários policísticos” reforçava excessivamente apenas uma das características clínicas e diagnósticas da condição, frequentemente associada a interpretações equivocadas e a um possível superdiagnóstico baseado em achados ultrassonográficos, abordagem que vem sendo progressivamente revista e relativizada nos últimos anos.
Até o momento, a mudança da nomenclatura não modifica a propedêutica diagnóstica da condição, mas reforça a importância de uma abordagem mais holística e multidimensional no manejo terapêutico da síndrome. Durante décadas, a denominação anterior reduziu uma condição hormonal e endócrina complexa, crônica e multissistêmica a uma interpretação simplista relacionada à presença de “cistos” ovarianos e ao funcionamento desse órgão.
Essa limitação conceitual contribuiu para atrasos no diagnóstico, subvalorização de manifestações metabólicas e psicológicas, além de abordagens terapêuticas frequentemente fragmentadas e insuficientes.
A mudança da nomenclatura publicada no The Lancet foi construída com 14 anos de colaboração global entre especialistas, sociedades médicas e pessoas com experiência vivida na condição. Um episódio curioso relatado pelos autores ocorreu durante a avaliação da proposta “Endocrine Metabolic Ovulatory Syndrome”, cuja sigla seria “EMOS”. Apesar de inicialmente surgir entre as opções mais bem avaliadas, a proposta acabou sendo abandonada após análises de comunicação identificarem associação da sigla com a subcultura juvenil “emo”, historicamente relacionada à melancolia, sofrimento emocional e alienação social, o que poderia dificultar a aceitação pública da nova terminologia.
O termo foi considerado aquele que melhor integrava os principais aspectos fisiopatológicos da síndrome, ao mesmo tempo em que eliminava a referência considerada biologicamente imprecisa aos chamados “ovários policísticos”.
Veja também: Síndrome dos ovários policísticos: distúrbios metabólicos
Implicações clínicas
Mais do que uma simples mudança terminológica, a transição de SOP para SOMP representa uma transformação na forma como a síndrome é compreendida. A nova nomenclatura procura traduzir o entendimento de que se trata de uma condição crônica, heterogênea e multissistêmica, que ultrapassa o sistema reprodutivo e exige acompanhamento longitudinal e multidisciplinar.
O foco deixa de estar centrado exclusivamente na presença de “ovários policísticos” e passa a reconhecer o papel central das alterações metabólicas, endocrinológicas e psicossociais na experiência dessas pacientes.
Na prática clínica, essa mudança reforça a necessidade de ampliar o cuidado para além da regulação menstrual e da fertilidade, valorizando rastreamento cardiometabólico, saúde mental, manejo do peso sem estigmatização, qualidade de vida e cuidado individualizado.
Mais do que renomear uma síndrome, a proposta busca redefinir a forma como profissionais de saúde, pacientes e sistemas de saúde enxergam uma das condições endocrinológicas mais prevalentes e historicamente subestimadas da saúde da mulher.
Mensagem prática
A nova nomenclatura da SOP reforça que a síndrome deve ser compreendida como uma condição sistêmica, metabólica, endócrina e psicossocial, exigindo cuidado longitudinal, multidisciplinar e individualizado.
Autoria
Sérgio Okano
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